Da humanidade e suas metades

A galeria de invenções desastrosas do ser humano é grande. Mas nenhuma se compara à criação dos meio-humanos. O termo é um neologismo sim, mas uma exata descrição.  Os meio-humanos são uma invenção antiga, uma estratégia tão eficiente quanto perniciosa.
 
Na Ilíada de Homero temos a descrição de como as batalhas aconteciam na Grécia antiga. Antes de começar, o líder fazia um discurso. Apresentava suas vitórias e conquistas. Diríamos hoje que ele “expunha seu currículo”. Depois descrevia os motivos que o levavam a desafiar o oponente naquela contenda. Depois era a vez do oponente, que fazia o mesmo. Todo esse palavrório era ouvido pelos guerreiros dos dois lados, ao mesmo tempo. E cada guerreiro, após cada discurso, gritava o nome de quem apoiava confirmando a decisão de lutar por ele. Normalmente já haviam decidido antes de saírem para lutar. Mas podia acontecer de algum deles, ao ouvir o que diziam os líderes, mudar de lado naquele momento. Ou mesmo desistir, abandonando o local. Era uma opção legítima, aceita por todos. Só então começava a batalha.
 
Para um leitor moderno essa descrição soa absurda e fantasiosa.  Mas, ainda que alguma licença poética se aplique, a descrição feita por Homero é verossímil. As batalhas gregas eram assim. Todo aquele palavrório era indispensável porque os homens que lutavam eram homens inteiros. Eram donos de sua consciência. Tinham que ser convencidos a lutar em cada batalha. Afinal, sabiam que boa parte não retornaria vivo. Era preciso uma boa razão para morrer.
Era um outro mundo, um outro tempo e com uma sabedoria que, não à toa, fez a cabeça dos pensadores no Renascimento. Eles perceberam que a Grécia Clássica trazia lições que valia a pena escutar.
 
E o que mudou de lá pra cá?
 
Nas guerras modernas o líder, aquele que tem o interesse maior na batalha (leia-se, os lucros), jamais estaria na frente da batalha. E se estivesse levaria um tiro antes de abrir a boca. Porque nas batalhas modernas não há tempo nem lugar para os que pensam com a própria cabeça. O confronto é entre seres que não decidem, que não pensam. E qualquer desistência, chamada deserção, é um crime punido rigorosamente, quase sempre com a morte. Não podem desistir nem jamais decidir se devem atacar e a quem. Devem apenas obedecer. E para facilitar o pensamento, pessoas e lugares são rebatizados. Um homem, uma mulher, uma vila, uma criança, pouco importa, são apenas “alvos”. Que alguém lhes aponta.
 
As guerras não são mais travadas pelos humanos. São os meio-humanos que atiram.
 
E cada lado da disputa traz para a batalha seu contingente de meio-humanos. E as chances de vitória são do lado que consegue repor seu estoque de meio-humanos mais rapidamente. Para isso, eles tem de ser produzidos em grande quantidade e, ao menos durante uma guerra, no menor tempo possível. E, é claro, com boa qualidade de funcionamento. Um meio-humano de qualidade não pode dar defeito durante a batalha. Pensar, por exemplo. Ou ter dúvidas. É uma ferramenta, uma coisa.
 
Todo aparato militar moderno é baseado na capacidade operacional de fabricar meio-humanos.
 
Os jovens humanos são recrutados desde cedo e, antes de poderem entender o que é a vida, são adestrados para matar. Nessas fábricas o valor fundamental é a obediência. Um meio-humano poderá até ser perdoado se tiver medo, se não atirar bem, se não for agressivo o suficiente. Nesse caso pode ser remanejado, usado na retaguarda. Talvez ainda seja útil. Mas, se desobedecer ou mesmo tiver qualquer dúvida torna-se um grande perigo. Deve ser eliminado, expulso. Ou morto, o que é mais seguro. Pois se tem dúvidas poderá servir ao inimigo.
 
O meio-humano perfeito é aquele que executa qualquer ordem imediatamente, com a máxima eficiência e sem jamais questionar.
 
