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Cinema

Wagner de Assis: ‚ÄėA grande fronteira a ser desbravada √© o esp√≠rito humano‚Äô

 

Wagner de Assis, de 48 anos, é o diretor de Kardec, Nosso Lar, Amor Assombrado, entre outros (Arquivo Pessoal)


Por B√°rbara Farias

‚ÄúNosso Lar‚ÄĚ e ‚ÄúKardec‚ÄĚ s√£o os seus filmes mais conhecidos entre o p√ļblico brasileiro. Ainda este ano, em 10 de outubro pr√≥ximo, ser√° lan√ßado ‚ÄúAmor Assombrado‚ÄĚ, protagonizado por Vanessa Gerbelli. A tem√°tica esp√≠rita ganha cada vez mais espa√ßo no cinema nacional, com importante apelo emocional ao p√ļblico, mas quem √© o cineasta que est√° ampliando as produ√ß√Ķes desse g√™nero no mercado de filmes?

Wagner de Assis, de 48 anos, iniciou sua carreira como jornalista aos 22 anos, em 1993. Ele trabalhou na TV Globo e em assessoria de imprensa. Mas foi no cinema, sua segunda formação, que encontrou o canal para se comunicar com a amplitude que desejava. Ele frequentou a New York Film Academy, entre outros cursos de cinema, e, no ano de 1997, abriu a sua produtora Cinética Filmes.

Wagner de Assis assina o roteiro de 15 produ√ß√Ķes entre filmes para o cinema, especiais e novelas para a televis√£o, e um document√°rio. Entre os projetos nos quais trabalhou para a TV, alguns epis√≥dios das novelas de tem√°tica esp√≠rita ‚ÄúEspelho da Vida‚ÄĚ (2018) e ‚ÄúAl√©m do Tempo‚ÄĚ (2015-2016), da TV Globo.

Assis √© roteirista e co-diretor do document√°rio ‚ÄúQue Gera√ß√£o √Č Essa?‚ÄĚ (2015). A dire√ß√£o tamb√©m √© de Vivian Perl.

A sua estreia como roteirista foi em ‚ÄúXuxa Especial: Uma Carta para Deus‚ÄĚ (1998), um programa especial de final de ano da TV Globo. Iniciou no cinema em produ√ß√Ķes de Xuxa. √Č autor de ‚ÄúXuxa Requebra‚ÄĚ (1999) e roteirista de ‚ÄúXuxa Popstar‚ÄĚ (2000), ‚ÄúXuxa e os Duendes (2001) e ‚ÄúXuxa e os Duendes 2: No Caminho das Fadas‚ÄĚ (2002).

Mas a sua estreia na s√©tima arte como diretor foi com ‚ÄúA Cartomante‚ÄĚ (2004). Seis anos depois lan√ßaria, como roteirista e diretor, o seu filme esp√≠rita de maior sucesso ‚ÄúNosso Lar‚ÄĚ (2010). Os demais filmes s√£o: o curta-metragem ‚ÄúThe Last Great Romantic Comedy‚ÄĚ (2012, roteirista), o curta-metragem ‚ÄúThe Hunting of Lost Characters‚ÄĚ (2015, roteirista), A Menina √ćndigo (diretor, 2016), ‚ÄúKardec‚ÄĚ (2019, roteirista e diretor) e ‚ÄúAmor Assombrado‚ÄĚ, como roteirista e diretor, que tem estreia prevista em 10 de outubro pr√≥ximo.

O cineasta Wagner de Assis concedeu entrevista exclusiva à Coluna de Cinema da revista Mais Santos.

Voc√™ √© um cineasta que preenche uma lacuna no cinema nacional que s√£o as produ√ß√Ķes de tem√°tica esp√≠rita e sobrenatural. Al√©m dos filmes envolvendo Chico Xavier (Chico Xavier e As M√£es de Chico Xavier, entre outros, de outros cineastas), os seus longas-metragens ‚ÄúNosso Lar‚ÄĚ, ‚ÄúA Menina √ćndigo‚ÄĚ e ‚ÄúKardec‚ÄĚ tamb√©m t√™m sido um sucesso entre o p√ļblico brasileiro. E todos os seus filmes tratam de assuntos sobrenaturais, n√£o necessariamente esp√≠ritas, sejam fict√≠cios ou baseado em fatos reais, aos olhos do Espiritismo. Por que voc√™ aborda o sobrenatural nos seus filmes?

