8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Gota no oceano

Se uma gota de água volta ao oceano, ela desaparece ou aumenta de tamanho?

Às vezes penso nisso. E não me preocupo em saber a resposta. Talvez porque já saiba. Ou confirmarei, mais cedo ou mais tarde. Tenho notado como é comum que pessoas de mais idade passem a se preocupar com o além. Assumem crenças que nunca professaram, começam ou retomam práticas religiosas. Ateus convictos por toda a vida começam a fazer a sua fezinha. Vai que exista… Preocupação com o que lhes espera, talvez. Confesso que, secretamente, acho graça. Imagino o pavor de quem, acreditando que sofrerá algum tipo de julgamento, pensa no veredicto. Tive a sorte de ter feito na vida o que quis. E não me arrependo, mesmo tendo certeza que errei. Errei e muito. Mas faria tudo de novo, se estivesse na mesma situação. E soubesse o que sabia e sentisse o que senti.

Mas há também a hipótese de encontrarmos as pessoas queridas que se foram. E quem não os tem? Nisso me incluo. Rever meu filho é mais que sonho, seria a mais perfeita felicidade. No entanto, tenho a sensação de que não haveria maior empolgação nesse encontro. Bastaria um “E aí filhão?”. Ele retornaria com um “Fala, velho! Chegou, hein? Beleza.”. E retomaríamos nossa vida de além.  Não se decepcionem com a frieza da cena. Ela é plausível não por menos amor entre nós, mas porque nunca estive distante de meu filho, mesmo depois que partiu. Daí ter pensando na gota que retorna ao oceano. Alguém me disse que a morte é um parto ao contrário. Não pari meu filho, é claro. Mas sinto como se tivesse.

O retorno da gota ao oceano é uma hipótese. Como são hipóteses todas as crenças que imaginam o além. É ótimo acreditar. É um dom humano. Não há quem não acredite. Mesmo o ateu. Pois ateus acreditam que não há um deus. Essa é uma fé. E fé é uma espécie de decisão. Voce decide no que acredita e passa a viver confiando nisso. Pode aproveitar uma fé herdada ou aprendida, acatar uma religião. Ou criar a sua.

É uma triste realidade que diferenças de religião tenham gerado enormes desgraças na história da humanidade. Matar em nome de crenças é uma pratica humana antiga. Por mais que algumas religiões tenham trabalhado para a paz, é preciso encarar o quanto determinam o contrário. Sinceramente, quando vejo o que as pessoas tem feito do mundo, desejo que não haja um além, que não haja deus ou qualquer força responsável por nós. Se a humanidade acreditar seriamente nisso talvez compreenda que só haverá paz e amor no mundo por uma decisão nossa. Por vontade e determinação de vivermos como irmãos, sem dever nada a qualquer doutrina ou crença. Sem depender de um além.

Somos como crianças de pais diferentes brincando na sala e imaginando que eles nos vigiam do quarto. Brigamos para provar quem tem o pai mais forte. Ou nos mantemos em paz com medo da punição. E continuamos crianças. Um dia teremos que crescer e aprender que cada um de nós é o pai. Talvez nesse dia eles entrem na sala e brinquem conosco.

Aprendi muito sobre isso com meu bisavô.

Era alto e forte, apesar de seus noventa e oito anos. A pele escura, morena de sol, cheia de cicatrizes que quando criança eu olhava curioso. Marcas da vida de carpinteiro nas Docas. A cabeça sempre lisa que lhe dava o apelido: vô Careca. Ele sempre no portão da casa da filha, minha tia avó. Eu, aos quinze, parava perto dele sem descer da bicicleta, apoiava o pé no muro e provocava. “E aí, vô!” Ele perguntava: “Quem é?” “O Luíz, filho do Neco.” “Ah…” “Conta de novo, vô. De onde o senhor veio?” “Da Madeira.” E me enchia a tarde com histórias de sua fuga da ilha, da moça bonita que beijava com gosto de tâmara, de sua formosura, da tarde na areia, do tamanho da carabina do pai dela, de sua fuga e esconderijo no navio que zarpou antes que ele soubesse, de sua chegada à Santos. Na boca sempre um palito e o sotaque português que nunca perdeu. Era sempre a mesma história mas sempre um pouco diferente. Contava como se fosse a primeira vez. Contava sem pressa, como tudo que fazia.

Ouvi que partiu assim, sem alarde. Ele sentava toda tarde no banco que havia na praça Rebouças, na época sem aqueles grades horrorosas. Esperava o sol se por e voltava para casa ali perto no canal sete. Naquela tarde, ele não se levantou quando o sol se pôs. Ficou sentado. Da porta de casa sua filha, minha tia avó, podia vê-lo. Estava bem. Mais tarde ele entrou. Passou na sala e começou a se despedir dos netos e bisnetos que brincavam. “Ele vai sair? A essa hora?”- ela pensou. Mas entrou para seu quarto. “Tá caducando! Coisa de velho.” No dia seguinte foi chamá-lo e estranhou. Estava deitando e de terno. O terno que comprou para morrer, as mãos cruzadas no peito. Nenhum trabalho, nem pra funerária. Quem chorou, chorou por si. Não por ele.

Ainda quero morrer assim.

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