COLUNASCRÔNICAS 

Por Luiz Peres
peresluiz@yahoo.com.br
 
Pedro corria. É toda sua biografia. Ele corria na orla de Santos. E não pergunte em que trecho. Pedro corria-a toda. Passava no ferry boat, seguia cada canal, ultrapassava o emissário, tornava à direita em São Vicente contornando toda a praia do Gonzaguinha e na entrada da ponte pênsil retornava, refazendo todo o percurso. Sempre o mesmo caminho, o mesmo trajeto.
 
Para a maioria de nós é um percurso de improvável sucesso. Para atletas amadores esforçados é uma distância razoável mas não impossível. Para maratonistas, um lanchinho da tarde em seu treinamento. Alguns terão feito esse percurso na juventude e narrem com orgulho a façanha. Outros talvez nem recordem que o fizeram, não foi importante.
 
Mas para todos que conheceram Pedro qualquer comparação será absurda. Ninguém correu como Pedro. Porque Pedro não sofreu uma desilusão na juventude, não casou, não suou num ônibus apertado para alimentar os seus filhos, não foi despedido, não gastou uma fortuna numa festa memorável, não foi traído, não decepcionou os pais, não deu orgulhou a seu filho, não viu partir um amor nem outro chegar. Pedro correu. Não correu para manter a forma ou por algumas horas ao dia, para uma competição ou para relaxar, por uma causa ou para dar um tempo em sua vida. Pedro correu toda a sua vida. Correu todos os dias e todas as noites. Sete dias da semana, correu por anos. Por todos os seus anos Pedro correu.
 
Não se sabe quando começou a correr. Os mais fantasiosos acreditam que nasceu correndo. Outros que algum fato espetacular o levou a correr. Quando soubemos de Pedro ele já era adulto. Corria dia e noite seu infinito trajeto e ninguém o percebia. Era mais um entre tantos que correm nas belas calçadas do jardim da praia, um cenário feito para correr. Até ser notado Pedro era parte da paisagem.
 
Quem primeiro percebeu foi uma enfermeira de férias. Tomando sol no posto cinco, mandou uma selfie para as amigas. E ele estava lá, ao fundo na foto. Suas amigas, da praia do Gonzaguinha em São Vicente, postaram também suas selfies. E coincidentemente ele também aparecia. O mesmo homem ao fundo correndo. Acharam graça a coincidência. O mesmo porte esguio, a postura solta, o boné negro, a camiseta branca, a bermuda clara, a mesma pessoa flagrada em fotos diferentes tiradas num intervalo de poucos minutos. Comentaram em rede, pelo celular. Outra amiga descobriu que já o tinha fotografado também ao fundo e também compartilhou. A brincadeira viralizou. Colegas do tempo da escola o encontraram em suas fotos tiradas na praia. Surgiu atrás de um beijo dos noivos, de uma criança sobre a estátua do leão, suando ao fundo na foto da queima de fogos no fim de ano, na panorâmica do jardim para o trabalho da faculdade, no folheto da secretaria de turismo, na foto adolescente de um enorme traseiro num minúsculo biquini. Lá estava Pedro em todas. E em outras fotos foi encontrado. Centenas apareceram, aumentando a curiosidade e a polêmica. Quem era ele? Como poderia estar em tantas fotos? Ele existe? Seria truque? Um mito urbano? Alucinação? Fantasma? Compararam as fotos, analisaram os detalhes e não houve mais dúvida, era o mesmo homem. Logo a curiosidade foi às ruas. Grupos esperavam nas calçadas por sua passagem. E lá vinha ele. Correndo, sempre correndo, compassado, passos medidos, alheio à toda polêmica. Na primeira passagem apenas observaram, curiosos daquele ser que corria. Seria ele o mesmo das fotos? Passou mais uma, duas, três vezes. Alguém cronometrou: quarenta e sete minutos de percurso. Os que aguentaram esperar mais uma volta confirmaram, era ele. E quando passou mais uma vez ousaram chamá-lo. Mas ninguém sabia seu nome. Corredor! Queremos falar com você! Ele não respondia. Nada. Não parava. Desviava ligeiro dos mais ousados que lhe barravam a passagem. Alguém tentou segui-lo e fazer contato. Pode dizer-lhe uma ou outra palavra antes de perder o fôlego e parar. O ritmo de Pedro era forte e contínuo. Se ele ouviu, não respondeu. No terceiro dia de vigília da pequena multidão um ambulante o achou parecido com um primo de Sergipe e arriscou gritar: Pedro! E miraculosamente o corredor levantou a mão num aceno. E ficou sendo Pedro.
 
A cidade se mobilizou para entender o enigma de Pedro. Alunos da faculdade de educação física fizeram cálculos. Seu tempo não era excepcional, mas poderia render medalhas. Comentaristas esportivos argumentaram que a comparação não cabia pois não havia índice para corridas sem fim. Os mais ricos temeram ser um terrorista. Os moralistas que fosse um libertário. Os donos da igreja que o tomassem pelo messias. Pediram sua prisão. O delegado negou, não havia crime, mas ficaria de olho. O chefe da guarda municipal não pode interditá-lo. Ele não feria normas municipais, não atentava o patrimônio público. Mas dispersaram os vigilantes de Pedro alegando que ajuntamentos favorecem manifestações artísticas, que tanto assustam políticos obscuros.
 
Mas Pedro já era um ídolo e o prefeito viu a oportunidade. Convocou o secretariado e exigiu aparecer com ele em um evento esportivo. Contrataram corredores para acompanhar Pedro e lhe estenderem um requintado convite impresso na gráfica municipal. Ele pegou, para alívio dos assessores. Mas sequer leu, abandonou na primeira lixeira no caminho. Pedro era um corredor consciente. Sabia o lugar do lixo.
 
O tempo passou e novos políticos com velhas posturas encomendaram uma estátua de Pedro. Os mais sábios acharam inapropriado uma estátua para homenagear quem não ficava parado, mas como ninguém ouve os sábios, discutiram muito onde colocar. Cada comerciante queria em frente ao seu estabelecimento. Decidiram por um rodízio, cada ano em um local. Mas como perderam a eleição para o candidato com mais amigos em Brasília, a estátua foi esquecida. Dizem que enfeita algum terraço gourmet.
 
Sem ter nada com isso a cidade foi se acostumando a apenas ver Pedro passar. E Pedro continuou a compor a paisagem. Sempre correndo, firme, compassado e decidido. Às vezes respondia um aceno, fazendo sorrir algum sortudo, alegrando um dia que ameaçava franzir.
 
Pedro tornou-se uma figura popular, que as pessoas amam sem saber. Virou expressão: “isso é certo como Pedro passar”. E só entende quem é do lugar. Quem tem orgulho de viver na cidade do eterno corredor.
 
Mas um dia Pedro não passou. Se parou, morreu, se foi correr em outro lugar ou mudou seu trajeto ninguém soube. A história de Pedro passou. Mas Pedro talvez ainda passe na volta. Vale a pena esperar.
 

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