Pessoalmente, gosto do tema que investiga além da nossa realidade. Acho que vivemos numa realidade muito limitada e podemos Рe devemos Рempreender essa busca em nossas vidas, tanto pessoal como profissional, se possível (como no meu caso). Pude, então, atrelar o fato de contar histórias num meio de comunicação de massa que tenha a ver com um universo que me fascina profundamente Рentendo que a grande fronteira a ser desbravada é o espírito humano, não aquele que se diz de forma simbólica, mas refiro-me ao espírito de fato, o princípio inteligente do universo, segundo eles mesmos, os espíritos, responderam para o Kardec.

O que o levou a isso? Fé, curiosidade? Você é espírita?

S√£o as perguntas essenciais que nos direcionam desde que come√ßamos nossa aventura evolutiva pelo planeta – de onde viemos, para onde vamos, quem somos etc. Tenho f√© e curiosidade ao mesmo tempo, uma para me ajudar a viver e que √© impulsionada quando junto a ela o fato de raciocinar sobre o que acredito por entender o fato; a outra para me ensinar a perguntar sempre. Me considero um esp√≠rita crist√£o ecum√™nico, que entende o que de melhor a doutrina esp√≠rita tem para dialogar, conhecer, aceitar e incorporar – ou ajudar – √†s outras correntes filos√≥ficas, religiosas, tradi√ß√Ķes hist√≥ricas que tra√ßam as nossas ra√≠zes como seres humanos.

‚ÄúNosso Lar‚ÄĚ foi um sucesso e ‚ÄúKardec‚ÄĚ tem tido uma √≥tima resposta do p√ļblico. Como voc√™ se sente em rela√ß√£o ao sucesso de seus filmes?

Acho que sucesso mesmo √© contar bem uma boa hist√≥ria. Ponto. Todo o resto √© consequ√™ncia disso, o sucesso ganha sempre contornos subjetivos porque n√£o precisa ser o que se convencionou chamar de sucesso. Para quem estreia em cinema, fazer um primeiro filme j√° √© um baita sucesso, por exemplo. Atualmente, inclusive, um filme pode ser visto menos numa janela de exibi√ß√£o como pode ser muito visto noutra. Atualmente, o p√ļblico est√° cada vez mais senhor de como encontrar o conte√ļdo e isso √© determinante para a ind√ļstria, mas, para contadores de hist√≥rias, estaremos sempre diante dos mesmos desafios dram√°ticos, narrativos, audiovisuais. Emocionar, entreter, fazer pensar, oferecer √†s pessoas uma experi√™ncia.

‚ÄúKardec‚ÄĚ, sobre o codificador da Doutrina Esp√≠rita, Allan Kardec, estreou nos cinemas em 16 de maio deste ano (Divulga√ß√£o/Cin√©tica Filmes)

Ao que você atribui o seu sucesso dos filmes de temática espírita?

Continuo repetindo pra mim que as pessoas s√≥ v√£o aos cinemas para assistirem a boas hist√≥rias – e bem contadas. A tem√°tica esp√≠rita √© t√£o ampla que n√£o d√° para ser a √ļnica respons√°vel pela boa aceita√ß√£o do p√ļblico. Se voc√™ for pensar, h√° filmes consagrados com um monte de momentos ligados diretamente ao conte√ļdo esp√≠rita e n√£o s√£o lembrados por isso. J√° parou para pensar que o le√£o Simba, de certa forma, tem algum tipo de mediunidade por ser capaz de ver o esp√≠rito do pai, Mufasa, quando este o estimula a voltar para reconquistar seu reino? Isso √© a base do espiritismo, uma vida noutra dimens√£o chamada espiritual! Em novelas, por exemplo, podemos falar de reencarna√ß√£o de tantas formas diferentes que n√£o precisam ser classificadas por essa parte da tem√°tica, como fizemos em ‚ÄúAl√©m do Tempo‚ÄĚ e agora, recentemente, ‚ÄúEspelho da Vida‚ÄĚ, novelas nas quais colaborei na equipe de autores da Elizabeth Jhin. Agora, sem d√ļvidas, devo concordar que esses temas t√™m muita for√ßa junto ao p√ļblico em geral, eles trazem reflex√Ķes, possibilidades que falam diretamente √†s reminisc√™ncias espirituais da pessoa, tocam em ‚Äúbot√Ķes‚ÄĚ emocionais, suscitam outras d√ļvidas existenciais e isso, com toda a certeza, √© muito poderoso num amplo espectro.

