8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Ando grávido

Estou ficando barrigudo. E não me digam que é da idade. Quantos novos por aí são também avantajados no quesito barrigão? Logo eu que prezo andar e só uso a bicicleta. Mas estou em nova fase. Mesmo ainda pedalando, já é outra minha rotina. Passo o dia inteiro sentado, acomodado, no teclado. Levo os dias escrevendo, lendo, repassando muito texto. E ouvindo muita música. As que não pude em todo o tempo que servi cartão de ponto. Mas não estou aposentado, não se apressem. Não fiz ainda cento e vinte. E pago imposto num país de terríveis sangue-sugas.

O fato é que eu ando grávido. Estou gestando um romance, uma história rocambolesca de uma dupla de palhaços, um deles predestinado, que se põe pelo sertão descobrindo o que eles são. Esse é um filho, que eu sonho não morrer, antes de vê-lo publicado. Tem também uma encomenda, de um texto bem dramático, de um quarteto de mulheres, uma família envolvente e envolvida no que sentem, para além do se vê. E um projeto muito louco de um solo teatral de uma atriz sensacional, que mistura o próprio parto com o enterro de si mesmo, sendo duas e uma só. E a revisão e diagramação da biografia de um senhor muito importante. Mais ainda os projetos para aulas e concursos. Fora a crônica semanal, uma delas essa aqui.

A gravidez, tão exigente, me confina e confirma essa rotina. Dia e noite eu sentado, o mouse, a tela e o teclado. E pra ajudar tem minha mãe que me chama pro café, pro almoço, café da tarde, o jantar e o lanchinho “pra não dormir com fome, meu filho”.

Eu que nunca tive barriga vou assistindo ela crescer. Incomodando meu sentar. Olho feio para ver se ela se toca, que não é bem vinda, vai embora! Ela esnoba, me ignora e ainda exige uma coçada logo ao lado do umbigo, “mais pra cima, aí, chegou”. Eu vencido, coço então. E descubro esse prazer. E outros que desconhecia. Me estico na cadeira, fingindo que é ginástica. Mas é o botão do ventilador que me eu tento alcançar. E aprendo que obeso, ou quase ainda, corro o risco, ao suar, de uma gota ir parar bem no meio do cofrinho, onde chega até a assar.

E assim vou barrigando. Mas não me dou por vencido. Aguardo o fim da gestação, que todo esforço tem seu parto. Assim espero, como espera quem concebe, que os filhotes nascerão. E verei o livro editado, a dramaturgia encenada, o espetáculo estreado. E retomarei às oficinas de teatro, ensinando outras mentes a gestarem suas obras.

Mas intuo que não escapo para sempre dessa engorda. Não me iludo, chegarão novos projetos. Alguns já sinto se mexendo, revirando em pensamento. Novo romance, talvez um policial recheado de mistério.

Mas nesse ciclo de energia, no intervalo da produção, espero ter um tempo extra pra nadar lá na Guaiúba. Esteja sol ou esteja chuva. Convidar alguém dali, para também não fazer nada, exceto talvez uma gostosa imitação do Oscar, aquele filme campeão.

saiba antes via instagram @revistamaissantos