8.0 // COLUNASCRÔNICAS

O que a gente sabe

O que pensar de uma pessoa que pinta o mesmo quadro centenas de vezes, repetindo-o, com pequenas variações, por anos? E que raramente os expõe, estoca-os, abarrotando a velha casa? Se vissem o que resta do que já foi uma casa, o que diriam? Um velho fogão, algumas panelas, uma cama velha, fósseis de um antigo ambiente doméstico soterrados sob centenas de quadros e apetrechos de pintura acumulados durante anos: pincéis, tintas, removedores, cavaletes, quadros às centenas e esboços, muitos esboços, em papel, em vidro, em madeira. E as paredes, já devem imaginar.

Diriam que falo de um maníaco, desajustado, um louco talvez?

Se houver dúvidas sobre a sanidade de nosso personagem saibam que esse compulsivo pintor cursou por três vezes a Universidade de São Paulo, em carreiras tão pouco artísticas como Física, Matemática e Filosofia. E que raramente usa carro ou veículo motorizado, percorrendo de bicicleta quilômetros de transito em São Paulo desde a década de oitenta, muito antes de qualquer ciclovia.

Conheci Sergio na universidade nessa época. Início dos anos oitenta. Eu calouro de Ciências Sociais, ele já no segundo curso. Percebi imediatamente que se tratava de uma personalidade absolutamente fora de padrão. Apesar dos vinte e poucos anos, apreciava a música clássica. Discorria horas sobre as profundas inquietações artísticas dos grandes compositores da música universal como se fossem velhos companheiros do colégio.

Interessava-se profundamente por política. Tinha sua posição, de esquerda como todos nós com alguma consciência social, mas dava menos atenção às questões nacionais. Vivia atento ao resto do mundo. E, diferente do ativismo de likes de hoje, sabia do que estava falando. E envolvia-se calorosamente. Não era raro encontrá-lo contrariado pelas ultimas medidas tomadas pelo parlamento alemão. Ou pelo discurso equivocado do primeiro ministro de Israel. Pelo aumento da taxa de coleta de lixo em Cingapura. Discutia, praguejava e argumentava enquanto tragava o cachimbo pelos corredores da universidade, pelas noites no bairro do Bixiga, mal conformando-se em não ter com quem debater.

Eu era dos poucos que o ouvia. E com ele aprendi muito. De música, de filosofia, de pintura. Até sobre o lixo em Cingapura. Mas a maior lição que aprendi com ele nada teve a ver com ciência, arte ou política.

Sérgio é um verdadeiro amigo. Daqueles que a gente sabe que tem porque passa trinta anos sem ver e quando encontra sente que a amizade não mudou. Mudamos por fora, é visível. Meus cabelos se foram, os deles estão brancos, as rugas nos marcam. Casei, descasei, sou pai, perdi um filho. Ele engordou um pouco, mudou-se. De casa, não de hábitos.

Tudo bobagem, assuntos sem interesse.

Dou-lhe um tapa no ombro como sempre e vamos para mais uma madrugada de café e papo no Franz Café da Paulista.

Como fizemos ontem, há trinta anos.

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