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Por Lucas Leite

Fotos: Marina Marques

Local: Pinacoteca de Santos


O Outubro Rosa é uma campanha para conscientizar e alertar as mulheres sobre o câncer de mama. Estudos indicam que, com os exames de rotina, a taxa de mortalidade por causa do câncer de mama são reduzidas em 25%.

Para conscientizar as mulheres sobre a importância de se fazer os exames de rotina para checar se há ou não o câncer de mama, a Revista Mais Santos preparou uma matéria especial em conjunto com onze mulheres que integram o Instituto NEO MAMA e que já tiveram de superar a luta contra o câncer de mama, e que contaram com a ajuda do instituto para se recuperarem desta batalha.

O Instituto NEO MAMA foi fundado em novembro de 2001 por Gilze Francisco, então enfermeira, que teve de travar uma dura luta contra o câncer de mama. Até hoje, o NEO MAMA já atendeu cerca de 3.000 mulheres e conta com banco de lenços, perucas e chapéus, além de próteses externas e sutiãs.

A proposta do instituto é realizar projetos para não deixar que aquelas que lutam ou lutaram contra o câncer de mama caiam na mesmice e propõe diversas atividades para que suas integrantes possam levar uma vida mais leve e tranquila.

Gilze Francisco, 57 anos, enfermeira

Por que decidiu criar o instituto?

O instituto, na verdade, é a concretização de um sonho que veio de um pesadelo, que foi o câncer de mama comigo. Então, numa época onde a internet não era tão acessada, onde não existia vida virtual, eu criei um site. Através deste site, veio o instituto e, através do instituto veio o Outubro Rosa para o Brasil, depois disso vieram ações.

Agora, a gente vai abrir uma segunda unidade de oncolaser terapia. Então, na realidade eu vivo projetando para que elas não caiam na mesmice. O instituto não é uma mesmice, sempre tem alguma coisa acontecendo, sempre tem uma motivação. Quando eu vejo que está tudo muito parado, é uma sessão de fotos, é um passeio ou é uma excursão, para poder mobilizar. Porque nós compreendemos que existe vida após o câncer depois que a gente consegue fazer projetos e concretizá-los, e quanto mais rápido a gente conseguir concretizar, maior é a concretização de vida dentro da gente. E a gente só vence o câncer sedimentando muito isso dentro de nós, tendo pilares dentro de nós que nos sustentem em um enfrentamento muito dolorido mesmo, de dor de alma e de corpo.

Como foi para você quando buscava um apoio mas não tinha um instituto como o Neo Mama?

Eu não encontrei realmente.  Eu encontrei profissionais dispostos a me ajudar, a me fornecer informações dentro da realidade deles. Então, não existia serviço de fisioterapia adaptado, como existe hoje.

Eu tinha 38 anos quando eu tive o câncer. Então, a gente acaba se deparando e vendo a necessidade de não querer que outra pessoa passe o que você está passando. Isso era o que vinha sempre na minha cabeça: “Eu não quero que ninguém passe pelo o que eu estou passando, eu não quero que nenhuma delas sofra o que eu estou sofrendo: sem informação e vivendo na pele”. Então, é muito difícil. Nenhum profissional chega para você e fala assim (no meu caso eu fui mastectomizada): “Olha, quando você for andar, logo depois da cirurgia, você vai pender para um lado, porque o seu ponto de equilíbrio foi afetado. Então, você vai pender para um lado, até que você bata em uma parede. Você vai andando torto”. Então, eu começava a achar que eu estava com sintomas neurológicos. E não era, era a falta da mama. Quando você vai descer uma escada, até hoje eu ainda me inclino demais para ver o degrau, porque fica uma sensação de que o teu pé não vai encontrar o degrau. Então, são muitas coisas que só quem passou pode dizer. É uma sombra dupla que a gente tem pro resto da vida, mas que como todo sombra serve também para um alerta de que a gente deve ser aquilo que a gente está mostrando naquela sombra: o melhor possível, o mais acolhedor possível, o mais, pode ser até bucólico, mas tem que ser uma coisa gostosa. A gente deve ser um divã para quem está passando por uma situação como esta. Eu brinco que, no instituto, nós somos como colchões, quando uma cai, todo mundo se posiciona para que ela não tenha uma queda tão ruim. Para que não doa. A gente faz o possível para dar aconchego, para dar segurança, para ela saber que ela não tá sozinha nesta luta.