O seu p√ļblico √© esp√≠rita em sua maioria, h√° uma gama significativa de pessoas que, embora n√£o sejam esp√≠ritas, simpatizam com o tema, por raz√Ķes pessoais, saudade de entes queridos falecidos, curiosidade sobre a exist√™ncia da vida ap√≥s a morte, ou que veem como uma produ√ß√£o de entretenimento apenas?

A bem da verdade n√£o tenho esse detalhamento do ‚Äúmeu p√ļblico‚ÄĚ. Entendo que haja pessoas de todas as origens que se interessam por uma boa hist√≥ria. N√£o tenho um algoritmo infelizmente! At√© gostaria de ter, mas √© imposs√≠vel. Ent√£o, prefiro me ater a ser um bom realizador, aprendendo sempre a cada filme. Claro que leio todos os feedbacks poss√≠veis e ou√ßo todos os coment√°rios poss√≠veis sobre o que as pessoas falam dos filmes. Uns passam direto porque se prendem a cr√≠ticas sem fundamento, cr√≠ticas vaidosas, destrutivas. Outros, no entanto, nos ajudam, nos fazem refletir. Nossa ideia √© sempre ‚Äúabrir‚ÄĚ os filmes para todas as pessoas ao m√°ximo. O cinema n√£o foi feito para que as pessoas tenham que ter conhecimentos pr√©vios antes de ver um filme. Cinema √© tamb√©m arte de comunica√ß√£o ampla, de massa, que abriga todo mundo numa sala escura e prop√Ķe uma experi√™ncia √ļnica.

O seu pr√≥ximo filme, ‚ÄúAmor Assombrado‚ÄĚ, com a talentos√≠ssima Vanessa Gerbelli, que tem data prevista de lan√ßamento em 10 de outubro, √© um drama que mistura a realidade e a fantasia, pelo que li na sinopse. Al√©m dos personagens fict√≠cios, a protagonista lida com pessoas de outras dimens√Ķes, essas pessoas s√£o esp√≠ritos?

Sim, uma escritora em crise criativa diagnosticada como esquizofr√™nica que v√™ e convive com seus pr√≥prios personagens, amigos imagin√°rios e tamb√©m esp√≠ritos, sem saber direito quem √© quem, sem saber direito como lidar com eles. √Č uma metalinguagem de dimens√Ķes e tamb√©m uma forma de questionar o que √© real e o que pode ser considerado surreal. Uma hist√≥ria de amor surreal, espiritual, medi√ļnico e, tamb√©m, por vezes, pode ser assombrado. √Č um filme que fiz antes do ‚ÄúKardec‚ÄĚ. Um desafio enorme de produ√ß√£o, cheio de planos-sequ√™ncia, filmagem submarina, um trabalho espetacular do elenco, que se envolveu nos desafios de contar a hist√≥ria daquela forma. Fiquei muito feliz com o resultado porque √© completamente diferente do ‚ÄúKardec‚ÄĚ, do ‚ÄúNosso Lar‚ÄĚ, da ‚ÄúMenina ‚Äú√ćndigo‚ÄĚ, por exemplo. Um drama com pitadas de thriller sobrenatural de novo, sim, o meu tema preferido, inspirado livremente no conto hom√īnimo da escritora Heloisa Seixas.

‚ÄúAmor Assombrado‚ÄĚ, com Vanessa Gerbelli, tem estreia prevista em 10 de outubro deste ano (Divulga√ß√£o)

Voc√™ assina o roteiro de ‚ÄúThe Last Great Romantic Comedy‚ÄĚ, um filme em ingl√™s, do g√™nero fantasia. Por que voc√™ est√° lan√ßando um filme em ingl√™s? √Č a sua primeira incurs√£o no mercado internacional? Quando ser√° lan√ßado?

