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A origem do xadrez

Por Mario Ribeiro

Ninguém pode afirmar com precisão sua origem. Em torno dessa incógnita existe enorme rede de possibilidades, algumas fantásticas. Lendas se multiplicaram, cada uma rogando para seu povo, raça, ou tribo, a glória eterna de ter inventado o jogo de Xadrez!

Dentre elas, uma certamente resiste à erosão dos anos. Tão repetida pelos historiadores que repercute como algo verídico.

Atribui-se a criação do Xadrez a Sissa, conselheiro da Corte do Rajá indiano Balhait, época em que o calendário não conseguia captar.

Balhait, senhor absoluto da Índia, sofrendo de tédio, pediu a Sissa, o maior de todos os sábios, para aliviá-lo desse mal.

Sissa sabia que a doença que acometia o soberano não era orgânica; mas, simplesmente,  depressão psíquica na alma, provocada pela saturação de todas as coisas que o cercavam.

O sábio necessitava descobrir algo novo que despertasse sua curiosidade, atenção e que o tirasse de vez daquela apatia. Empenhou-se, então, no invento de algo para que o rajá encontrasse fuga à melancolia das horas tão vazias.

O Rei ficou feliz porque sabia da aguçada capacidade criativa de seu súdito, dos domínios sobre  os segredos da inteligência humana. Porém, advertiu-o: “Quero uma digressão que venha a arejar o meu espírito e livrar-me da depressão. Caso pretendas me presentear com um jogo capaz de ressuscitar os meus momentos de lazer, fazei-o incontinente; todavia, que jamais seja decidido pela sorte e, sim, que demonstre qualidades como prudência, diligência, visão e agilidade mental.

Sissa apresentou a Balhait um tabuleiro de Xadrez e as peças – que representavam os quatro elementos do exército indiano: carros, cavalos, elefantes e soldados, comandados pelo rei e o vizir (corresponde ao bispo),  explicando que escolhera a guerra como modelo porque acreditava ser o método mais eficiente para se aprender o valor da decisão, vigor, persistência, ponderação e coragem.

Balhait, encantado com a novidade, determinou que a invenção fosse preservada nos templos como fundamento de toda Justiça.

Em agradecimento, o rei ordenou, incontinente, que Sissa fizesse um pedido. “Desejo, senhor, minha recompensa em grãos de trigo sobre o tabuleiro de Xadrez. Na primeira casa, um grão. Na segunda, dois. Na terceira, quatro. Na quarta, o dobro de quatro, e assim por diante, até atingir a última casa, sempre em progressão dobrada na quantidade de grãos, casa a casa”.

Naquele instante, o tal desejo causou hilaridade ao soberano que, autoritário, mandou que Sissa escolhesse um prêmio mais valioso, não ridículo.

Sissa sorriu levemente diante da total ignorância do senhor e de seus vassalos. “Não preciso de mais nada. Basta-me isso”.

Assim, o rei determinou que fosse trazido punhados de trigo. Logo foi necessário buscar mais, e muito mais, até se esgotar todo o estoque do Palácio.

Calcularam o volume de grãos devidos ao rajá. E bem antes de atingir a 64ª casa do tabuleiro, Sissa disse que sabia ser impossível receber a recompensa na íntegra porque o volume do trigo necessário cobriria toda a superfície da Terra: 18.446.744.073.709.551.615 de grãos!

Reza a lenda que o Rei não soube o que mais admirara: a invenção do Xadrez ou a engenhosidade do pedido de seu súdito.

Curiosidade – A denominação xadrez vem da palavra persa shah, que significa “Rei”.  Quando as hordas árabes (mouros) invadiram a Pérsia, aprenderam a jogar Xadrez com os persas e levaram esse conhecimento para a Espanha.

Há cerca de novecentos anos, o jogo se expandiu pelo “Velho Continente”. Foram os europeus que deram às peças os nomes conhecidos hoje: peão, torre, bispo, cavalo. rainha (dama) e rei porque sentiram dificuldade de pronunciar seus nomes na língua persa, adaptando-os ao seu idioma.

Por sua vez, as peças traduzem, fielmente, a rotina de vida na Idade Média. A disposição delas no tabuleiro, como se movimentam e seus nomes têm relação direta com a elegância e conflitos que sempre fascinaram milhões de pessoas mundo afora!

Imagine,  caro leitor, o Xadrez como uma batalha iminente: um castelo onde podemos ver os peões trabalhando e defendendo seu reino, juntamente com seus cavalos. Um bispo a observar de uma torre qualquer manifestação suspeita do inimigo, sempre sob o comando de uma rainha, que faz de tudo para agradar ao rei. Até a próxima!

Mario Ribeiro é jornalista e instrutor de xadrez

Foto: Banco de Imagem/Pixabay

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