7.2 // ENTREVISTAS

Arquiteta santista trilha caminho pelos EUA

O relato a seguir é da arquiteta Eliane Florez Sanzone Garbero, que fala sobre sua trajetória na profissão – desde seu início como estagiária na Prefeitura de Santos até os dias de hoje, como estudante de mestrado na University of Florida. Ela conta também como foi a experiência de 10 dias em Porto Rico, cujo objetivo foi ajudar na recuperação e reconstrução da ilha, que foi severamente atingida pelo furacão Maria em setembro do ano passado. “Ainda há muito o que ser feito, sem dúvida, mas hoje mais do que nunca entendo que é preciso começar de alguma forma, que a união faz toda a diferença e a arquitetura é realmente uma poderosa ferramenta para ajudar a mudarmos e melhorarmos o mundo”, destacou Eliane.

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 Sou nascida e criada em Santos. Desde pequena, eu nunca me vi trabalhando com outra coisa que não fosse arquitetura. Eu colecionava os panfletos de imóveis que eram distribuídos nos semáforos e brincava de desenhar espaços.

Durante os anos de faculdade (me formei na Universidade Santa Cecilia) fiz estágio na Prefeitura Municipal de Santos  por seis meses (como a maioria dos alunos). Estava fazendo o geoprocessamento (mapeamento digital) da cidade de Santos. Em seguida, um professor adjunto (que infelizmente não me recordo o nome) me indicou para estágio no escritório Passarelli Zonis, também em Santos, onde estagiei por quase dois anos e meio. O conjunto faculdade + estágio na empresa aprofundou ainda mais minha paixão pela arquitetura.

Ao fim de 2006 me formei e me mudei para a cidade de São Jose do Rio Preto, onde trabalhei por três anos em um conceituado escritório de arquitetura e design de interiores. Em 2011 recebi uma proposta para integrar o time de profissionais da MRV Engenharia. Lá eu pude aprender na prática toda a base que a faculdade me deu no campo de aprovação de projetos e análise de projetos pelo Grapohab.

Em 2013, dada a experiência que adquiri na empresa com projetos de prevenção e combate a incêndio, projetos elétricos, hidráulicos e de acessibilidade, consegui a vaga para ser um dos doze arquitetos do Tribunal de Justiça de São Paulo, através do consórcio de duas empresas, Argeplan-Concremat. Foram mais de três anos fazendo vistorias em prédios do TJSP, elaborando relatórios para indicar serviços e materiais, analisando planilhas orçamentárias para a execução dos serviços de obra e reparo.

Apesar de estar satisfeita profissionalmente, eu sentia a necessidade de voltar a estudar. Não apenas estudar, eu queria um desafio maior, ter a experiência em outro país. Foi quando apliquei para o mestrado nos Estados Unidos. Escolhi a Universidade da Flórida porque é muito bem conceituada e vista pelos norte americanos (e a 3ª das 10 melhores universidades públicas dos Estados Unidos). Também consegui uma bolsa de estudos LAC (Latin Amercian Caribbean) Schollarship, por ser brasileira. Mas essa bolsa apenas se aplicaria se eu estudasse no campus principal da Universidade, em Gainesville. Eu iniciei o curso lá, porém consegui transferência para o campus do CityLab em Orlando e optei por pedir a transferência, mesmo tendo que abrir mão da bolsa. A diferença do valor do crédito não é tão grande e Orlando está em franco crescimento, então eu teria mais oportunidades de estágio, o que realmente aconteceu. No início deste mês comecei a estagiar em um escritório de arquitetura aqui em Orlando.

Em janeiro deste ano, através da faculdade, fui em uma feira de construção (National Association of Home Builders’ – NAHB – International Builders’ Show) que ocorre anualmente nos Estados Unidos, cada ano em uma cidade diferente. A de 2018 foi em Orlando e pude assistir uma breve palestra com Drew e Jonathan Scott, do programa Irmãos a Obra. Sou super fã do trabalhos deles.

Em março (de 16 a 25) a UF elaborou, em conjunto com a Universidade de Porto Rico, Universidade Sapienza de Roma e com a Universidade de Sevilha, uma conferência em Porto Rico, a fim de ajudar na recuperação e reconstrução da ilha, que foi severamente danificada pela sequência de furacões que a atingiu no ano passado. 

Os furacões destelharam mais do que apenas as casas, eles descobriram a pobreza da ilha, uma vez que o FEMA (orgão governamental para gestão de emergências) libera recursos para recuperação dos imóveis apenas para quem tem a titularidade da propriedade e, como acontece no Brasil, muitas comunidades são assentamentos informais (comumente chamadas de favelas).

Foram 10 dias na ilha, com uma variedade enorme de palestras, como a do arquiteto David Gouverneur (professor da Universidade da Pensilvânia, com mestrado em Harvard, autor do livro “Planning and Design for Future Informal Settlements: Shaping the Self-Constructed City”), Lucio Barbera (Presidente da Unesco em Qualidade Urbana Sustentavel), entre tantos outros. Alem das palestras, fizemos visitas em áreas próximas a San Juan, também bem afetadas pela ultima temporada de furacão. Fiquei assustada em ver que muitos dos danos (rodovias que foram interrompidas por deslizamentos, casas onde sobraram literalmente só o piso) ainda não foram reparados mesmo depois de 6 meses. O interior da ilha ainda estava sem energia, por causa da queda de diversos postes de transmissão. E o mais aterrorizante e que a temporada de furacões 2018 já começou no inicio de junho.

Na conferência, os estudantes puderam escolher entre 5 laboratorios de estudo:

1-     Assentamentos sustentáveis, gestão de água e energia renovável
2-     Reuso de edifícios urbanos abandonados

3-     Habitação resiliente e planejamento urbano

4-     Núcleos de emergência (abastecimento de suprimentos e mantimentos na passagem de futuros furacões)

5-     Oportunidades de desenvolvimento econômico

Eu optei pelo laboratório 3, pois trabalhamos com áreas com risco de alagamento às margens da Lagoa de Corozos, que além de ser um assentamento informal (onde as pessoas que residem não possuem a propriedade do terreno, da casa ou de ambos) sofre com problemas do aumento do nível de água da lagoa. E sei que esse é um problema recorrente também em muitos bairros de Santos.

               No 9º dia os grupos apresentaram os trabalhos desenvolvidos para a banca da conferência e também para as prefeitas de Loiza e Canovanas. Foram desenvolvidos desde protótipos de novas tipologias de unidades habitacionais, espaços para agricultura urbana até reuso de contêineres como espaço de armazenamento de suprimentos.

               Foi uma experiência incrível, com pessoas de vários países, o que permitiu um intercâmbio imenso de informações,. Também aprendemos muito com os moradores da ilha, sobre seus costumes, estilo de vida, e pudemos projetar em conjunto com estudantes de arquitetura da própria Universidade de Porto Rico, de forma que os projetos desenvolvidos atenderiam de fato as reais necessidades. Eu fui a única santista no evento, mas não a única brasileira. Estavam também as arquitetas Daniela Coppola e Maria Victoria Marchelli, ambas de São Paulo, e Giselle Holz, de Porto Alegre, todas também estudantes do mestrado de arquitetura na UF CityLab Orlando campus.

               Ainda há muito o que ser feito, sem dúvida, mas hoje mais do que nunca entendo que é preciso começar de alguma forma, que a união faz toda a diferença e a arquitetura é realmente uma poderosa ferramenta para ajudar a mudarmos e melhorarmos o mundo.


Confira algumas fotos da experiência de Eliane:

Fotos: Divulgação

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