Que nos aquece e ilumina

Algo acontece quando eu olho o fogo. Ele me revela coisas que não estão nos livros, que não encontro no Google, que nunca me contaram.  Encaro a dança das chamas e me vem coisas que não compreendo de todo. Mas absorvo com atenção. Ele fala e eu compreendo. Não se assustem, não vejo espíritos ou entidades místicas, nem uso drogas. E até onde eu sei não estou maluco. É como uma conversa sem palavras em que a própria existência do fogo já diz muito. Outro dia descrevi uma dessas “conversas” em outra crônica com o título
 
“Da magia de ser o que não se é”.  Está aí embaixo para quem não leu. Hoje trago outra.
 
Fogo é um resultado visual da liberação de luz e calor que acontece quando algo entra em combustão. Sozinho ele não existe, você não pode isolar. É sempre alguma matéria queimando. Carvão, lenha, papel, gás ou qualquer outra coisa que se inflama. E o fogo aparece. Então não se iluda, se você conseguiu pegar fogo com as mãos, é sua mão que está queimando.
 
Tecnicamente, fogo não existe. O que não quer dizer que não transforma, que não causa efeito, que não muda a realidade. Muda e muito.
 
E isso é algo importante para a gente saber. Não é apenas o que se pode isolar e pegar que altera as coisas, que faz diferença. O que é “intangível”, intocável, pode ser muito poderoso também. Não conheço melhor símbolo para a imaginação humana do que o fogo. O que imaginamos também não existe. Mas transforma o mundo. Muito mais do que costumamos perceber.
 
As coisas que não existem são as que mais mobilizam o ser humano desde a pré história. E criar o que não existe é um poder supremo. Não à toa, alguns povos acreditam que o fogo foi um presente dos deuses.
 
Tudo que é imaginado pelo ser humano é valioso. É comum as pessoas acharem que uma criação tem um alto valor devido à grande habilidade de seu criador. Qualidade é sempre bom. Mas o que realmente determina o valor da água é o tamanho da sede. Quem já comprou uma garrafinha na praia em pleno carnaval sabe disso. Então quando trato de temas comuns e banais, que não me fazem falta, faço menos diferença. Mas se trato do impossível, do que nenhum ser humano pode atingir, sou indispensável.
 
Até aqui vocês devem estar pensando que falo de literatura, de teatro, cinema, obras de arte. O que acontece com a criação artística nesse século é um processo de venda de gostos, em que se empurra conteúdos banais onde o valor da obra é a quantidade de exposição e não sua qualidade. A chamada “indústria cultural”. Outro dia escrevo sobre isso, se quiserem.
 
Aqui trato de criação humana em um sentido mais amplo. Quero contar o que o fogo me revela sobre três grandes caminhos que se utilizam largamente da imaginação e cujo valor reside, como eu vinha argumentando, na fome humana, na suas carências, na sua condição incompleta.
 
Pois é a ausência que move os seres humanos. Tudo nos falta. O essencial não está em nós. E temos que repor. O ar que bombamos por toda a vida, o alimento, a água. São as necessidades mais urgentes, as mesmas de todo ser vivo. Satisfeitas essas, outras carências gritam. Abrigo, afeto, compreensão, amor. Passamos a vida buscando. E propriedades e objetos que imaginamos precisar. Ao mesmo tempo, alguns de nós despertam consciência do coletivo e vivem outras necessidades. Como de justiça, por exemplo. Outros decidem olhar além do que comumente se vê e despertam a fome por sabedoria. E quanto mais olham mais aprendem o quanto jamais saberão. E a fome só aumenta. Uma fome de saber daquilo que é impossível saber.
 
E o quê é impossível saber? Três são as grandes perguntas e suas respostas guiam o mundo:
 
De onde viemos antes de nascermos e para onde vamos após nossa morte? É a primeira e as respostas criadas fundamentam as religiões.  Da mais antiga a mais moderna, o poder das igrejas deriva de sua capacidade de bem responder o irrespondível. Se pudéssemos morrer um pouquinho, dar uma olhada e voltarmos, não precisaríamos da resposta de outros homens. Mas até que isso seja possível, confiamos no que pregam os sacerdotes em todo mundo.
 
Não pretendo desautorizar nenhuma religião. Apenas lembrar o que é óbvio para todo religioso: que nada se pode provar, tudo é uma questão de fé, não de certezas.
 
Como será o amanhã enquanto vivemos? É a segunda pergunta e cuja resposta fundamenta toda política.  Dos heróis guerreiros que levantavam suas espadas nos convencendo da vitória aos que hoje pedem votos prometendo um futuro melhor. Todo poder de um político também deriva de sua capacidade de bem responder ao irrespondível. Venceremos, teremos sucesso? Viveremos bem? Se pudéssemos ir ao futuro, dar uma olhada e voltarmos, não precisaríamos da intermediação de outros homens. Mas até que isso seja possível, confiamos no que afirmam nossos líderes políticos. 
 
Não pretendo aqui questionar nenhuma vertente política. Mas apenas argumentar o óbvio. Que diante de incertezas tantas, a capacidade de insuflar esperança é fundamental. É o que nos move no plano político.
 
As duas primeiras perguntas os sacerdotes e os heróis guerreiros, ou políticos, tem respondido. E dessas respostas tem-se forjado as civilizações. Dos esforços de convencimento, portanto de poder, da luta entre eles, quantas vezes sangrenta, faz-se a história humana. Uma guerra eterna entre respostas. E qual a correta? O fogo me ensina que todas e nenhuma. São invenções humanas para saciar a fome dos homens de responder o irrespondível. Uma guerra tola que revela, até aqui, nossa incorrigível imaturidade.
Felizmente, há uma terceira pergunta fundamental.
 
Quem sou eu?
 
Também, como as outras duas, sem uma resposta inquestionável. Mas um gigantesco caminho para construir uma resposta própria, uma decisão. Perguntar-se é a chave que dá início a essa construção. E perceber que não há resposta pronta é a melhor bússola. Cabe a cada um de nós determinar-se.
 
E os artistas, escritores, dramaturgos, pintores, músicos e todos os que se voltam para essa questão tem melhorado o mundo com suas dúvidas. Não com respostas. Porque sabem os artistas que é da dúvida que brota a Arte que verdadeiramente alimenta. E qualquer resposta, por mais sábia naquele momento, deixará de servir. Porque o homem, como o rio, sempre muda.
 
O mundo vive em guerra porque os respondedores insistem que suas respostas são as certas, são as verdadeiras. E para nos convencer, usam e abusam do que lhes ensinam os artistas, e cada vez mais a religião e a política se inflama de beleza e recursos artísticos. Mas é uma apropriação maliciosa. Em todas as épocas as artes foram utilizadas para a pregação das verdades. E os artistas queimados nas fogueiras.
 
É porque eles sabiam, como sabemos até hoje, de que é feita a fantasia dos poderosos.
 
Mas, diante do fogo ou não, cada pessoa, você também, pode entender que a vida é sonho. E que é capaz de criar os seus. E compartilhá-los conosco em volta da grande fogueira que é esse planeta. E quando forem apreciados e aceitos, que seja de bom grado. Porque nos ajuda, porque precisamos de outros sonhos. Porque também os seus, como o fogo, nos aquece e ilumina.  
 

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