8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Quando a Síria chegar

Fui para acompanhar uma amiga. Uma reunião, debate, encontro, palestra, manifesto, algo assim. Ninguém sabia ao certo o que era o evento. O importante foi estar lá, nos ouvir, pensar juntos, desabafar. O assunto desequilibrava todos e impunha muita preocupação. O assassinato da vereadora Marielle Franco semana passada na cidade do Rio de Janeiro.

Lembrei de comentários por aí. “Há diariamente um numero absurdo de mortes em assaltos e todo tipo de violência. Por que essa recebe toda essa atenção?” A meu ver, é mais que justificável, é imprescindível, é urgente. O fato é terrível, é preocupante.

Essa morte revela que nosso inferno pode ser maior.

Se não for urgentemente solucionado e punidos os culpados, se não for suficientemente rechaçado por toda a sociedade, esse crime abre uma brecha insuportável: a de que qualquer divergência política pode ser resolvida na bala, com um assassinato.

Por que não?

E é uma tola ingenuidade pensar que a tragédia fica restrita apenas a quem lida com as questões de segurança pública, a quem enfrenta forças policiais corruptas e criminosas, a quem é desta ou daquela corrente ideológica. Não fica. Se uma vereadora é morta por motivações políticas e nada acontece, então qualquer um que tenha inimigos políticos pode ser morto. E quem na política não os tem?

É a chave para que essa forma estúpida e insana de confronto se espalhe para qualquer desagravo, para qualquer conflito de vizinhos, em festas, no trânsito. Como muitos querem, pedindo armas, armas para “se defenderem”.

É o inicio do fim.

Os “nossos” bandidos, fardados ou não, são muito covardes e contam com a sorte de estarem no Brasil. Em muitos países mundo a fora, a morte política de uma vereadora seria respondida com o assassinato de mais dois vereadores da vertente política contrária, pelo menos. Aqui, as resistências populares, são pacificas. Quando muito reativas, defendem-se de um Estado opressor e injusto, que bate em professores, que espirra pimenta em crianças. Aqui acreditamos na paz, na via democrática, nas instituições. A morte de Marielle nos joga a pergunta na cara: até quando?

A reunião/manifesto acabou sendo um grande aprendizado. Chamou a atenção a fala de um senhor negro, religioso, que comparou o povo brasileiro a um elefante de circo. Amarrado com finas correntes, obrigado a todo tipo de coisa, ele ignora a força que tem. Se a usasse, esmagaria a todos.

Alguns fazem questão de provocá-lo, desacreditando de sua força. Ou querendo ver o circo pegar fogo. Uma atitude suicida.

O ódio em nossa sociedade é um ato suicida.

Tenho dito que estamos caminhando para ser a nova Síria, destroçados em guerra civil, onde inocentes sangrarão pelas ruas. Muito mais do que se vê nas favelas todos os dias. E que ninguém liga. Exceto as Marielles. Chegará aos bairros nobres, não haverá limites, não haverá muros de condomínios que impeçam. O clamor de alguns candidatos por mais violência, por mais ódio, e o apoio que recebem de muitos é um sinal claro. Querem mais armas, mais violência, mais repressão, menos direitos. A imbecilidade se alastra e a vemos crescer ao nosso redor. E seguimos ignorando-a, imaginando que não sofreremos as conseqüências.

Que os que dão valor à vida se manifestem e se unam pela paz. Qualquer que seja sua opção política.

Pois amanhã, quando a Síria chegar, serão detalhes.

saiba antes via instagram @revistamaissantos