8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Tanto nos céus quanto na terra

No começo muito se falou sobre a inclinação dos prédios na orla da praia de Santos. Vistos da areia, os prédios pareciam beijar-se aos pares. Era pauta recorrente. Noticiários exploravam o pitoresco de viver num apartamento inclinado. O bolo que saia inclinado do forno, as portas que não fechavam ou teimavam em abrir, a impossibilidade de algo circular parar sobre a mesa, a sensação de viver fora do prumo.

Na segunda metade do século XX, a cidade chegou a temer a queda dos prédios. Medições foram feitas, obras de contenção realizadas. E os prédios não caíram. O fato perdeu a urgência, deixou de ser novidade. Com o tempo, a cidade incorporou a visível inclinação dos prédios como parte de seu charme. Ser torto e inclinado, passou a ser uma atitude, uma maneira de pensar que orgulhava os moradores.

E a cidade esqueceu-se do perigo.

Mas em de abril de 2048 eles ruíram. De uma forma que ninguém previu.

Começou na Ponta da Praia, no edifício “Brasília”, a torre de sessenta andares erguida sobre o antigo terreno de um clube de regatas fechado no fim do século XX. Depois de centenas de obras públicas de contenção das marés iniciadas e interrompidas, o solo e o mar, cansados das trapalhadas públicas, entraram em um acordo e se juntaram numa lama digna de ministério. O prédio, sem sustentação, inclinou-se escandalosamente.

Mas, como era comum na época, ninguém achou importante. Nem quando a inclinação chegou a 45 graus. A imprensa ignorou e a classe média andava ocupada com o fim da novela e a próxima copa. Alguns, afeitos à tradição, até comemoram o retorno do assunto. “Mais torta do que nunca”, chegou a ser o slogan de um candidato a prefeito, felizmente derrotado. O setor imobiliário viu a oportunidade de lucros. E ampliou os alugueis na região. O turismo cresceu por um tempo, com a auto proclamação da vitória da cidade sobre Piza na Itália e sua insignificante inclinação.

Alguns, sabendo sobre quem caem os edifícios, deram o alarme. Quarenta e cinco graus de inclinação era demais. Ultrapassava o limite razoável para a sustentabilidade do prédio. E reivindicaram a antiga Lei da Gravidade. Novamente ninguém ligou. Mas depois do comentário favorável de um bisneto do Chico Buarque, participante do BBB 44, a campanha fez efeito. Um forte movimento se formou provocando o ímpeto da população. E num surpreendente ato de extremismo ampliaram em 80% as curtidas na página do Movimento pela Retidão Nacional. Naquele ano chegou a 4.523 o número de deputados federais do MRN , alcançando 22% dos assentos. Uma onda “emeerreenista” que cobriu o país.

Mas a elite da cidade, interessada na exploração da inclinação, sabia como enfrentar os “radicais” desde a virada do século. E armaram o trecentésimo quadragésimo sétimo golpe nacional. Com os tomadores de Viagra, os cocaleiros de Goiás, com os vampiros de Tietê, com os cuecas bem folgadas, com o supremo, com tudo.

A prefeitura, tradicionalmente manipulada por ricaços a partir de Miami, tramou uma bem sucedida campanha difamatória e convenceu a população de que os alarmistas eram movidos apenas por interesses político-eleitoreiros. “Coisa de uma oposição vitimista, pessoas apegadas a idéias cartesianas-newtonianas ultrapassadas!”, diziam. E conclamaram a população a vestir-se nas cores do time da Vila e sair às ruas para garantir que essas idéias nunca vingariam na cidade onde, quando a elite não quer, nem a Lei da Gravidade pega.

Derrotados, os “alarmistas”, passaram a se culpar mutuamente em intermináveis fóruns, num processo que deu origem a 238 novas organizações políticas e outras tantas divisões.

E nada mais se fez sobre o caso.

Alheio a toda a discussão, o “Brasília” continuou inclinando. Até que um dia caiu, tombando sobre o prédio ao lado, que derrubou o seguinte, que fez o mesmo com o vizinho. Um a um os prédios foram caindo e se derrubando, num efeito conhecido como “queda de dominós”, um antigo e popular jogo de mesa em que os jogadores empilhavam pequenas tábuas numeradas. A sequência de quedas só terminou na Ilha Porchat, quando a torre Guinle, sede do mais famoso e antigo cassino clandestino do país, tombou sobre Praia Grande criando uma nova ponte entre as cidades.

