COLUNASCRÔNICAS 

 Nos jardins da praia de Santos é fácil distinguir quem é turista e quem nasceu aqui ou mora a um bom tempo.

Os turistas tem uma alegria até meio boba, uma felicidade estampada. Dá pra entender, é um lugar primoroso, uma paisagem belíssima. E o sol se põe no mar! Uma moldura perfeita. Os santistas vão fechados, quase não percebem a paisagem, passam alheios ao quadro em volta. Tem a cabeça nas suas tarefas, no tanto que a vida urbana pede. Não os culpo, é difícil curtir a paisagem carregando as obrigações da vida moderna.

Fico pensando se o santista, mesmo quando pode, ainda enxerga o que tem em volta. Há quem afirme que não. Que não vemos mais o que nos cerca. Acho que é assim em todo lugar. A gente deixa de perceber o que está mais próximo de nós, o que é mais frequente..

O que dizem sobre isso os especialistas, estudiosos ou acadêmicos, não sei dizer. Suas opiniões e análises estão ali, disponíveis, ao alcance de uma pesquisa no Google e convido os leitores a buscar e compartilharem conosco se quiserem. Será um prazer participar da conversa. Enquanto isso, para não fugir ao inusitado, compartilho o que não se encontra on line e talvez em nenhum outro lugar. O que ouvi sobre isso num banco da praça numa tarde de sol.

Fernando vive pelas ruas em torno do terminal de pesca do ferry boat. Tem um aspecto sujo, maltratado, conduz um carrinho pelas ruas catando o que encontra. Mas Fernando jura que não foi sempre assim. Diz que nasceu garça. Isso mesmo, uma garça, daquelas brancas que ainda se vê ao redor das bancas de peixe. E que era bom de pesca, insuperável na arte de mergulhar e pegar um peixe no bico. Com riqueza de detalhes, conta de seus mergulhos, que duravam tanto que as outras garças pensavam que tinha se afogado. Emocionado, descreve o entusiasmo de sua ruidosa plateia quando voltava à tona triunfante com a vítima no bico.

Baixando a voz para que as garças por perto não ouçam, confidenciou-me que ficava muito tempo debaixo da água não por vaidade, como elas pensavam. Era um jeito que encontrou de matar sua curiosidade pelo mundo submerso, inacessível a maioria das garças, mas que ele tanto queria conhecer.  Contou-me que vivia imaginando o que deveria existir sob as águas e que, de tanto pensar nisso, passou a desprezar aquela vida tão monótona de só voar e pescar. Parou então de pescar, e não voou mais também. Ficava nas pedras dias e dias, apenas curtindo o balanço das ondas e a misteriosa profundeza do mar.

Então aconteceu o que mudou a sua vida. Numa tarde, o brilho do sol era tão bonito que teve vontade ver como seria seu reflexo sob as águas. Mergulhou com vontade. Foi mais fundo do que devia, passou do tempo que agüentava. Perdeu o fôlego e desfaleceu. Mas despertou logo depois, ainda sob a água, envolvido pelo mais belo espécime de peixe que já havia visto. Pouco maior do que ele, dourada, com grandes olhos. Ela soprava bolhas de ar de suas guelras direto no seu bico, enchendo-lhe do ar que precisava.  Fernando acordou e meio por instinto subiu rápido à superfície. Mas ficou intrigado. Assim que pode, retornou a cabeça na água buscando ver quem o tinha salvado. Não havia nada, apenas o azul profundo. Quem era? Teria sonhado? Passou a pensar nisso dia e noite. Perdeu o ânimo para voar e para comer. Sem alimento, definhou e perdeu as forças. Estava pra morrer. Suas amigas garças traziam peixes, punham em seu bico, mas ele cuspia.

– Eu queria viver – disse agarrando minha camisa – mas só pensava nela!

