Gastronomia 

Toalhas penduradas, sabonetes de tipos diferentes, xampus, condicionadores, bucha. Tudo normal para um box. Mas aquele chinelo 35/36 vai me incomodar pelo resto da vida.

Ainda na infância, descobri da pior forma possível que ele não é capaz de impedir que eu tome um daqueles choquinhos inofensivos, mas por mim temido como um trágico acidente no trânsito, quando abrimos o chuveiro.

E olha que foram diversas técnicas até eu entender que seria quase impossível me livrar desse susto quase infartante para um neurótico: esticar o braço ao máximo, girar o registro com a mão fechada, evitar arrancar a pele no canto da unha, tocar apenas a palma da mão enquanto a água cai no chão. Nada adiantou.

Nem o chinelo.

Para minha mãe, é uma forma de proteção contra micoses e frieiras, algo essencial. Ainda mais agora, que a Gabriela aprendeu a urinar dentro do box de casa. Ela é uma vira-lata pequena e escandalosa, que grita enlouquecidamente quando chego de madrugada. Bolamos tutoriais caninos para ela aprender a subir e descer as escadas do sobrado em que moramos há um ano, mas ela engordou mesmo assim.

Para mim, o calçado no lugar errado é só uma muleta irrelevante, mas sou voto contrário da porta de casa para dentro.

Tomar banho de chinelo é coisa de gente covarde, eu digo. Quem coloca um desses, ainda por cima tão menor que o tamanho do pé – eu calço 43 – na hora se lavar não tem dignidade para encarar um mundo cruel como esse em que vivemos, continuo, enquanto a família revira os olhos com meu papo repetitivo quando viro as costas.

Minha vontade, quando mais novo, era atirar o chinelo velho pela janela do banheiro. Desistia quando chegava à conclusão de que no dia seguinte minha mãe o substituiria por outro. Encará-lo quando fechasse a porta do box me causaria mais revolta adolescente.

Nos dias em que meus pés são atingidos por alguma frieira, um calo mais chamativo ou uma unha encravada por minhas mãos sem habilidades para cortar uma das partes mais inúteis de nosso corpo, sofro calado.

Tenho certeza que minha mãe vai culpar a falta de uso do chinelo na hora de tomar banho por todos os problemas de saúde e males do mundo moderno. Para ela, se todos tomassem banhos de chinelos não haveria gripes, guerras, DTSs, problemas sociais e econômicos, mazelas, violências e gravidezes precoces (aqui realizei meu sonho de usar esse plural maravilhoso).

E eu, resistente, não desisto de me lavar pelado da cabeça aos pés.

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