Roseli Franco, 77 anos, assistente social aposentada

Eu tive o primeiro há 45 anos, com 32 anos. Fiz todos os tratamentos: quimioterapia, radioterapia e tal. Porque naquela época não tinha muito exame para ser feito. Graças a Deus, tive uma vida muito boa até os 65 anos, quando eu tive novamente, em outra mama. Porque aquela mama foi removida.
Faz 12 anos e tudo bem. Fiz todos os tratamentos novamente e estou sobrevivendo, graças a Deus, muito bem.
A cabeça ficou pior no primeiro, porque é um choque muito grande e era um diagnóstico de morte, porque os tratamentos eram muito limitados. Hoje, não. Hoje você faz mamografia para ver o tamanho do tumor, como é e exames preventivos. O oncologista já pede quando detecta alguma coisa.
Desta vez, foi até mais leve. Quer dizer, é desagradável. Porque você fala: “Nossa, pensei que tivesse livre, mas não, né?”. Então, você começa tudo de novo. Não precisei fazer retirada da mama desta vez, fiz só por quadrante. Da primeira vez foi remoção total da mama, com peitoral maior, menor, ovário, foi um arrasa quarteirão. Até porque eles não tinham conhecimento do quanto iria evoluir, né? Hoje, eu acho, que já tá bem mais diferente. Com tanto congresso, aparece tanta técnica e tanta informação que os médicos já tem uma previsão.

O que a vida representa para a senhora hoje?

A vida para mim é tudo e eu gosto muito de viver. Eu acho que é isso que me faz superar, porque tendo a cabeça otimista, boa, querendo viver e fazendo tudo. E eu faço tudo, eu até remo. Porque depois que eu tive o segundo câncer, eu conheci o Instituto NEO MAMA, então aí que eu descobri eu fui e me integrei. Fui ser voluntária e trabalho como voluntária até hoje, fazem 12 anos. E tem várias coisas, fiz terapia, dança de salão e, agora recentemente, em um projeto do dr. Mackenzie, médico canadense, que o Fábio Paiva, da Canoa Brasil, trouxe. O Mackenzie descobriu que o esporte é bom para quem tem câncer. Agora, o remo para as mulheres que tiveram o câncer de mama é muito bom, porque ele ajuda a não ter o linfoedema que é aquele inchaço. Então, a Gilze descobriu na internet, se entendeu com o Fábio, que é canoista, super campeão nacional e tudo, e ele se encantou com o projeto. Então, ele abraçou a causa e nos chamou para fazer a remada e faz dois anos que a gente participa de competição, festival e tudo. É maravilhoso!


