COLUNASCRÔNICAS

O fio e a borracha

Falar sobre amor e relacionamento é até fácil. Difícil é entender do assunto. Tudo o que podemos dizer é o que vivemos, o que nos fez bem e o que não fez. E se interessar para alguém, como foi e o que não foi.

Amor é tema eterno na literatura. No Brasil é o mais procurado pelas leitoras. Tem uma demanda gigante. E quem mais lê por aqui são as mulheres. Como escritor sempre considerei isso. Mas não sou psicólogo, analista, terapeuta nem padre cantor para aconselhar, para dar respostas em frases inspiradoras.

Minha seara é criar histórias. E torcer para que elas agradem.

É o que cabe à perspectiva artística e lúdica. Trabalhar com as dúvidas, com as perguntas, as incertezas. Para as pessoas ávidas por respostas fáceis e práticas para os dilemas da vida, isso não serve para nada. Devem ter razão. Cada um sabe de que alimento precisa. Para isso estão aí os livros de auto ajuda. Também num supermercado perto de voce.

Para contar histórias o melhor formato é o de romance. Ou conto. Isso que voce lê é uma crônica, onde não cabem longas histórias. É uma leitura rápida, um aperitivo.

Então, já que tenho pouco espaço para tratar de algo tão importante, conto apenas como falei sobre amor e relacionamento com minha filha em seus nove anos de idade.

Mas isso não é assunto para crianças de nove anos, pensarão vocês. Concordo. Também gostaria de ter evitado. Mas essa era sua idade quando me separei de sua mãe. E, pelo que entendo do que é ser pai, não havia como fugir da conversa.

Mais uma vez a imaginação me salvou.

Disse a ela que o relacionamento é como um fio elétrico que duas pessoas seguram, uma em cada ponta. Pelo metal passa a energia que mantém elas unidas. Elas se conectam, se misturam um pouco, cada um com sua energia que vai e volta para o outro. Se for forte a energia, às vezes elas ficam como uma pessoa só. Mas nunca o tempo todo, porque precisam buscar mais energia no mundo. Para trocar com a pessoa.

Por esse fio pode passar tanta energia que chega a dar choque em quem convive com elas. Então nos acostumamos a criar em volta do fio uma camada de borracha. Ela é desnecessária para as duas pessoas conectadas. Mas serve para que as outras pessoas saibam que aquelas duas estão ligadas. Algumas pessoas querem muito que todos saibam da ligação, outros não ligam tanto. De qualquer forma e por vários motivos, combinam um nome para essa ligação: namoro, casamento, relacionamento sério e outros. E fazem rituais, alguns maiores, outros periódicos. Primeiro dia de namoro, casamento, noivado, dia dos namorados. E assim vai. O importante é os outros saberem que ali tem uma ligação.

Claro que o casal pode ter seus próprios rituais, mas os verdadeiros só os dois conhecem.

Acontece que às vezes o fio rompe lá dentro. E se a camada de borracha que encobre o fio dos dois for muito grossa, vistosa e colorida, ninguém percebe. Nem os dois.

E se as duas pessoas continuam ligadas só pela camada de proteção e não se separam elas ficam muito infelizes. E podem até criar uma conexão de ódio, de raiva por estarem juntos sem o motivo mais importante: a troca de energia. Isso pode matar os dois por dentro. Mesmo se estiverem sorrindo e tirando muitas selfies nas festas de família, mantendo toda aquela camada colorida. Que todos vêem. Sem saber da verdade.

Há muitos motivos para o fio se romper. Às vezes porque a energia fluiu só de um lado, às vezes porque acabou a energia dos dois, de um deles. Ou porque alguém fez uma conexão paralela.

A verdade é que não há um motivo para a energia surgir entre duas pessoas. Quando amamos acontece e pronto. Não se questiona porque se ama. Então por que nos questionamos tanto quando deixamos de amar?

Essa última frase eu não disse para minha filha. Mas ela deduziu, eu acho. Terminou a conversa tranquila e me veio com essa: “Não quero saber de borracha no meu fio”. E voltou ao seu game.

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