Este filme j√° foi lan√ßado. √Č um curta-metragem com quase 30 minutos de dura√ß√£o filmado em Los Angeles. Uma experi√™ncia de cria√ß√£o. O filme ganhou alguns pr√™mios, inclusive. O roteiro √© meu, como voc√™ disse. Trata, tamb√©m, de pessoas que n√£o sabem se s√£o reais ou se est√£o sendo criadas por outras pessoas na pr√≥pria capital do cinema. Uma experi√™ncia incr√≠vel escrever em ingl√™s e lidar com a linguagem narrativa dessa forma. Houve outro filme, chamado The ‚ÄúHunting of the lost characters‚ÄĚ, que tamb√©m segue a mesma linha metalingu√≠stica. Est√° por a√≠ na internet, se n√£o me engano. Ambos j√° foram feitos e lan√ßados. Tenho projetos de longas-metragens em ingl√™s nos quais vou dirigir. Fazer os curtas, coproduz√≠-los, foi como uma escola tamb√©m.

Voc√™ pretende lan√ßar ‚ÄúNosso Lar: Os Mensageiros‚ÄĚ quando? Voc√™ j√° iniciou a produ√ß√£o? Quando pretende iniciar? Qual √© a hist√≥ria central da continua√ß√£o de Nosso Lar? Tamb√©m √© baseado nos livros de Andr√© Luiz, psicografados por Chico Xavier?

‚ÄúNosso Lar – Os Mensageiros‚ÄĚ est√° em fase final de financiamento ainda, infelizmente. Mas √© preciso que o filme, para ser bem feito, para que sua hist√≥ria possa ser bem contada, respeite os valores necess√°rios para isso. Estamos perto de conseguir dar o sinal verde da produ√ß√£o. Minha vontade era filmar agora no segundo semestre. Vamos ver se consigo. Mas n√£o posso prometer mais. J√° o fiz e atrasou. A hist√≥ria √© baseada em dois livros do Andr√© Luiz, subsequentes ao ‚ÄúNosso Lar: Os Mensageiros‚ÄĚ e ‚ÄúObreiros da Vida Eterna‚ÄĚ. Fiz um compilado de ambos na adapta√ß√£o. Mas √© basicamente a hist√≥ria do resgate de esp√≠ritos que fracassaram – ou est√£o fracassando – com seus projetos de vida. E seus amigos espirituais, os chamados mensageiros, mas que podem ser conhecidos como mentores, anjos guardi√£es, que est√£o sempre a postos para tentar ajud√°-los. √Č um filme sobre reden√ß√£o, sobre fazer o bem ou n√£o, sobre ter amigos que est√£o conosco de forma indulgente. Muito bonito, mas tamb√©m muito intenso, forte, que pretende propor quest√Ķes sobre o fato de que saber que a vida continua n√£o √© o suficiente para vencer nos prop√≥sitos de cada vida.

Como fundador da Cinética Filmes, como você analisa o mercado nacional? Como é fazer um filme no Brasil?

Costumo dizer sempre que em cinema nada √© simples, f√°cil ou r√°pido. E em geral n√£o √© barato. Cinema √© uma arte que se produz de forma industrial – o que pode ser mais contradit√≥rio nessa √°rea do que isso? E fazer cinema num pa√≠s no qual sua ind√ļstria ainda √© incipiente, que ainda precisa de pol√≠ticas p√ļblicas e privadas para tanto, √© tamb√©m muito trabalhoso. Mas vamos em frente. Fazer cinema no Brasil apesar de todas as adversidades √© continuar acreditando no Brasil, apesar dos pesares.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro fez um an√ļncio que desagradou produtores de cinema e artistas em geral sobre mudan√ßas na Ancine, que englobam desde a mudan√ßa da sede da Ag√™ncia do Rio de Janeiro para Bras√≠lia quanto em restringir produ√ß√Ķes que considera de cunho er√≥tico, por exemplo. Voc√™ v√™ isso como censura?