Maria Ercilia Ferreira Vasques, 74 anos, dona de casa

O meu problema foi assim: com 60 anos é que eu descobri. Fiz a mamografia de rotina e acusou o nódulo. Aí a ginecologista preferiu esperar, mas como eu sabia que a gente não tem que ter nódulo, essas e tem que tirar logo, eu fui em outro médico, um mastologista. Ele falou: “Olha, realmente está acusando alguma coisa. Vamos nos certificar”. Só que ele mandou fazer na Mega Imagem, aí o dono da Mega Imagem falou assim para mim: “Vamos fazer o ultrassom porque está muito profundo”.
Depois dos resultados, ele me indicou um médico e falou para mim: ” Você vai no seu médico, porque eu quero fazer uma biópsia”. Aí ele falou que eu teria que fazer a cirurgia, porque eu estava com câncer e eu estava com três nódulos na mama.
Todo ano eu fazia a mamografia e nunca dava nada, e aquele também, foi por Deus, porque eu perguntei para a médica. Ela não ia me dizer, se fosse por ela, eu não estava aqui para contar a história.
Aí eu estava com a minha filha e ela falou: “Doutor, eu prefiro que o senhor fale para ela a verdade”. Então, eu parei na porta do consultório e o doutor disse: “Dona Ercilia, a senhora está com câncer e, provavelmente, eu tenha que tirar a mama direita porque a senhora está com três nódulos”. Aí a minha falou: “Doutor, mas ela tem uma formatura para ir”. E o doutor respondeu: “Se fosse minha mãe, eu faria ontem”. Foi quando eu vi que o negócio era greve e mandei marcar, porque formatura tem várias. Então, eu tirei a mama toda.
Eu tive que fazer quimio e o pior de tudo foi cair o cabelo.
Na hora da cirurgia, eu fiz a reconstrução da mama, eu pus o expansor para ir inflando e depois eu colocaria a prótese, mas meu organismo rejeitou e tive que voltar para a sala de cirurgia para tirar o expansor.
Aí o médico disse: “Olha, depois do seu tratamento, a senhora volta e faça”. E eu disse que não, que time que estava ganhando não se mexia. Afinal, eu estava bem. E se, de repente, eu ponho e me dá outra vez. Hoje, eu uso prótese, mas no sutiã.
Para mim, foi a pior fase da minha vida. Então, eu sempre digo: “Aquela que teve o câncer morreu, nasceu outra”. Agora, eu fiquei viúva há quatro anos e estou agora me descobrindo e me divertindo. A Ercilia de antigamente era muito submissa, aceitava tudo. Agora não, agora eu já tenho minha opinião. E a família é muito importante na recuperação da gente. Meu marido foi muito legal comigo e me ajudou muito, na época. Minhas filhas, também. Só eu tive na família e todos ficaram apavorados com isso, mas graças a Deus eu consegui. Hoje sou uma nova Ercília e muito também graças ao Instituto NEO MAMA, que para mim foi a minha descoberta. Porque eu não queria entrar, mas minha filha insistiu. Depois, com a conversa da Gilze, eu entrei de um jeito e saí de outro, outra mulher. Comecei a impor minhas decisões e fiz todo mundo me respeitar como gente.


Maria Aparecida Gomes da Costa Medeiros, 59 anos, esteticista

Em 2001 tive um câncer pequeno, foi diagnosticado com 8 milímetros e fiz um quadrante.
Fiz tratamento, fiz quimioterapia, em 2013. Ainda fazendo tratamento, descobri um outro câncer, de 2 centímetros em 2014. Na mesma mama direita, no mesmo lugar, onde eu tive o outro. O primeiro foi triplo negativo, um tipo de câncer que não costumam fazer muito tratamento, porque o diagnostico dele é tirar, ele não reagir ao tratamento e o segundo hormonal, n tinha nada a ver c o primeiro. Eu achava que o médico tinha errado, deixado alguma coisa e até troquei de médico, hospital.
Aí tive um câncer hormonal, tirou a mama toda, tirou 18 linfonodos, 3 comprometidos, e aí fiz a cirurgia, coloquei a prótese de Becker, fiquei um tempão, fiz radio, fiz quimioterapia, e continuei a vida. Agora eu já estou com mama, já estou com bico, já estou toda prontinha, ficou maravilhoso.

Como foi esse período pra você?

Doloroso, a quimioterapia foi muito dolorosa. A segunda vez foi ‘punk’, foi pesada.

Por que pior que a primeira?

Porque sim, um porque o câncer era diferente, e dois porque podia ser uma recessiva, uma repetida, né? Então tinha que tomar a providência de combater bem para não acontecer outra vez, mas foi pesada a quimioterapia.

E deu pra extrair algo de positivo?

Nossa a gente renasce, é outra vida. A gente vive diferente, muda o psicológico, o jeito de viver, a família. Muda tudo, a gente é outra pessoa; ama mais, ama as coisas, ama plantas, animais. Coisa que a gente não enxergava passamos a ver diferente; o olhar muda, o foco muda.

Você chegou a pensar que não sobreviveria?

Não, eu nunca tive isso. Eu vivia, trabalhava, eu tinha vida, mas depois que eu tive o câncer a gente quer viver a cada momento, mas viver bem, viver feliz, viver fazendo coisas boas, só fazendo coisas boas, não abre mão daquilo que a gente quer, porque antes a gente abre muito a mão por marido, filhos, porque antes é ‘Ah não, não vou agora’ hoje eu não faço mais isso, eu vou agora. Tenho um evento para ir, eu vou. Largo tudo, largo marido, largo trabalho, largo filho e vou. Agora é o meu momento.


