8.0 // COLUNASMAIS SAÚDE

Entrevista com a dra. Amanda Cuban Oliveira

Por Alexandre Catena e Priscilla Freitas

A verdade absoluta que já sabemos atualmente é que o leite materno é essencial para a saúde do bebê, um alimento completo, que oferece os nutrientes, minerais e os compostos antibacterianos. No entanto, as estatísticas ainda mostram que metade das mães em fase de amamentação não alimentam seus filhos exclusivamente com leite materno e o principal motivo é a falta de informação. Entrevistamos a renomada pediatra Dra. Amanda Cuban Oliveira, que atualmente faz parte da equipe do Hospital Casa de Saúde de Santos no primeiro atendimento ao recém nascido, no Instituto Neymar Junior desenvolvendo o trabalho de puericultura, crescimento e desenvolvimento, assim como na clínica Traumaxxis situada na cidade de Praia Grande como pediatra generalista.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que os 6 primeiros meses de vida, o bebê seja alimentado exclusivamente pelo leite materno. Quais os benefícios que o aleitamento materno traz para o bebê e para a mãe?

R.: São inúmeros benefícios, porém os que já temos conhecimento são:

  1. A amamentação diminui a mortalidade das crianças.
  2. Protege contra mortes infantis causadas por doenças infecciosas.
  3. Diminui o risco da Síndrome da Morte Súbita do Lactente
  4. O aleitamento poderia prevenir mais da metade dos episódios de diarréia e sua gravidade.
  5. Pode prevenir um terço das infecções respiratórias nos 2 primeiros anos de vida.
  6. Protege contra Enterocolite Necrosante
  7. Está associado com melhor desempenho nos testes de inteligência em crianças e adolescentes.
  8. Reduz maloclusões na dentição decídua
  9. Crianças amamentadas diminui o risco de Diabetes Mellitus tipo 2 

Para as mães:

  1. Reduz o peso mais rapidamente após o parto
  2. Ajuda o útero a recuperar seu tamanho normal, diminuindo o risco de hemorragia e anemia após o parto.
  3. Pode ser um método natural de evitar uma nova gravidez nos próximos 6 meses em que a mãe esteja amamentando exclusivamente.
  4. Aumenta a sobrevida em mulheres com câncer de mama
  5. Tem menor risco de câncer de ovário
  6. Protege contra carcinoma de endométrio
  7. Está associada com menor risco de Diabetes Mellitus tipo 2 na mulher
  8. Diminui a recorrência de enxaqueca nas lactantes no pós-parto

 Muitas mães se queixam de dor e fissuras (rachaduras) no peito durante a amamentação. É possível amenizar esse problema?

R.: No início do aleitamento é comum sentir uma dor leve tipo queimação ou fisgada no mamilo no começo das mamadas, isso ocorre pela forte sucção. Se a dor persistir e evoluir para fissuras, bolhas, vermelhidão ou até mesmo hematomas, é necessário pedir ajuda. A principal solução é adequar a pega que pode estar incorreta. Em mamilos planos, invertidos, disfunções orais nas crianças, uso impróprio da bomba de leite também podem ser causas de traumas. Deve-se também deixar os mamilos e aréolas arejados, se possível tomar um pouco de sol, evitar a umidade nos mesmos. Produtos como sabão, álcool, buchas são agressivos. Alguns estudos mostram que a lanolina é capaz de ajudar na cicatrização, porém deve-se ficar atento pois nada que não possa ir a boca do bebê pode ser passado no seio materno. Se ainda assim não houver melhora, procure um profissional qualificado para ajuda-lo.

Existe leite materno fraco ou isso é um mito?

R.: Sim, é um mito. O que existe é o leite ideal de cada mãe para seu filho, seja na quantidade ou na qualidade. Muitas vezes a afirmação está associada ao choro excessivo do bebê e o fato dele querer mamar a toda hora, porém essa é a maneira que os recém nascidos encontram de se expressar e comunicar. Temos de levar em consideração que se compararmos o leite humano com o leite de vaca, ele é muito mais denso e consistente, porém a digestibilidade do leite humano é a adequada para o bebê. 

Quanto às mães que trabalham fora, como podem continuar amamentando depois do fim da licença maternidade?

R.: Por conta do retorno às atividades, muitas mães acabam abandonando o aleitamento materno exclusivo, no entanto existem maneiras de fazer com que ela possa tirar e armazenar o leite que é o alimento mais importante principalmente até o sexto mês de vida. Primeiramente é necessário a higiene adequada para garantir a segurança e a qualidade do armazenamento, então deve-se remover qualquer adorno, usar touca nos cabelos e máscara para proteger a boca e o nariz, lavar as mãos até os cotovelos e secar com toalha limpa e não esquecer de higienizar as mamas com água. Para coletar deve ser em um local limpo, livre de insetos, animais e não pode ser realizado no banheiro pelo risco de contaminação. Utilizar um copo esterilizado para colocar o leite que sair da mama antes de transferir para o frasco de armazenamento que também deve ser estéril. A ordenha pode ser realizada de forma manual com os dedos indicador e polegar ao redor da aréola quanto por meio de bomba de sucção. Os primeiros jatos devem ser descartados e armazenar o restante. O armazenamento é muito importante, na geladeira pode ficar por 24 horas após a coleta e após o aquecimento não pode ser armazenado novamente. No freezer pode ser por até 15 dias, após descongelado, não pode retornar. Colocar sempre etiquetas com datas. Ao aquecer, nunca utilize o forno micro-ondas, sempre banho-maria.