Qualquer ato de restri√ß√£o √† liberdade art√≠stica em tempos democr√°ticos e de Estado de Direito √© um ato de censura. Mas a declara√ß√£o e a vontade do presidente n√£o s√£o um ato consumado ainda, portanto, entendo que o momento agora √© de dialogar, demonstrar a import√Ęncia de toda uma ind√ļstria que gera tanta coisa positiva para o pa√≠s e n√£o de entrar nessa puls√£o de guerra que se espalhou entre os cidad√£os. Esperar tamb√©m que o executivo tenha ouvidos para isso. Acho at√© que a estrutura com a qual o cinema possa conviver n√£o √© definitiva e pode-se criar ou ajustar √≥rg√£os e fun√ß√Ķes, se for o caso. Mas n√£o se pode deixar de existir. N√£o se pode colocar o cinema como ind√ļstria abaixo de interesses pessoais, mesmo que sejam interesses de governantes. O Estado est√° acima de todos n√≥s e √© dever do Estado proteger, regular e fomentar a ind√ļstria cultural e audiovisual. √Č assim no mundo todo e precisamos entender, sem preconceito, que deve ser assim no Brasil tamb√©m. Ao mesmo tempo, penso que √© preciso estimular a iniciativa privada, criar linhas de financiamento em bancos particulares com custos competitivos para o mercado internacional, por exemplo. Estabelecer os Fundos de Cinema particulares, com juros internacionais, pode fazer parte de um conjunto de a√ß√Ķes que visem a criar uma pol√≠tica competitiva, liberal, mas que n√£o perde as bases no Estado. √Č preciso entender que o benef√≠cio fiscal do governo, atrav√©s da Lei do Audiovisual, √© bem estruturado h√° muitos anos. Mas que precisa de atualiza√ß√£o, revis√£o, melhores processos sempre. O governo deixa de receber o imposto pra que ele seja destinado pela empresa particular ou estatal para o produtor. Mas o governo n√£o orienta o investimento, o governo n√£o decide quem investe onde. Ou seja, h√° uma forma de regula√ß√£o. Se a empresa tal resolve investir no filme tal, independente de qual seja o tema do filme, √©, tamb√©m, uma decis√£o particular desta empresa. Ainda, √© mais do que fundamental o p√ļblico que critica o setor pela m√°-forma√ß√£o da opini√£o p√ļblica atualmente, que o Fundo Setorial do Audiovisual √© um recurso gerado pela pr√≥pria atividade – ou seja, n√£o √© dinheiro do contribuinte mas sim uma taxa que √© retirada da pr√≥pria atividade para fomentar os projetos. E que tem custos e que precisa render benef√≠cios de retorno, lucratividade, gerando competitividade e, claro, impostos, empregos e produtos culturais. Outra coisa: 79% das cidades brasileiras n√£o t√™m salas de cinema. Hoje chegamos a um n√ļmero recorde de salas. Mas √© pouco! Os exibidores deveriam invadir o Brasil pra criar pontos de venda em massa em cidades de 100 mil a 500 mil espectadores. Isso n√£o existe. Ou seja, h√° um grande espectro de coisas boas que podem ser feitas. E isso deve ser demonstrado para o novo governo, que muito provavelmente demonstrou n√£o estar consciente disso. Mas tudo deve e pode ser feito com pondera√ß√£o e vontade pol√≠tica. Por fim, vale lembrar que filmes de cunho er√≥tico declaradamente pornogr√°ficos, estabelecidos, n√£o t√™m subven√ß√£o estatal para os benef√≠cios das leis de incentivo. √Č uma ind√ļstria que funciona sozinha. E se Bruna Surfistinha for questionada sobre esse g√™nero, √© um erro de avalia√ß√£o e pronto. O filme √© um drama. Um drama que ensina muito acerca da vida. Vale pensar se Uma Linda Mulher ou A Bela da Tarde seriam produzidas no Brasil segundo esse crit√©rio. Ou seja, tudo pode ser resolvido com di√°logo, informa√ß√£o e, acima de tudo, entendimento que a liberdade criativa n√£o pode ser restrita a vontades pessoais e que precisamos muito da ind√ļstria do audiovisual no Brasil.

Os filmes brasileiros são um polo importante de geração de emprego e renda no Brasil?

