COLUNAS 

Fazia um bom tempo que não ia cortar o cabelo no salão. Em toda minha vida, só fui ao barbeiro mesmo, essa entidade. Nunca fui a cabeleireiros, essa coisa mais profissional e menos cultural. Coisa de quem cultiva a vaidade, não para mim, sempre flertando entre a carequice e a calvície desde antes de crescerem pelos aqui e ali.

Os “barber shop” – com nossa estranha mania de colocar nomes em inglês para tudo – cortando cabelo em um ambiente gourmet que vende de uísques a tatuagens são algo ainda bem estranho para mim, como subcelebridades de redes sociais ou pobres de direita. 

Calvo desde os 20 anos, meu salão tem sido o banheiro de casa com meu estoque de lâminas de barbear já há algum tempo. Quebrei a rotina semana passada. Achei nostálgico me recordar desse ambiente lúdico do psicólogo da periferia.

Os barbeiros e os taxistas guardam segredos que derrubariam a República, eles ouvem confissões tão íntimas quanto soltas dos tantos que passam por suas cadeiras com um grande pano nos protegendo de nossos próprios cabelos.

Dos 45 minutos sentado naquela poltrona característica, uns 20 são dedicados aos papos, cumprimentos aos conhecidos passando na rua e teorias mirabolantes que resolveriam os problemas da humanidade, se as autoridades (in)competentes dessem ouvidos aos aperfeiçoadores de madeixas. Eles, sim, sabem toda a verdade do mundo.

E cobram de nós uma lealdade meio estranha. Experimente cortar sua juba com o outro profissional do salão ou no concorrente ao lado – pois não há barbeiro solitário, eles costumam se acomodar na mesma calçada, como um shopping capilar no centro da cidade. Pode ter certeza de que haverá ciúmes maiores do que o de relacionamentos abusivos.

São olhares tortos e desconfiados, seguidos de cumprimentos mais apertados do que o normal depois de uma traição como essa. Da até medo depois de voltar a cortar o cabelo com quem se sentiu traído. Imagine o sentimento de posse na cabeça de quem tem uma navalha na mão (no meu caso).

Temo um filme de terror em que a ameaça na minha jugular com um princípio de sangue saindo ressoe com gritos de “por que você não cortou o cabelo aquele dia comigo? Nunca mais faça isso! Espere na próxima vez!”.

Quando resolvo ir ao salão por falta de lâminas de barbear no meu banheiro, fico calado, estático, em um ambiente desconhecido.

Evito puxar assuntos tensos como religião, política ou futebol com quem corta meu cabelo. Ainda mais agora, que passo a navalha para deixar a careca mais reluzente. Se ele lembrar que faz um bom tempo que não venho aqui, pode desconfiar que atravessei a rua da última vez, corro algum risco e não dá tempo de ligar para ninguém. Quem vai querer ser minha testemunha nessa neurose non sense?

Eu, que me afasto de mulheres histéricas, também tenho medo de crimes passionais, cujo retrato falado denunciaria o dono do salão daquela esquina, justificando um crime cometido depois de saber de tão cara deslealdade.

Deve ser por essa paranoia que o próximo cliente torce para ele terminar esse corte logo e só reclame da demora mentalmente, com algum receio do que possa acontecer com seu visual nas mãos de quem sente ciúmes de cultivar a vaidade na cabeça alheia.

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