COLUNAS

Minha admiração por minha mãe aumenta exponencialmente quando tenho de ir ao supermercado com ela para fazer as compras do mês ou mesmo buscar algo que falta na geladeira. Ela consegue lembrar tudo aquilo que precisa e um pouco mais só de olhar as prateleiras ingratas e sedutoras, sem anotar nada.

Eu precisaria de uma lista. Ou de várias.

Mesmo sabendo o que me falta, sem uma anotação escrita à mão nas milhares de folhas de rascunho que herdei de cadernos usados e mal acabados ou mesmo de boletos antigos e notas fiscais sem utilidade alguma, fico perdido. Antes fossem apenas as compras a ocupar espaços em minhas listas intermináveis.

Lista de obrigações a cumprir, de filmes a assistir, de livros para comprar, de tarefas a finalizar, de ligações, lista de listas do que preciso fazer e lista de listas que não devo fazer nunca porque sei que nunca vou cumprir.

Nunca terminei nenhuma delas, como nunca usei uma borracha até o fim ou escrevi com a mesma caneta até que sua carga fosse inteiramente zerada: ou perdia ou ela estourava no meio do caminho, perdendo a utilidade.

Devo ter algum tipo de compulsão, listas intermináveis fazem parte da minha lista – olha aí – de manias estranhas que me fazem pensar até que ponto quem vive ao meu redor não enlouquece contaminado pelos vícios da minha cabeça grande.

Pode até ser, mas evito pensar isso depois de ter incluído meus costumes grotescos no rol de minhas atitudes loucas que evito pensar sobre.  

Entre o que herdei de meu pai, o costume de esquecer um monte de coisas que tenho para fazer me faz anotar tudo em algum canto, papel – não conto com o bloco de notas do celular, sou antigo – me faz lembrar mais que o dobro do necessário de coisas mínimas. E sem isso eu não tocaria a vida para frente. Ou penso que não.

Sinto que minhas listas nunca vão acabar, mas ainda assim me pego procurando uma caneta para criar mais uma, já que não tenho lista de canetas e isso me deu uma boa ideia de uma nova lista para fazer e evitar o risco de não perder minhas canetas mesmo sabendo que isso é tão inevitável quanto um novo RG a cada três anos. Estou na sétima via, acreditem.

Uns amigos dizem que sou louco, neurótico e paranoico. Incluí todos eles na lista dos amigos que me acham louco, neurótico e paranoico para usar isso de argumento quanto minhas listas intermináveis nos salvarem de esquecer algo banal no dia a dia. Nunca salvei ninguém.

O texto que você acabou de ler faz parte da minha lista de textos para a coluna de quarta-feira. Desculpe, mas o leitor incentiva meu vício.

Quando voltei hoje do mercado, minha mãe pediu para eu parar de ficar anotando coisas idiotas. Incluí isso na minha lista de coisas que não devo mais fazer. Item 1: parar de fazer listas. Como de costume, não vou cumprir o que listei.  

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