Algumas mulheres relatam que produzem mais leite do que o suficiente para seu bebê. Como elas podem doar esse leite? Qual a importância do incentivo a doação do leite materno?

R.: É comum que mulheres que estão amamentando produzam leite em quantidade superior ao que seria suficiente para alimentar seu bebê. A doação de leite materno nada mais é que um gesto de solidariedade dessas mulheres com milhares de crianças que precisam receber esse leite. São milhares de recém-nascidos prematuros ou com o peso abaixo de 2,5 kgs que vão ser beneficiados com o leite da doação. No mês de Maio é celebrado o Dia Mundial de Doação de Leite Humano, para incentivar a prática. Em São Paulo houve crescimento de doações após a divulgação. Para doar basta apenas comparecer a um banco de leite onde deve-se preencher um cadastro, apresentar as sorologias realizadas no pré-natal, alguns bancos oferecem até mesmo o serviço de busca em domicílios.

Quais as dicas para uma amamentação correta?

R.: Nos primeiros dias, é produzido gotinhas de colostro, um líquido translucido, essencial para o recém-nascido. Nessa fase é fundamental fazer com que o bebê abocanhe bem a aréola para aprender a sugar corretamente e de forma eficiente para estimular a produção de leite. Conte com toda a orientação especializada principalmente no hospital. Peça a equipe para te ajudar com a posição correta da pega do bebê no peito. O bebê deve ser sempre levado ao peito e não o peito ao bebê, colocar barriga com barriga, pressionar levemente a mama e espalhar o líquido pelo mamilo para que ele encontre mais facilmente o leite, o bebê precisa abocanhar a aréola como um todo e não só o mamilo, a parte inferior do lábio e a língua da criança precisam chegar ao peito primeiro, aproximar o queixo do bebê no mamilo e quando ele abrir a boca, preencher o máximo que der com a aréola. Fazer sempre uma pinça com os dedos indicador e polegar em forma de “C”. O ideal é já colocá-lo para sugar na primeira hora de vida, o contato pele a pele e o cheiro da mãe ajudam a estimular o bebe para que ele mame. O uso de chupeta, mamadeira ou bicos intermediários de silicone não é recomendado nessa fase inicial, pois pode atrapalhar o aprendizado.

Quais os benefícios das conchas de amamentação?

R.: A concha de amamentação ficou “famosa” durante um período e ainda se mantém na lista de produtos mais vendidos para gestantes e novas mães. Acredita-se que elas protegem os mamilos do atrito e ainda ajuda com que os bicos planos ou invertidos sejam projetados para fora e facilitem a pega. Porém não são só benefícios, a concha pode “abafar” causando candidíase nas mamas e até mesmo uma vasoconstrição impedindo a livre circulação de leite e sangue. Portanto deve-se utilizar a mesma com a indicação de um profissional qualificado acompanhando.

Recentemente, a amamentação cruzada foi tema de debate na mídia. Quais os perigos desse tipo de amamentação?

R.: Contraindicado formalmente pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1985, é a prática de mães que amamentam filhos de outras que apresentam alguma dificuldade com o aleitamento, o grande problema é que pode transmitir alguma doença infectocontagiosa como HIV que é extremamente grave e ainda sem cura.

Existem restrições de medicamentos quando se está no período de amamentação?

R.: Boa parte dos medicamentos são liberados durante o aleitamento. Se a lactante tiver dores de cabeça e necessitar de um analgésico, pode! Antibióticos também não tem restrições. Algumas classes como imunossupressores, hormônios, não são liberados, porém casos específicos precisam ser analisados individualmente.

O que é complementação do aleitamento materno? Quando é necessário?

R.: Complementação de leite materno nada mais é que complementar as mamadas do seio materno com leite artificial. A decisão de complementar o aleitamento materno deve ser do pediatra em comum acordo com a família, ele é feito com fórmula de leite artificial e deve-se considerar diversos fatores, o ganho de peso do bebê e sua curva de crescimento, a pouca troca de fralda, comportamento letárgico ou agitado e até mesmo causas maternas, a hipogalactia por reduções de mama, abscessos mamários entre outros.

Alexandre Volpe e Priscilla Freitas são estudantes de medicina e fundadores da Liga de Medicina Legal da Unimes

 

Foto: Divulgação

Foto destaque: Pixabay

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