Não é fácil nem barato criar o meio-humano perfeito. Custa mais que manter a saúde de toda a população, por exemplo. É necessário um treinamento rigoroso que arranque sua humanidade e o afaste de outras referências. Isso é o mais fácil. O difícil sempre foi fazê-los obedecer cegamente. É preciso afastá-los da família, dos livros, dos afetos e de qualquer referência que o ajude a questionar, que o desvie de onde devem olhar. Como aos cavalos, é preciso direcionar o olhar.
 
Ao longo da história uma das estratégias mais eficientes para manter a obediência dos meio-humanos tem sido a bandeira.
 
Nas primeiras guerras, a bandeira servia para sinalizar ao meio-humano o que ele devia fazer, para onde avançar, a quem atacar e quando. Representava o seu líder. E se sua bandeira caia, a batalha estava perdida.
 
Hoje as batalhas são mais complexas e o comando dos meio-homens bem mais eficiente. Usa-se rádios, comandos em hierarquia e táticas previamente treinadas. A presença da bandeira no campo de batalha não é mais importante como já foi.
 
Mas a bandeira ainda é fundamental para a formação e orientação dos meio-humanos fora do campo de batalha. Ela é exibida todo o tempo em todas as fazendas de criação de meio-humanos. É grafada nos uniformes. Hasteada, jurada e adorada diariamente em rituais de confirmação que envolvem cantos e gritos. É tratada como sagrada e a dedicação de cada meio-humano exigida como um ato inquestionável de fé e abnegação.
 
Mas a bandeira representa mais do que isso, devem pensar alguns leitores. É a identidade de toda uma nação, de um povo. Concordo. Apenas lembro que a bandeira, como todo símbolo, carrega sentidos e utilidades diferentes, conforme quem a ostente. Aqui trato apenas de como é útil à produção e manutenção dos meio-humanos.
 
E chamo a atenção para um fato realmente alarmante.
 
Na maior parte das guerras na história eram os meio-humanos que morriam. Eram os homens adultos recrutados em cada aldeia, em cada cidade. Suas famílias, velhos, crianças e mulheres, os que ficavam em casa, sofriam a perda dos seus, mas eram irrelevantes para a batalha e sobreviviam. Mas, desde a primeira guerra mundial, quem mais morre são justamente os velhos, mulheres e crianças. E os homens que não pegaram em armas. As batalhas, que antes aconteciam em algum campo afastado, acontecem exatamente onde os humanos habitam. Pois não se trata mais de derrotar os meio-humanos inimigos, mas de eliminar os humanos que eles defendem.
 
O que se esconde é que as guerras já evoluíram. Não é mais entre grupos inimigos de meio-humanos, que se revezam entre vencidos e vencedores. Essas se sucedem, se alternam. Ganha um país, perde outro. Depois ao contrário. E para a maioria dos humanos, pouco importa quem vença. São eles que sofrem e morrem. As vítimas são os que não atiram, os que não querem as guerras mas não tem poder para impedi-la. Não ainda.
 
E essas vítimas vão percebendo o que significam as bandeiras que os meio-humanos seguem. E o que não são, o que não mais representam.  Pois já faz tempo que as bandeiras tem sido úteis para a guerra, não para a paz. E aprendem que vivem sob uma nova forma da guerra, que ainda não se vê claramente, mas já é hora. 
A guerra entre os meio-humanos e os homens inteiros de todo o planeta.
 
Pois já entendemos que para um meio-humano, todo homem inteiro é um inimigo.
 
Porque um homem que pensa e decide seus próprios caminhos é sempre um perigo à unidade da bandeira, à obediência cega. Mesmo que viva sob o mesmo teto, seja um vizinho, um amigo, deve ser eliminado.
 
Mesmo sendo ele mesmo, o meio-humano que vacila.  É esse o inimigo. Pois essa metade, abafada mas não suprimida, pode sempre renascer. 
Será por isso que tantos meio-homens se matam?
 
Deixo um conselho. Se voce tem dúvidas, voce ainda é humano. Mas cuidado. Há cada vez mais meio-humanos ao nosso redor. Ou talvez voce mesmo já esteja se perdendo. Se for o caso, abra os olhos, olhe em todas as direções, exercite escolhas diariamente, qualquer que seja. Exercite o pensar. Questione tudo e todos, ainda
que silenciosamente. Acorde sua humanidade. Leia, leia muito.
 
Vai passar.   

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