8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Os que precisam escutar

Era um sábado de sol quase chuva. Um pequeno palanque erguido nos jardins da praia próximo ao Aquário de Santos. Um cantora se apresentava ao ar livre para um pequeno público sentado em cadeiras de praia ao redor. Outros nas janelas dos prédios, que talvez só eu reparasse, brotaram nas janelas à medida que o recital aconteceu. Eu de pé.

O refrão começa e imaginamos saber o que vem. O repertório é seleto e bastante conhecido. Mas já no primeiro verso cantado quase caio sentado.

Timbres de voz há muitos. É um dom natural de cada pessoa, pode ser mais ou menos agradável de se ouvir. É uma felicidade nascer com um bom timbre de voz. Mas não é tudo. Algumas cantoras se contentam com o que tem e vão largando sua qualidade vocal pelos anos de carreira.  Outras aperfeiçoam seu timbre com esforço e muito trabalho. O que às vezes opera milagres. Mas quando alguém que já nasceu com uma boa voz, insiste em aperfeiçoá-la ao longo de toda a vida, o resultado é excepcional.

Quando ela começou a cantar tudo mudou ao redor. Tive a impressão que até os pássaros pararam para ouvir. Um timbre forte e suave ao mesmo tempo. Encheu a praça, fez os ônibus passarem devagar, envergonhados de seus ruídos. Até o mar quis ouvir, encheu a maré sem ondas, para não atrapalhar.

Mas além daquela voz havia mais que surpreendia e me intrigava.

A canção é conhecida, mas o que se ouvia não é o que se escuta no player, o que alguém gravou um dia. Ela fraseia com personalidade, a seu modo e com tanta naturalidade que esqueço completamente da versão conhecida.  E faz variações, a maioria tão sutis que talvez poucos percebiam. Notas ligeiramente sustentadas reforçando sentimentos na letra, respirações entre frases que convidavam ao ritmo, pausas surpreendentes. E sempre com absoluto domínio técnico, sem grandes esforço aparente, mesmo nas notas mais exigentes. Escolhia caminhos com grande sabedoria, pois mesmo quando se poupou de uma nota mais alta descendo uma oitava, reverteu em efeito dramático.

Ainda há no Brasil excelentes cantoras com excelentes habilidades técnicas. Algumas delas fazem questão de as exibir. Mas o que pensar daquela cantora que, sendo tão hábil quanto, não exibia suas habilidades? Não fazia disso seu mote, seu trunfo. Punha tudo a serviço da canção, do seu refinado repertório, sem exibicionismos, sem os tão comuns traquejos de palco. Com uma generosidade artística que raramente eu vi.

E ali, num pequeno palanque, num sábado de quase chuva no jardim da praia perto do Aquário.

A maioria cantava junto. Mas eu não consegui. Não queria perder nada.

Em uma hora terminou. A chuva fina, que também havia esperado, retomou sua agenda e caiu triste. Esperei um pouco para cumprimentar encabulado a cantora que não conhecia pessoalmente. Havia ouvido sobre seu talento mas, confesso, não esperava tanto.

Fui pra casa num misto de alegre e triste.

Alegre pela música dessa tarde que foi toda alimento. E triste por perceber que essa artista não tem uma carreira à altura de seu talento. Tocar na praça é muito digno e foi um presente que recebi. Mas é uma tristeza esperarmos as esmolas públicas para um ou outro evento. Ou as tardes entre cervejas, pizzas, famílias e galeras, entre tantos que não se importam se alguém canta. E ouvir bem é quase um luxo.

Ouvi dizer que é professora de ensino fundamental. Deve, por certo, ser excelente e invejo seus aluninhos.

Talvez seja por opção que essa exímia cantora viva de lecionar. Ser professora é algo extremamente digno. Mas talvez, como eu, se ressinta e perceba que tem mais a ensinar. Que além de seus pequenos alunos, há tantos jovens, outros nem tanto, que precisam escutar o que ela pode cantar.

Mas seria injusto esperar que ela faça mais do que já tem feito. Ao artista não cabe construir os teatros, elaborar os projetos, financiar a cultura, buscar a sustentabilidade ou qualquer outra mágica que povos menos talentosos que os nossos já fazem a tempo. Já passamos da hora de entender que as Artes não são meras desculpas para encontros e festas. São a parte mais rara, o que nos desperta e edifica. São o melhor a fazer enquanto se espera a vida acabar. Pois dela o que fica é o que se cantou.

Fiquemos atentos que a vida passa rápido. Ainda mais para quem não sabe escutar.

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