8.0 // COLUNASCRÔNICAS

Urubu que sabe

― Vai voar pra lá, humano!

Pensei eu, ao quase bater no paraglider amarelo que invadiu meu espaço de manobra. Tentava pousar em Urubuqueçaba, mas desisti ao ver que humanos estavam na ilha. Coisa rara. Os turistas não vão, os bombeiros não deixam. E os bombeiros sabem o que fazem. A ilha é perigosa, a maré traiçoeira.

Os humanos ficaram pouco tempo, retiram algo e saíram antes da maré subir. Há tristeza no ar. Tanto quanto o cheiro forte de carniça que sobe. Normalmente a ilha oferece uma cobra, pássaro ou roedor que se vai, mas é tão pouco cheiro que não chega no alto, o vento dispersa. E mesmo que chegasse, quase não vale pousar por ali só pra comer.

O que eles carregam é corpo de humano. E isso eu não quero. Respeito. Sei bem que nos toleram porque ajudamos a limpar a cidade. Mas têm medo de nossa cara feia e do corpo preto. E nojo do que comemos. Isso eu entendo. Também sinto quando vejo o que os humanos comem.

Mas o importante é o respeito, cada bicho é de um jeito. E o nosso é voar. Há outros lugares para pousar na cidade. Qualquer telhado é possível, mesmo com tanto fio atravessando.

Mas essa ilha é especial pra nós. Tradição da família.

Desde que era menino ouço de meu avô que os humanos bem que tentaram acabar com ela. Mas até hoje, por sorte ou destino, não conseguiram. Ainda está como sempre foi. Ou quase. Perto da vista mas longe dos pés.

Já quiseram chamar de ilha das Cobras, porque cobras havia muitas. Mas desistiram mantendo o nome que nos honra. “Urubuqueçaba — lugar de pouso dos urubus”, conforme dito pelos indígenas desde o tempo em que tudo era um mundo só e humanos e bichos viviam junto sem tanto conflito.

Depois vieram os portugueses e um tal Francisco Souza ficou de dono de toda a praia onde está a ilha. Mas dono só no nome, porque a terra ainda era muita e os homens que eram poucos. E ficou nisso muito tempo até que outro se apossou. José Honório Bueno, homem tão alto e forte que os amigos brincando apelidaram de “José Menino”. E o nome pegou no lugar quando ele batizou assim a sua orgulhosa propriedade, uma humilde casa velha coberta de palha, rodeada de laranjeiras, limoeiros e limeiras, que deu alegria àquela praia. Até vaca de leite ele tinha, que é um bicho menos acostumado a viver aqui na praia. Mas bem que elas gostavam. Pois então José Menino era um homem bem tranquilo e a ilha dos urubus até gostou de sua posse.

Tanto que foi triste quando, separado da esposa, coube a ela a propriedade. Mas a urubuzada festejou quando pouco tempo depois ela faleceu e pra ele tudo voltou. E minha bisavó jura que não foi praga de urubu. Mas bem que poderia.

Depois da morte do Menino, tudo foi para o governo que leiloou para um tal de Manuel Lourenço da Rocha que logo foi à falência.

E junto com a chegada do João VI, a praia toda passou para Rodolfo Wanschaffe. Um ricaço de nome impronunciável que vivia de explorar o negócio portuário. Teve uma idéia esquisita de usar a nossa ilha para construir duas pontes: uma que ligasse a praia até a ilha e outra para embarcar os passageiros.

Mas a justiça brasileira, que já usava toga de urubu e era lenta como lesma, atrasou os seus projetos. E tudo ficou só na vontade.

Mas aí começou a enxurrada de projetos que tentaram destruir a ilha e construindo sobre ela mirabolantes fantasias.

Veio o Júlio Conceição, que foi presidente da Câmara de Santos no período imperial. Quis fazer um sanatório, que na época se fazia pra curar tuberculose. Isolavam os doentes que esperavam acamados que o bacilo desistisse. Mas tinha que ser na nossa ilha?

Mas também esse faliu e o sanatório não saiu.

Então a terra passou para Armando Arruda Pereira, que vendeu pra José Avelino da Silva, fazendeiro e investidor daqueles muito expertos.

Como o imposto era alto, de tão grande as terras que possuía na cidade, barganhou a isenção de impostos à Câmara Municipal. E conseguiu convencer que faria grandes melhoramentos e muita benfeitoria. Propôs um projeto milionário de construir um balneário sobre a Urubuqueçaba com vários prédios e uma marina para barcos. Se fosse feito hoje, não sairia por menos de 300 milhões de reais. Pra alegria da urubuzada, o projeto não saiu. Mas o tal investidor deve ter se alegrado porque teve o que queria. E isso é coisa de humanos.

Depois veio outro, Claudio Doneux, que vivia de imóveis. Esse ameaçou também transformar a ilha num imenso condomínio com prédios de mais de quinze andares e um hotel. E na praia uma concha acústica para mais de sete mil assistirem ao mesmo tempo. Até eu que sou urubu sei que é assento demais para uma casa de espetáculos.

Mas felizmente para sorte do urubu, o projeto não vingou.

A ilha continua assim do melhor jeito para nós e pra toda a natureza. E acho até que é melhor para os humanos também. Afinal, eles já ocupam tudo e tem o tudo que constroem. Mas perderam o mistério. E o mistério é importante.

Então deixa a ilha assim, isolada, esquecida, quase sem ninguém saber. Fica ela de aviso e lembrança de que nem tudo vale a pena transformar. Que tem lugar dentro e fora da gente que é melhor deixar ficar.

Do corpo que encontraram amarrado numa árvore na ilha não se sabe nada ainda. Assassinado ou suicidado, a polícia investiga. Tomara que descubram tudo para honrar esse rapaz. E quem dele sente falta.

Mas uma coisa eu garanto: não foi arte de urubu.

saiba antes via instagram @revistamaissantos