Alice Miyasiro Henriques, 65 anos, professora e comerciante aposentada

Eu fiz faculdade e fui trabalhar como professora. Trabalhei como professora durante um bom tempo e, depois os filhos estavam começando a entrar no colégio e eu cismei de dar aula no próprio colégio deles. Dei durante um certo tempo e aí eu vi que a profissão estava ficando cada vez mais difícil. Aí eu acabei indo para o comércio, já que a família é do comércio e abri uma papelaria, que era mais voltada para arquitetura, então eu tinha muitos materiais para os alunos que faziam arquitetura e, às vezes, até eles precisavam de alguma coisa e eu, como fiz matemática e física, era mais fácil para mim ajudá-los. Então, foi um prolongamento da minha faculdade, mas quando eu tive a doença eu parei. Minha família não quis mais que eu fosse.

Como a senhora descobriu?

Como eu fazia hidroginástica, eu fazia natação, eu tinha o cuidado de ir na ginecologista todo ano e eu percebi que tinha algo errado em um dos seios. Falei com ela e ela achava que não, que como eu já tinha tido três filhos e tinha amamentado os três, era difícil, mas ela fez porque eu estava sentindo, mesmo que uma fisgadinha de nada. Eu não sentia quase o caroço. Mas aí eu fui procurar e fui atrás, e quando eu descobri que eu tinha, eu tirei o seio direito, aos 56 anos.

Como a senhora reagiu emocionalmente?

Você fica abatido, mas como você vê que tanta gente consegue superar, aí você tem que se preparar mentalmente. Aí, graças a Deus, foi tudo bem. Já fazem nove anos e os exames eu faço todo ano e todos dão normais. Estamos vivendo cada dia é um dia.

E depois disso a sua forma de pensar sobre a vida mudou?

Antigamente, a vida era muito corrida. Era filho, trabalho, casa e eu não tinha tempo mesmo para mim. Era muito difícil, mas chega uma hora que você tem que parar e se acalmar. Você vê o tanto que essa correria toda te prejudicou. A gente fala para os mais novos: “Calma, vai tranquilo”., mas não adianta. O mundo está uma correria só e as coisas passando, todo mundo na internet o tempo todo e trabalhando e não se dá um tempo de repouso, que o corpo precisa. Depois você vê que a medicina oriental é que é muito sábia em relação a isso.

Como foi o apoio dos familiares e dos amigos?

Olha, dos meus filhos e dos meus amigos foi maravilhoso. Eu não tenho do que reclamar, até hoje. Agora, os netos até eles tem o cuidado de não deixar eu pegar peso, mas, assim, é a vida da gente. É uma coisa que a gente gosta de fazer e vamos remando também e vivendo a cada dia. A cada dia procurando ser feliz, mais do que antes disso tudo. Tanto que estamos aqui reunidas com as amigas e a maior felicidade é falar um pouquinho de si, dar risada e isso deixa a nossa vida mais tranquila.


Aparecida Pereira Francisco, 63 anos, bancária aposentada

Faz 12 anos que eu descobri o câncer e assim, a minha primeira resposta foi o mundo abriu. O chão abriu e você não sabia como você ia levantar. Se não fosse a ajuda família e dos amigos, você vai para baixo e fica e morre. Mas graças a Deus eu tenho uma família maravilhosa, uma irmã super e foi assim.
Foi assim: “E aí, o que que vai fazer agora?”. “Vamos fazer a primeira etapa, a segunda, a terceira”, e graças a Deus eu estou aqui, vivendo por etapas. Não adianta você ficar morrendo, porque quando você não tem informação você pensa que vai morrer, como todo mundo fala: “É câncer? Câncer mata”. Não mata, não.

Esse chegou a ser seu primeiro pensamento quando o médico falou que a senhora tinha câncer?

É, foi. E a gente começa a se despedir, né? Aí você vê que não é nada disso, você começa ter informação e todos te levantando, aí você tira de letra e vai passando e a gente chega até onde estamos hoje.

Você tirou algum aprendizado de tudo isso?