Os prédios, a maioria com mais de cinquenta andares, foram se empilhando, formando uma montanha de entulho e sucata que acompanhava toda a orla da praia. Felizmente, a temporada já havia passado, e apenas 0,3 por cento dos apartamentos estavam ocupados. Ainda assim, 257 zeladores e faxineiras pereceram entre os escombros. Solidários com a tragédia, a grande imprensa e os telejornais fizeram a sua parte, empenhando todas as equipes de reportagem na cobertura, em tempo real, da comoção nacional com a morte da cachorrinha Anita que, no momento do acidente, tomava sol na cobertura de uma torre no Embaré.

Passado o choro, outro problema surgiu. De quem era a responsabilidade de retirar o entulho que se formou? A princípio, a prefeitura decretou ser dos proprietários. Mas, quando “os imobiliários”, setor que era sócio majoritário nas campanhas eleitorais, ameaçou retirar o apoio, empurraram para o governo do Estado, alegando ser um problema intermunicipal. Afinal, envolvia mais de uma cidade. O governo do Estado, cobrando o apoio político dado ao golpe 347, empurrou para a União que, por sua vez, alegou que era responsabilidade da municipalidade e sua interferência poderia ferir o pacto nacional. Ainda assim, o presidente, num ato de inspiração, diante das câmeras do programa apresentado pela neta de Silvio Santos, encomendou a decisão ao Supremo Tribunal Federal, que aceitou prontamente o caso, encaminhando para o setor de protocolo dar início ao processo. Estima-se que a fase seguinte, de pedidos de laudos técnicos aos órgãos competentes, deva começar logo após a fase de revisão dos depoimentos das testemunhas mortas elencadas no processo sobre a queda da barragem de Mariana, prevista para o juízo final.

Sem seus prédios, a cidade, que desde 2030 já havia perdido o porto com as novas tecnologias que dispensaram cidades litorâneas para o aporte de navios, perdeu também o seu turismo. Foram embora os ricaços aposentados, os playboys paulistanos, os turistas estrangeiros. Sem eles, foram embora as prostitutas, os traficantes de luxo, os cassinos clandestinos.

E a cidade perdeu seus atrativos, a sua fama. E foi abandonada, desprezada pelas elites de Miami e Dubai.

Mas a vida continuou.

A pequena e comprida montanha de entulhos continuou ali por um tempo. Até que um carrinheiro, morador do Dique, percebeu que havia material de sobra para construir a sua casa, que ainda era palafita. Dava até pra aterrar. Aos poucos, um exército de pequenos carregadores foi recolhendo todo o entulho e reformando as suas casas. E a pequena serra feita de entulho e sucata, aos poucos desapareceu.

E cada pedaço retirado ajudou a formar uma nova cidade, toda refeita e arrumada, justamente naqueles bairros, por décadas abandonados, só por estarem do outro lado.

E para surpresa até das nuvens, a brisa do mar voltou a entrar. O clima tornou-se mais fresco como, dizem, havia sido um dia. Em conseqüência, o verde se intensificou em toda parte. Árvores brotaram na antiga região do porto. As flores surgiram com intensidade nas ruas e nos quintais. E foi uma surpresa para todos ver que ali, mesmo após séculos de culto às torres, ainda haviam quintais. Tal era a fé daquele povo.

Sem a parede de torres que durante décadas cobriu a luz do sol, os moradores da parte da cidade que os antigos chamavam “depois da linha da máquina”, voltaram a ver que moravam numa ilha. Que logo ali havia um mar que não tinha mais aquele gosto de privada, que agora havia peixe, dava até pra ver o pé. Que aquela areia toda, e o jardim tão arrumado, não era mais a passarela só dos turistas, não era mais um pedaço de shopping, não ficava em Miami. Não havia mais os seguranças pagos pelo imposto revistando a gente preta, pobre e periférica.

Era apenas uma cidade pequena numa bela ilha, sem porto mas com peixe abundante. Sem o muro, mas com um clima mais ameno tanto nos céus quanto na terra, entre as gentes que se querem e respeitam.

E com sol bem distribuído em cada ponta da cidade.

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