Gastronomia

A Netflix é espetacular: escolhemos aquele filme a qualquer momento e nem precisamos colocar o chinelo para assisti-lo. Mas nada se compara à Cinema 1. É assim mesmo, no feminino.

Era a locadora para a qual me dirigia de bicicleta com meu pai, quase sempre às sextas-feiras. Saía da Leonardo Nunes e seguia reto pela Lourival Moreira do Amaral — precisei chegar à fase adulta para decorar esse nome de rua interminável. Ela ficava no comecinho da Carlos Gomes, pouco antes da praça do mercado.

Pegávamos três filmes para devolver na segunda-feira apenas. Ganhávamos algum brinde ao devolver a fita VHS rebobinada — que verbo monumental, REBOBINAR!

E ainda que seja impossível odiar a Netflix, sinto que ela é mais uma daquelas tecnologias ou avanços que nos roubam parte da infância. No meu imaginário, ela tem lá sua culpa pelo fechamento de minha locadora preferida, mesmo que isso tenha acontecido uns cinco anos antes de seu boom, ainda naquela época dos downloads via Ares, Shareaza e afins.

A locadora deu lugar a um conjunto de casas geminadas, que felizmente não levaram minhas memórias do amontoado de filmes divididos por gêneros: comédias, dramas, filmes de ação, aventura, terror. E aquela salinha meio proibida, meio instigante, que nunca entrei mas imagino que tipo de sétima arte era ali oferecida.

A Cinema 1 ficou na memória ao lado daquela farmácia que deu lugar a uma igreja, do ginásio de esportes e supermercado que viraram prédios nababescos, da escolinha que virou terreno baldio.

“Onde é esse tal de (nome do novo local)?”. “Ali, onde era o (nome do local antigo amado por todos do bairro, que fez história e todos ficaram com pena quando souberam que fecharia), sabe?”. Diálogo comum desses dias.

Dias modernos e cruéis como a vida.

Falta encanto em um mundo em que não preciso rebobinar a fita para entregar o filme segunda-feira. Quando não giro um botão após tirar a foto para revelar o filme de 12 poses — o mais barato — daqui a alguns meses. Na compra em um clique.

Tudo prático, nada romântico ou poético como naquela época.

Usamos desse conforto e abuso tecnológico enquanto escorre uma lágrima de saudade do pão a 10 centavos na esquina de casa.

Melhor esquecer tudo isso. Vou ver mais cinco episódios dessa série que estou assistindo agora de madrugada.

Claro, tenho conta na Netflix. Depois te passo login e senha.

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