Bastante, porque antigamente eu pensava nos outros, né? E depois, eu penso: “Pera aí, antes eu, né?”, antes eu, depois eu, depois eu e depois se sobrar um tempinho vai para os outros.
Eu sou solteira, até tenho um companheiro que me dá todo o apoio e é assim: tudo que eu falo, ele me entende, sabe? Sempre está nos médicos, me dando força quando eu estou para baixo. Porque quando você vai fazer os exames você fica naquela: “O que será que deu?”. Até porque eu fui fazer um exame de rotina e descobri o câncer, mas você fica muito mais tranquila quando você vai e o médico fala: “Não, está tudo certinho. Volta daqui um ano”.
Toda vez que vai fazer um exame você pensando, né? Você não sabe, porque tanta coisa acontece. Você vê tantas amigas partindo e você pensa: “Será que é a minha vez?”.
O cabelo caiu tudo e pesou. Quando cai, você vê que está com a doença. Mas depois ele cresce e vem mais bonito.


Romilce Monteiro dos Reis, 57 anos, aposentada

Quando eu descobri o câncer, eu tinha 48 anos e foi ruim. No início, eu descobri que estava com câncer de ovários, em setembro de 2009, aí quando foi em novembro, no comecinho, eu descobri fazendo os exames para operar o de ovário, eu descobri que tinha o de mama também. Aí chegou junto e eu comecei a fazer os exames e tive que operar. Em dezembro, eu operei o de mama e o de ovário no mesmo dia, então foi bem terrível, né?

E como você buscou apoio para aguentar esse período?

Primeiramente a gente busca em Deus, né? A gente pede forças a Ele, porque senão você cai na depressão, em tristeza e tal. Em segundo lugar, a família, meu esposo também estava junto. Então, foi o apoio que eu procurei, porque sem eles eu não teria segurado essa barra.

Teve algum momento específico que foi mais doloroso?

O mais doloroso para mim foi a perda dos cabelos. Eu tinha os cabelos bem compridos e o médico já tinha me alertado sobre a quimioterapia e a radioterapia, mas a gente nunca acha que o nosso vai cair. Na segunda sessão, começou a cair e, para mim, no tratamento todo, foi o mais difícil.

E quando o médico falou que o seu diagnóstico era de câncer, como foi para você?

No momento, parece que você leva um choque e não cai na realidade. Aí passando as horas, você vai digerindo e pensando: “Nossa, você tá com câncer”, aí parece que o chão se abre e você perde totalmente o chão, você fica em pânico. Até porque, quando você recebe esse diagnóstico, o que vem na cabeça é a morte. Hoje, a gente já sabe, passou por tratamento, já conhecemos muitas amigas lá no Instituto NEO MAMA, que é uma casa que nos acolheu e nos acolhe sempre. Então, a gente sabe que não é bem isso. Aí fora, o pessoal fala câncer e associa à morte, e não é bem isso, se você se cuidar, se prevenir, se tratar direitinho, você tem chance de sobreviver, até porque eu estou aqui há oito anos, né? (Risos)

E como você enxerga sua vida hoje? Mudou sua forma de pensar?

Mudou bastante, porque eu digo que sou uma pessoa antes do câncer e outra totalmente diferente depois. Penso diferente, me cuido mais e vivo mais. Tomo atitudes que antes eu não tomaria, como ser mais independente e viver mais. Viajar, cuidar dos filhos, porque sou casada e tenho dois filhos. Cuido da família e tudo, mas penso primeiro em mim.


Maria Lucia Manuel Bezerra, 65 anos, secretária aposentada

Descobrir o câncer é um susto. A gente nunca imagina que vai passar por uma situação dessas, mas ocorreu e me assustou demais. Até porque na minha família eu nunca lidei com a doença, ninguém teve e quando veio esse diagnóstico, para mim, foi uma das piores coisas durante todo o meu tratamento.

Teve algum momento caracterizado como mais difícil?

