1.9 // COMPORTAMENTO 

Por Alexandre Piqui

Pouco antes de ser localizado morto, no domingo (30), João Luiz Pires Candido, policial militar lotado no 26° Batalhão da Polícia Militar de Teresópolis no Rio de Janeiro gravou um vídeo.

“Desculpa de coração fazer isso. Eu sei que não é a meta da polícia. A polícia não é isso! Não façam mais isso! Eu ‘tô’ fazendo porque eu “tô” cansado! Eu “tô” muito cansado! Eu não aguento mais, eu não aguento mais! É muita coisa! Eu vivo um momento muito difícil. Eu não aguento mais! Eu preciso me libertar dessa vida aqui. Não estou preocupado com nada, com nada! Não me interessa! Quero só a melhora da nossa tropa”.

No final da mensagem fala sobre a promessa do comando em relação à mudança na escala de trabalho e depois se despede.

“Porque vocês merecem! Eu já vou estar ‘ad aeternum’, então não vai mudar nada. Mas estamos juntos, um forte abraço!”

Cabo Pires foi encontrado, com a marca de um único tiro disparado por arma de fogo, na Serra Rio-Teresópolis.

O caso dele revela uma guerra silenciosa travada pela Polícia Militar; a depressão e o suicídio dentro da corporação. De acordo com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação na Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, entre janeiro de 2014 e junho de 2018 três PMs foram diagnosticados, por dia, com transtornos mentais. Entre janeiro e agosto de 2018, 2.500 policiais militares foram afastados por transtornos mentais, mais que o dobro dos afastados em comparação a outros estados brasileiros.

Um drama encarado em quartéis de todo o país. No Brasil são, pelo menos, 425 mil policiais militares. São Paulo é o estado com o maior efetivo, são 93.799 agentes.

Luiz Fernando Dias de Oliveira é psicólogo e atende policiais assistidos pela Ong AFAPM

Para o psicólogo Luiz Fernando Dias de Oliveira, que atende policiais assistidos pela Ong AFAPM – Apoio a Família Policial Militar, os índice altos de estresse e depressão estão diretamente ligados ao indivíduo  lidar com a pressão da violência cotidiana. “O  prolongamento em um cotidiano de intimidação, medo, angústia e desesperança são as maiores queixas de depressão”, revela.

Segundo pesquisa do Fórum de Segurança Pública, 51% dos policiais militares já tiveram problemas para garantir o sustento de suas famílias. Para complicar, 39,4% dos PMs tem familiares que sofreram algum tipo de violência ou ameaça por serem parentes de um policial; 31,8% sofreram algum tipo de violência ou ameaça como forma de retaliação pela atuação do parente.

Por isso, o psicólogo acredita que até dentro do ambiente familiar é difícil do policial buscar apoio. “É bastante delicada a questão, pois na maioria das vezes a família também é vítima das circunstâncias, ou seja, o medo pelo risco de morte que correm. Esse medo constante também atinge a família dos policiais, gerando problemas que surgem como consequência do estresse da profissão e do baixo valor dos salários”, acrescenta.

Toda essa tensão pode gerar comportamento violento dentro de casa em consequência da tensão profissional ou isolamento, que também é comum, comenta o profissional. “Muitos passam a desenvolver alcoolismo e uso de drogas ilícitas, dependência de remédios, como antidepressivos que acabam em tentativas de suicídio”, alerta.

De acordo com dados do Centro de Comunicação Social da Polícia Militar do Estado de São Paulo, de 2015 a 2018; 82 policiais tiraram a própria vida. Dificilmente quem passa pelo problema fala sobre ele. Um policial militar que não quis se identificar disse ter perdido um amigo para a depressão. “Ele trabalhava junto comigo e relatava que tinha dificuldades financeiras. Isso acarretou em problemas familiares. Um dia antes de trabalhar, ele teve uma discussão com a esposa e se matou com um tiro no peito”, conta este PM que hoje está aposentado.

Renata Marcondes, presidente da Ong AFAPM

“Ele está muito próximo do instrumento que leva alguém ao suicídio. O policial está constantemente com uma arma na cintura. Daí não precisa de tempo para pensar. Ele puxa o gatilho e acabou”, acresenta Renata Marcondes, presidente da Ong AFAPM que dá apoio à família dos PMs.

Ela alega que recebe muitos casos de policiais em depressão ou com indícios da doença. “Todos esses casos nós mandamos para os psicólogos contratados pela Ong. Muitos familiares de policiais também são atendidos e a demanda tem sido muito grande também”, alerta.