Então um dia, para alegria do bando de garças, resolveu mergulhar de novo. Desafiou seus colegas voadores. E subiu alto, o mais alto que pode. Forçou suas asas em alturas que jamais havia alcançado. Ninguém o seguiu, porque ninguém conseguiu. Ultrapassou a altura que mesmo as águias não chegam. Conseguiu ver a curvatura da terra e acima o infinito. Quando sentiu faltar o ar, fechou as asas, comprimiu-as ao máximo e deixou-se cair, num mergulho reto e imediato em direção ao mar.

Enquanto mergulhava, lutando com a dor de suas penas queimando, me disse tremendo, só pensava naquela peixa.

Penetrou fulminante no espesso chão do mar, e continuou afundando por muitos e muitos metros. Foi mais fundo do que jamais havia estado qualquer garça. Sentiu a luz sumir aos poucos. Não sabendo se porque estava morrendo ou se apenas havia chegado onde o sol não chega.  Quando entendeu, já não era garça, mas um peixe. Um peixe desengonçado, algo torto como podia ser uma garça que vira peixe e, como peixe, respirava debaixo dágua.

Nessa altura eu já estava tonto. E me dividia entre a vontade de voltar logo à minha vida corriqueira e a extrema curiosidade em saber o final dessa história.

Fernando deve ter percebido minha inquietação pois foi generoso. Foi direto ao ponto, resumiu a história a seu momento crucial.  Contou-me que depois de um bom tempo convivendo no ambiente aquático acabou travando amizade com a peixa. Que chamava-se Marcela, era realmente linda e sorria de um jeito que o deixava em êxtase. Estava realmente “apeixonado” por ela. E que acreditava que ela, se no começo foi mais relutante, depois apaixonou-se também. Ele disse, sem muita certeza. Mas que ao final aquele amor não deu muito certo mesmo.

Fiquei curioso. Como, depois de tudo pelo que passou, um amor assim não foi possível?

Abaixando a cabeça, disse que a culpa foi dele, de sua  imaturidade, sua falta de jeito. Então contou dos últimos momentos que passaram juntos.

Aconteceu num ponto de encontro submerso. Estavam curtindo o fim de tarde juntos e Marcela ria muito das coisas que Fernando dizia. Então ele perguntou:

 – Por que ris tanto, minha linda?

– Voce é muito engraçado, Fernando. Eu não agüento! De onde você tira essa alegria?

– Vou te contar um segredo, meu amor. A água me faz cócegas.

– Ah, não entendi.

– A água, a água me faz cócegas, dá arrepio na espinha.

– Não entendi, Fernando.

– Água, isso em volta da gente.

  Ela olhou em volta e não via nada. A conversa foi perdendo a graça. Ele, cabeça dura, insistiu, fazendo largos gestos com as nadadeiras:

– Veja, a água. Isso que estou empurrando.

Ela, para não perder o clima alegre, disparou rindo:

– Você anda tomando drogas, Fernando?

Ele ficou um pouco irritado e teve uma idéia:

– Vem comigo, Marcela!

– Ah, Fernando, onde você vai me levar, hein? Danadinho! Respondeu ela, com a cabeça em outras possibilidades.

Mas Fernando, cabeça dura, como já havia dito, tinha outro plano. Levou-a para cima, até a superfície. Subiu numa pedra e puxou-a consigo à superfície. E para comprovar o que dizia sobre a água, empolgado com as palavras, gesticulando como um professor universitário, discursou sobre a fenomenologia da existência e da não-existência da água.

Quando então percebeu que, ao seu lado, Marcela morria. Sem o ar que precisava, arfava desesperada. Entendendo a loucura que havia feito, rapidamente puxou Marcela e a jogou no mar que escapou ligeira ao fundo. Mas antes de sumir, voltou-se ainda e o mirou com um pavor tamanho nos olhos que congelou Fernando. E ele ficou ali, estático e tão absorto da experiência que deixou de ser peixe, deixou de ser garça e tornou-se homem, que é o ser que mais tolices faz enquanto vive.

Com um olhar de peixe e uns braços de garça, fulminou a conversa:

– É isso meu irmão, pro peixe, a água não existe.

 

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