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Fabiano Santos, artista por vocação

Por Lucas Leite

Artista por vocação. Esta, talvez, seja a melhor definição para descrever Fabiano Santos, que divide seu tempo entre lecionar aulas de teatro, atuar e escrever livros infantis, tendo, inclusive, lançado sua primeira obra neste mês de outubro: “Joãozinho e a Estrela-Guia”.

Aos 36 anos, Fabiano se dedicou por muito tempo apenas ao teatro, mas em 2014 sentiu que precisava de novos desafios na sua carreira. Foi quando recebeu o convite de um amigo para gravar o filme “O Início do Fim”.

Com o sucesso do filme, que chegou a ser premiado no exterior, Fabiano viu novas oportunidades surgirem e até mesmo a sua imagem mudar. Se sentiu como uma referência para os mais novos, que se espalharam nele para demonstrar maior interesse pelo teatro.

Em um bacana bate-papo com a equipe da Revista Mais Santos, Fabiano Santos contou um pouco sobre a sua trajetória no mundo artístico e falou sobre planos para o futuro e os principais desafios para conciliar a vida de professor, ator e escritor.

Confira abaixo a entrevista completa com Fabiano Santos:

Onde você nasceu?

Nasci aqui em Santos, mesmo, no dia 26 de janeiro de 1982 e sou de signo de aquário.

Sempre morou em Santos?

Eu gosto muito da cidade de Santos, sempre prezei por estar em Santos, mas eu passei uma boa parte da minha vida, quase 15 anos só em São Paulo. Então eu fiquei bastante tempo lá, onde eu fui cedo, comecei com 18 anos a ir para lá, fazendo testes na Escola de Arte Dramática e testes para comerciais, peças de teatro, novelas, filmes e, de repente, eu comecei a engrenar mais em São Paulo quando eu entrei par ao Teatro-Escola Macunaíma, mas antes de eu chegar a São Paulo, eu tive uma passagem muito grande em Santos que começou com a minha mãe, que me incentivou a fazer teatro desde cedo. Eu comecei como criança, ela fazia figurinos e, ao mesmo tempo, era professora, não de teatro, de ensino básico, catequese, e meu pai era engenheiro da Ultrafértil e depois foi para a Petrobras, então a gente teve uma estrutura muito proveitosa para poder avançar no que desejava, então essa parte de teatro minha mãe achava que a gente tinha que desenvolver bem a parte de comunicação, de arte. Ela achava que eu tinha que seguir essa parte.

Eu tenho mais outros dois irmãos, um jornalista e outro engenheiro, e eu acabei dando certo nessa parte, enfim engrenei.

Como professor, o que você pensa sobre a educação na região?

Nós temos aqui um panorama muito grande de educação, muitas instituições de ensino, todas elas atendendo desde crianças até a formação superior. Então é uma área voltada, a cidade é voltada para essa parte educacional, cultural e isso dá uma amplitude muito grande.  Não existe assim programa voltado para área de educação, formação, para uma preocupação com o aprendizado, conhecimento, com a evolução da criança até se formar uma grande pessoa. E isso eu já venho reparando da época que eu estava no teatro, que Santos é um celeiro de muitos artistas, e eu tive, graças a Deus, a oportunidade de ter integrado a Federação Santista de Teatro Amador formado por Patrícia Galvão. Ela produziu duas vezes o festival santista de teatro, de 2003 e 2004, e o contato que eu vi de personalidades era tão relevante quanto o que a cidade propõe de relação. Então era um berço de cultura e de educação que vem desde lá debaixo. Formou políticos, formou artistas educadores e muitos vereadores que são educadores

Como foi a sua formação como leitor? Quais obras e autores te marcaram?

Meus pais sempre incentivaram muito a leitura, meu pai era um devorador de livros, tinha livros por todo canto da casa, saía com a gente para ir na livraria, principalmente de manhã, ou domingo, então acabamos tendo a sede por leitura. Começamos a ler cedo e era aquela coisa de se fechar no quarto, decifrando o que o livro queria dizer, o que as palavras queriam dizer. Não tinha essa onda da internet, então era onde se tinha mais liberdade de buscar essas descobertas através dos livros. Agora um autor que eu gostei muito de ler e que me marcou, um livro que me marcou foi ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha, e ‘O Guarani’, de José de Alencar, Lima Barreto e Jorge Amado.

Porque decidiu escrever o livro?

Joãozinho e a Estrela-Guia surgiu em uma proposta de um concurso de dramaturgia do Rio de Janeiro em 2011, que era sobre o tema quebra de tabu. Eu não sou autor, mas, na época, acompanhando os programas que haviam para o teatro de formação, educação para o jovem adolescente, propôs esse tema e eu resolvi tentar arriscar, e eu escrevi uma peça de teatro para receber orientação, ver o que precisava remanejar, onde precisava encaixar, para conhecer e aprender. E é só na pratica que se tem aprendizado. O que aconteceu foi, eu fiz o texto, depois recebi as orientações no Rio, só que não premiaram nenhum texto naquela época. Passou um ano e eu resolvi montar esse texto, com os atores do grupo Porão, que é um grupo que eu fundei, a gente levantou a peça de teatro infantil e começou a levar a peça pra crianças, jovens, adolescentes, em Santos, São Paulo, e de repente a peça deu uma estacionada, paramos e o texto ficou guardado. Ai nesse tempo comecei o meu contato com crianças, pelo desempenho deles em aulas de teatro, vendo essa evolução bucólica da tecnologia, eu comecei a trazer esse texto para eles terem um experimento, para poder descobrir até onde vai a capacidade de sonhar deles, se conseguem se desvirtuar um pouco dessa parte de tecnologia, buscar mais eles dentro da vida deles, né? E eles se sentiam empolgados, eu dava cenas para eles fazerem.