Eu acho que foi o diagnóstico, porque o resto eu fui administrando da melhor forma possível. Contar para a família também é um momento que, assim, é difícil, porque eu quando saí do médico, já com o diagnóstico correto, eu fui para casa andando sozinha e eu tinha vontade de nunca chegar em casa. Ali, eu fui pega sem jeito e despreparada. Eu tinha a impressão de que eu tinha que andar, andar e andar muito para chegar estabilizada e dar a notícia. Então, eu fui dando aos poucos. Quando eu saí do médico, eu já conversei com o meu marido e com os meus filhos eu fui dando a notícia aos poucos. Até que logo eu fiz a cirurgia e eu acho que uns dois dias antes de fazê-la eu contei para a minha filha. Ela estava em uma fase muito diferente e todo final de semana eu queria contar, mas ela tinha alguma coisa para acontecer e eu decidia não contar, porque eu sabia que ela não iria digerir muito bem, porque é uma coisa pesada e com a mãe. Aí quando foi bem próximo, eu contei para ela e ela caiu em desespero. Mas depois as coisas vão se encaminhando da melhor forma possível.
A queda do cabelo, por exemplo, para mim, era uma consequência. Eu fui por etapas. Primeiro, a quimioterapia, que eu nunca tinha passado e não sabia nem o que era. Mas, graças a Deus, eu fui bem. Não passei mal durante as seis sessões de quimioterapia, não tive esses grandes enjoos que as pessoas têm. Aí veio a radioterapia, que eu também nunca tinha passado, mas eu falei: “vamos em frente”. Então, eu fui muito bem. Fiz 31 sessões de radioterapia e não tive problema nenhum. Eu falo que durante o tratamento, para mim, foi menos doloroso do que saber da doença. Foi o maior impacto, o resto eu administrei muito bem.

Deu para extrair algo de positivo de tudo isso?

Sempre dá. Embora seja uma coisa triste e difícil, a gente sempre aprende alguma coisa. Lidar com algumas situações, ter mais paciência, não projetar muito o futuro e isso aí você começa a administrar um pouco melhor. Você tem que viver o seu presente, o dia após dia com mais tranquilidade.


Denise Gonçalves Pampolini, 61 anos, aposentada

Eu descobri o câncer em uma plástica redutora. Eu estava preparando as coisas para o aniversário de 90 anos da minha mãe e como eu tinha as mamas muito densas e pesadas, eu já estava com problemas na cervical, então eu queria ficar bonita na fita. E quando veio o resultado da biópsia do material retirado apareceu o câncer. Eu tinha 54 anos, na época. São sete anos de descoberta.

Como foi na prática quando você recebeu a notícia?

O mundo cai, né? A ideia que você tem é de que vai morrer. A gente sabe que todo mundo vai morrer, né? Mas, assim, a proximidade da ideia da morte, assusta. Porque você tem tantas coisas para resolver, você acaba de entrar numa fase nova da vida e você recebe uma notícia tão impactante quanto essa.

O que me ajudou muito foi a minha fé e eu tenho um grupo de amigos muito bom , que me deram suporte todo, porque eu escondi a doença da minha mãe e porque três meses depois de uma cirurgia plástica, eu entrei em uma mastectomia bilateral. E contornar toda uma situação, sair, eu tirei o dreno 2 de janeiro e a festa foi 7 de janeiro e ela só soube um ano depois, quando eu já estava bem. Ela já tinha o comprometimento do Alzheimer, andando de cadeira de rodas e foi uma fase muito difícil da minha vida. Mas tudo passa, graças a Deus, e eu sempre gostei muito de viver, viajar e conhecer coisas. Só que depois do câncer, tudo ficou mais latente. Parece que os olhos da gente observam com mais cores tudo aquilo que a gente já viu.

Então dá para extrair algo de positivo?

Sempre. Eu passei a me olhar mais, me cuidar mais e a me gostar mais.


Silvana Pinto França Nohara, 57 anos, funcionária pública aposentada

O meu diagnóstico veio exatamente sete meses depois da minha irmã. Quando ela estava em tratamento, surgiu o meu diagnóstico. É um banho de água fria e o chão some, mas dá para suportar.
Eu tinha 43 anos e eu tive que buscar forças na minha religião e ocupando a cabeça, fazendo o que precisa ser feito: tratamento com nutricionista, fisioterapeuta, tudo que eu tinha a disposição, eu usei. Quando eu descobri o tratamento eu já fui pro instituto, porque minha irmã já ia. Então, de imediato eu fui e a gente se ocupa e aprende a lidar com tudo, com o tratamento, com o câncer e com a socialização. Eu queria viver, era a certeza que eu tinha.

Chegou a pensar em morte?