N√£o h√° mais d√ļvidas disso. N√£o h√° mais d√ļvidas da qualidade do filme brasileiro, seja feito para o cinema, seja para a televis√£o. Como toda ind√ļstria, sua diversidade prop√Ķem projetos que sejam mais bem sucedidos que outros. Mas a qualidade √© ineg√°vel. Kardec e Nosso Lar, por exemplo, tinham um ‚Äúelogio‚ÄĚ que me deixava confuso. Diziam ‚Äúnem parece filme brasileiro‚ÄĚ. Sei que as pessoas que diziam isso queriam elogiar, n√£o tinham maldade, mas isso trazia no coment√°rio aquele preconceito de 30 anos atr√°s. Isso acabou. Voc√™ pode n√£o gostar da hist√≥ria – e tem todo o direito disso – mas n√£o pode questionar o produto em seu acabamento profissional. O que tem que acabar tamb√©m √© o filme ser ‚Äúbrasileiro‚ÄĚ, como se fosse um g√™nero. Brasileiro n√£o √© g√™nero de cinema. Assim como espiritismo n√£o √© g√™nero de filme, o que √© outro assunto que sempre tento refor√ßar. Al√©m disso, os n√ļmeros de crescimento da ind√ļstria mostram a import√Ęncia do audiovisual brasileiro e como isso tem crescido muito na √ļltima d√©cada, com leis e pol√≠ticas p√ļblicas que s√≥ melhoram mas precisam tamb√©m ser melhoradas.

Voc√™ acredita que mudan√ßas na Ancine provoquem uma redu√ß√£o significativa nas produ√ß√Ķes de filmes? Ou mesmo dificulte a busca por patrocinadores para produ√ß√Ķes futuras?

Mudar alguma coisa na Ancine, como √≥rg√£o regulador do setor, pode n√£o afetar diretamente a produ√ß√£o t√£o somente e unicamente se as linhas de financiamento que j√° est√£o estabelecidas e estavam em funcionamento forem mantidas. Se n√£o, ser√° catastr√≥fico. Devemos ponderar todavia que a Ancine ganhou know how e expertise ao longo de anos. Est√° em busca de ser mais eficiente sempre. Se ela perder uma de suas fun√ß√Ķes atuais que √© a de fomentar a ind√ļstria, isso realmente pode gerar um tempo tr√°gico sem que possamos produzir at√© que o governo – em sua nova forma de gerir a √°rea – esteja preparado tecnicamente para voltar a fomentar a ind√ļstria. Isso √© preocupante. Muito. Esse √© um momento perigoso portanto, que pede uni√£o da classe e muito di√°logo, por mais dif√≠ceis que eles possam parecer. Pede tamb√©m que o governo seja flex√≠vel e ou√ßa. Acho, por exemplo, que a pasta da economia do pa√≠s deveria se inteirar mais da for√ßa que uma ind√ļstria audiovisual forte pode ter, como em muitos pa√≠ses do mundo.¬† E o quanto ela pode ajudar a criar uma identidade mais forte como povo.

Se quiser acrescentar mais alguma coisa fique à vontade.

Al√©m do ‚ÄúNosso Lar 2‚ÄĚ, temos outros projetos que estamos em linha de produ√ß√£o prestes a come√ßar/lan√ßar. Um deles, que admiro muito, no qual estimo muito, √© ‚ÄúEmmanuel‚ÄĚ, a cinebiografia do esp√≠rito que foi mentor do Chico Xavier. √Č a primeira cineespiritografia, inventando uma palavra, do cinema brasileiro. Qui√ß√° mundial (risos). Mas queremos contar a trajet√≥ria desse esp√≠rito desde sua vida na Roma antiga, at√© os dias atuais, onde h√° uma doce pol√™mica que afirma que ele j√° renasceu. Um √©pico marcado por uma linda e emocionante hist√≥ria de amor tamb√©m, um romance que atravessa os tempos e est√° todo descrito no livro H√° 2000 anos, do Chico Xavier. Tamb√©m vamos lan√ßar um document√°rio chamado ‚ÄúEm Busca de Cinderela‚ÄĚ, uma produ√ß√£o minha com dire√ß√£o de Vivian Perl, que investiga como e porque esse mito da Cinderela atravessa tantos s√©culos e ainda perdura no imagin√°rio de muitas meninas (e meninos tamb√©m) em pleno s√©culo XXI. H√° outros projetos, mas esperemos o momento certo para falar deles.

O cineasta Wagner de Assis durante as grava√ß√Ķes de “Kardec” (Arquivo Pessoal)

O cineasta Wagner de Assis durante as grava√ß√Ķes de “Kardec” (Arquivo Pessoal)