8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Não se trata de palavras

Algo acontece em casa quando chega a minha tia.

Irmã mais nova de minha mãe, chega logo após o almoço. Traz sempre um assunto urgente que precisa dividir: a discussão com alguém, a indignação com o que viu na rua, uma nova ideia que lhe anima, um produto excelente que encontrou.
Independente e decidida, cuida sozinha da conversa. Dá os detalhes, explica tudo, argumenta, julga, conclui, decide e decreta sobre o caso. Despeja tudo sem parar. Pausando apenas nas poucas respostas de minha mãe que, de natureza tão oposta, se deixa levar pela conversa como galho na correnteza.

Quando termina de contar percebe que mal começou, há uma tarde inteira pra estar conosco.

Então recomeça aquela história, acrescenta outros detalhes. Experimenta outras palavras, varia a entonação, inverte alguma fala. E quando termina… recomeça outra vez. E repassa o que já disse, lapidando um pouco mais.

E assim vai a tarde inteira.

É como se a conversa servisse para que ela mesma entendesse o que de fato quer dizer. E ajudasse chegar a história à sua versão ideal.

Eu no meu quarto trabalhando, mesmo com o fone nos ouvidos, ouço tudo sem saber. E a conversa vai entrando no texto na minha tela. Pois a casa nesse dia vai ao som dessa conversa de minha mãe e minha tia, uma fala a outra escuta.

No fim da tarde, o café na mesa celebra a hora boa de encerrar aquele assunto. A conversa vai agora por lembranças de infância. De caranguejos no quintal em São Vicente, da juventude de minha mãe empregada em “casas de família”, das traquinagens estudantis de minha tia, da saudades de ambas da irmã que já se foi. De minha finada vó, que era a síntese dessas três.

É nessa hora que apareço, com a desculpa da vontade de café, mas atento às histórias que desfilam pela mesa.

E no silencio longo entre o que se diz começo a entender que não se trata de palavras o encontro dessas duas.
Dois pilares de minha estrutura. Minha mãe que é bondade, simplicidade e dedicação. Minha tia que é complexa, alucinada e visionária. E também uma lição.

E me alegro desses dias quando vem a minha tia.

Foto: Pixabay

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