Então eu decidi uma hora: “Está na hora de você pegar isso aqui e deixar alguma coisa para as crianças, para jovens adolescentes. Procura fazer um livro, divide ele em prosas e dramaturgia”, então eu preservei a dramaturgia dele e fiz a prosa dele, fiz seis capítulos e a peça corria normalmente ali.

Acho que talvez o que possa ter impulsionado ali, foi a morte do meu cachorro, no início de abril, uma morte que me abalou muito, e me deixou muito abatido. Então eu decidi fazer esse livro em homenagem a ele. E as coisas começaram a acontecer, eu não tinha verba e consegui organizar seis apoios culturais, para levantar o livro, e foi onde eu comecei a ver a coisa andando. Eu poderia desenhar as ilustrações, mas eu precisaria de mais alianças, parcerias, alguém de definisse mais os traços, ia me custar muito mais, precisava de alguém que se dedicasse muito mais aquilo ali, e isso apareceu no caminho também.

Eu fui chamando amigos para dar comentários dentro do livro e estes comentários foram surgindo dentro da edição e eles foram sugerindo coisas e o livro foi ficando fantasioso, porque tem perguntas sobre sonhos no final do livro, tem desenhos para eles ilustrarem, tem máscaras para recortarem, brincarem e que se referem a três sonhos que o livro propõe. Que é o sonho de ser jogador de futebol, o sonho de ser ator de teatro e o de viajar para a lua. Então, eles têm uma diversão ampla e o livro acabou sendo assim como eu queria.

Eu acho que o livro tem que ter um atrativo para eles, não poderia ficar engessado naquele modelo sólido. Teria que ter diversão, mídia, áudio. Às vezes, a criança cansa só de ficar lendo a história. Então você pode pôr um DVD para ele assistir à história ou o CD para escutar a história. Eu pensei nisso, apesar de não conseguir fazer nesta edição. Mas eu queria fazer um livro com um atrativo cultural, que preenchesse mesmo, diferenciado.

Como você faz a divisão entre ser professor de teatro, ator e escritor?

É duro e me exige muito, até porque, querendo ou não, você tem a popularidade, né? Porque para eles (alunos) você chega e já com um certo ar de referência para eles. Se torna alguma coisa respeitada para eles e, ao mesmo tempo, tem a imagem de “um dia querer ser. Eu mesmo, quando era criança, tinha essa referência no professor e falava: “Um dia eu quero ser”.

Dar aula de teatro foi um prazer mesmo, porque eu sempre assumi que queria ser professor de teatro, mas eu gosto de cinema, televisão, gosto de atuar e é um momento que eu tenho que separar bem. Agora, eu estou formando, agora eu estou preparando, é como se tivesse cuidando de um filho, né? Então, tenho prazer de trazer o ambiente de teatro para eles, e esse ambiente não tem como fugir, vai ter sempre frio na barriga, ansiedade, contato com maquiagem, figurino, texto, sabe? É um desespero para o ator antes de entrar em cena e quando sai de cena e acha que deu tudo errado, vai acontecer com eles e acontece. Esse fio de ligação é muito recíproco.

Por outro lado, você está vendo agora como é que é. Você se coloca na posição do diretor e do ator.

Eu consigo enxergar essa distância, que me ajudou muito como ator. Como me preparar, enxergar melhor para eu saber como é fazer e como é assistir.

Quanto à televisão e cinema eu comecei a ter uma amplitude maior de trabalhos a partir do final de 2014. Eu estava com 18 anos só de teatro e eu precisava conhecer outras coisas de métodos de atuação e foi onde eu recebi um convite de um amigo meu, na praia, para o filme “O Início do Fim”. E o filme teve um respaldo muito grande: foi para festivais, foi premiado no exterior, chegou a passar na Globo/TV Tribuna, foi para a mostra de curta-metragens. O filme teve uma amplitude que permitiu que as coisas começassem a se abrir mais e a minha imagem para o público, para a criança, para o adolescente, começou a se tornar mais interessante porque eles começaram a ter esse interesse de querer fazer o teatro. Talvez eu tenha me tornado uma referência, uma pessoa importante na vida deles, na formação e uma coisa acabou incrementando a outra, sem querer.

Quais são seus planos para o futuro?

O livro para mim foi um grande desafio, porque eu levei seis meses para aprontar. Afinal, eu não sou aquele tipo de pessoa que senta e escreve rápido. Eu penso se a palavra que estou colocando está adequada ou não, depois eu mando para todo mundo ver e tem que ter essa paciência comigo, eu não sou um escritor propriamente com domínio da poesia e da palavra. Mas por outro lado, achei o desafio bastante interessante e instigador. Foi uma coisa onde pude ver como é a produção de um livro, como é escrever, estar desse lado da área de escrever.

Os meus planos como ator estão em bom andamento. Neste segundo semestre eu estou gravando três séries, que são; “Gol de Placa”, “Revindita” e “Reduto Clandestino”, tudo simultâneo. E de quebra ainda tem um filme que eu estou gravando, que é o “Novo Horizonte”. Então, tudo vai caminhando junto e justamente durante o processo do livro que as coisas começaram a vir, então eu não tive saída, sabe? Fiquei sem caminhos para poder descansar, refletir. Estou desde setembro só trabalho e com outras propostas que podem ainda se firmar.


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