Olha, eventualmente passa na cabeça. Minha mãe morreu sem fazer tratamento, porque ela se recusou. Então, eu tinha um exemplo negativo já. Depois tive o exemplo da minha irmã e tive que seguir o exemplo bom, né? Fiz tudo direito, o tratamento, a quimioterapia, até fiquei careca, mas eu queria era viver.

Qual foi o momento mais difícil?

Eu tenho uma fama de ser durona, e eu sou mesmo. Para me derrubar, é difícil. Porque eu sou do tipo que primeiro enfrenta e depois desaba. Na hora, eu falei o que estava acontecendo e eu que era cuidadora falei que ia precisar de cuidados. Ser durona é uma qualidade, porque em determinado momento que as pessoas não conseguem tomar decisões ou fazer algo, eu vou lá e tomo, eu vou lá e faço. Sou ariana, né? (Risos)

Deu para extrair algo de positivo dessa experiência toda?

É, quando você tem a morte muito iminente, você muda e fala: “Não, espera aí. O que eu estava fazendo que me fez chegar até aqui?”. Então, o que eu fiz não deu certo e tinha que mudar para não dar errado novamente.
Eu tinha uma sobrinha que era menina e depois de uns anos ela falou assim: “Nossa, tia você está tão diferente. Você era muito chata”. E eu era mesmo. Ainda sou, mas já mudei bastante, porque eu era muito exigente. E quando vem de uma criança, a gente sabe que é sincero. Eu acho que dei uma amolecida, a gente dá uma relaxada, né? Eu aprendi que eu prefiro ser feliz do que ter razão.


Maria Cecilia Fonseca Moraes, 55 anos, maquiadora aposentada

Descobrir o câncer foi uma surpresa, como eu acho que é para todas, né? Acho que a gente nunca espera e foi realmente uma surpresa, porque eu estava em uma fase bem legal, tinha feito 50 anos e estava me sentindo super bem. Não imaginava que viria essa surpresa, porque foi um câncer bem difícil: mastectomia total, tratamento bem chatinho, quimioterapia, radioterapia e depois com medicações, exames, tudo bem chatinho. Mas passou!

Onde você buscou forças?

Fé! A gente tem que ter fé e paciência, porque é algo demorado e que não depende da gente. A gente enfrenta todo um desconhecido. Você nem imagina o que vai passar e não é fácil, mas passa. As pessoas vinham me visitar e falavam que iam passar e parecia que não. Mas é uma fase ruim que passa. Então, a gente aprende a ter muita fé, muita paciência e muita coragem para enfrentar um monte de coisas que surgem pelo caminho, porque o tratamento é longo e difícil. Eu também tive bastante apoio de família, amigos e do Instituto NEO MAMA, que é uma segunda casa, onde a gente encontra pessoas que passaram pelo mesmo problema, então é sempre bom estar por lá.

Deu para extrair algo de positivo disso tudo?

Que a vida continua! A gente quando recebe o diagnóstico de câncer recebe junto um atestado de óbito e todo mundo olha para você e fala: “Meu Deus! Vai morrer!”, e o bom é que passa e que tem vida após o câncer, não a mesma vida, é como outra vida, como se tivesse morrido e nascido de novo.

E isso é bom?

Em alguns aspectos, sim. Mas, na maioria, não. No meu caso, eu tinha uma vida completamente diferente. Eu era uma mulher que ia para a academia diariamente, com o corpo que eu queria, o cabelo que eu queria, fazia tudo do jeito que eu queria, e de repente você fica careca, inchada, gorda, eu engordei dez quilos, e você fica com algumas sequelas, né? Tua memória não é a mesma, seu caminhar, você tem dificuldades e dor, um monte de coisas que você não tinha. Minha vida realmente mudou completamente. Mas o lado bom é isso, a gente conhece outras pessoas. Através do instituto, já conheci muita gente, virei modelo, a gente vive tirando foto, dando entrevista, sempre juntas e conhecendo outras histórias. Mas a vida é outra e completamente diferente.

Você consegue se definir em uma palavra depois de tudo que aconteceu?

Eu acho que foi muita fé. Muita fé, paciência e coragem realmente. Sem isso, não daria. Eu acho que é por isso que muita gente desiste no meio do caminho, porque é realmente muito difícil.


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