A instituição Polícia Militar do Estado de São Paulo realiza um trabalho junto aos profissionais que passam por um grande estresse. É o Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar (PAAPM). O problema é que muitos não procuram essa ajuda. Para o psicólogo da Ong AFAPM é uma questão mais cultural do que institucional. “Isso é importante esclarecer, pois o Comando da Polícia Militar demonstra grande preocupação com o estado psicológico dos indivíduos da corporação. Isso é comprovado com o CAPS (Centro de Assistência Psicossocial) que assiste o policial em todos os níveis do processo psicoterapêutico juntamente com HPM (Hospital da Polícia Militar) na área psiquiátrica”, explica Luiz Fernando.

“Devido a uma questão cultural e preconceituosa, que chamo de complexo de super-homem, muitos casos não são notificados e muitos não buscam o tratamento psicológico e psiquiátrico por que acham que vão sofrer chacota no ambiente de trabalho. Acham que serão chamados de covardes e fracos; os comandantes podem crer que eles estão enrolando para matar serviço, por exemplo. É um ambiente cultural bem machista e de virilidade, em que não podemos assumir fraquezas. E nessas crenças que os problemas vão surgindo e se agravando. Foi pensando nisso que o CAPS vem trabalhando em Psicoeducação através de palestras e orientações sobre o tema”, esclarece.

De acordo com dados do Centro de Comunicação Social da Polícia Militar do Estado de São Paulo, de 2015 a 2018; 82 policiais tiraram a própria vida.

A depressão já afeta 322 milhões de pessoas no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) referente ao ano de 2015. Em 10 anos, este número se elevou em 18,4%. No Brasil, 5,8% da população sofre desta doença, que afeta um total de 11,5 milhões de brasileiros. A OMS destaca ainda que o Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo maior nas Américas.

“Um dos pontos interessante é que o Brasil é recordista mundial em de transtornos de ansiedade: 9,3% da população (cerca de 18,6 milhões) tem esta dificuldade. Isso se dá pelo simples fato de que vivemos em estado de insegurança e incertezas, seja ela social ou econômica. E algumas classes de trabalhadores, como o Policial Militar, vivem altos níveis diários de tensão”, conclui o especialista.

Como trabalhar a mente para não entrar em depressão?

Para o psicólogo Luiz Fernando, fazer o reconhecimento das emoções é importante para viver em harmonia; revendo ideias e valores para uma melhor qualidade de vida. Ele dá algumas dicas:

Alimentação saudável – é fundamental ter uma alimentação equilibrada que dê ao organismo todos os nutrientes de que ele necessita para funcionar adequadamente.

Sono reparador – é importante dormir o tempo suficiente e em horários regulares. Evite atividades estimulantes, como esportes, discussões e televisão uma hora antes de dormir. Dê preferência as ações tranquilizantes, como ouvir uma música suave e relaxar o corpo.

Tire Férias – a mente também precisa de suas pausas para seu bom funcionamento. Ausentar-se do trabalho em férias ou mesmo conseguir desligar-se dele é pré-condição para uma boa qualidade de vida.

Tome sol – exposição à luz solar do início da manhã ou final da tarde por 20 minutos é um antiestresse natural. Além disso, promove elevação de melatonina, substância responsável pelo ciclo do sono e pelo bom humor.

Procure ter mais contato com a natureza – isso promove relaxamento. Visite praças, paisagens, rios, mar e lagoa, por exemplo. Tome um banho de mar ou vá à piscina. A água é um fator contra o estresse e tem efeito relaxante. Ambientes fechados e atividades contínuas dentro de casa como ver televisão, computador, videogames e sons altos são estressantes e viciam.

Banho quente à noite – isso provoca vasodilatação, ajudando a relaxar e facilitar a conciliação do sono.

Mantenha uma rotina diária – alternando atividades obrigatórias e necessárias com pequenas ações prazerosas como conversar com uma pessoa querida e ouvir uma música que aprecia.

Vida social e familiar – é importante interagir com as pessoas que se importam com você. Saia regularmente com um grupo de amigos e visite parentes queridos, pois isso colabora para aliviar tensões.

Sorria – é cientificamente comprovado que o riso combate os sintomas do estresse.

Não se culpe – lembre-se de que sua intenção sempre é positiva, que você sempre quer acertar e que os erros fazem parte da vida. Procure aprender com eles para poder acertar da próxima vez.

Pratique esporte ou tenha algum hobby – atividade física regular melhora o condicionamento físico e melhora o estado de humor.

Fora tudo isso, a presidente da Ong Renata Marcondes acrescenta um ponto fundamental. “É necessária a valorização do policial militar. Ela precisa ser feita na prática, na parte financeira. É ele que trabalha diretamente com a população, coloca a própria vida em risco para salvar a nossa. Não dá pra ele ter dois, três, quatro empregos. Ele precisa ter um emprego. Então, um dos fatores que eu creio ser necessário para se mudar é a qualidade no salário do policial”, conclui.

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