COLUNASCRÔNICAS 

O psicólogo Carl Jung escreveu que temos uma memória coletiva inconsciente. Possíveis lembranças de nossos ancestrais que nos habitam o inconsciente. Verdade ou não, convido o leitor a recordar o que aconteceu naquela noite, séculos e séculos atrás. Voce lembra?
 
Estávamos tristes em volta de uma fogueira, em uma caverna. Jogados ao chão, cabeças baixas, alguns ainda sangrando. Eu encarava o fogo. Voce chorava ao meu lado. Éramos os “homens da caverna”, como simplificamos hoje. Mas naquela noite éramos apenas homens e mulheres desesperados.
 
Durante o dia saímos atrás da caça, nosso principal alimento. Mas encontramos a tribo vizinha. E foi um massacre. Bem maiores, mais fortes, ferozes e agressivos.
 
Eram invencíveis. E não queriam conversa. Metade de nós foi ferido e morto e seus corpos ainda estão lá. Eles não nos querem por perto. Nos matarão quando puderem. Aqui dentro, ao redor do fogo, enquanto ele arder, estamos seguros, pois a tribo vizinha costuma evitar o fogo. Mas até quando? Há pouca lenha aqui dentro. A fogueira não dura mais que um dia.
 
Então amanhã é nosso fim. Se saímos, a tribo vizinha nos ataca. Se ficamos, morremos de fome.
 
Os da tribo vizinha são muito peludos, tem grandes dentes afiados e garras também, poderosas. Hoje nós os chamamos de ursos. Naquela noite chamávamos de Morte.
 
E chorávamos. Pelos amigos que perdemos na batalha. E pelo nosso próprio fim. E o da raça humana. Seríamos extintos. E não haveriam as crônicas de quarta…
 
Mas toda família tem um tio maluco. Foi a nossa sorte. Ele havia encontrado um dia a carcaça de um urso morto. Arrastou para um formigueiro e esperou elas limparem a carne, sobrando uma boa pele que ele escondia. Forrava um canto mais ao fundo na caverna e para lá convidava alguma moça friorenta. Esperto esse tio maluco, percebo hoje. Mas naquela época era um tonto, um brincalhão.
 
Naquela noite, quando a fome aumentava e chorávamos encarando a morte, ele cobriu sua face com a face do urso, vestiu corpo o resto da pele e surgiu de repente, rosnando e ameaçando. Como um urso.
 
Corremos e gritamos desesperados. O urso entrou? Acabou, é nosso fim! Lembro que de tanto medo fiz nas calças… Ah, esqueci, ainda não usávamos calças.
Então o tio tirou a pele e riu espalhafatosamente de nosso medo. Percebendo que era o tio e não o urso, ficamos furiosos. E pulamos em cima dele. Ele vestiu a pele rapidamente e nos ameaçou novamente, rosnando e fazendo os mesmos gestos e urros que os ursos faziam.
 
Paramos, confusos. Era o urso? Ou era o tio? Ele punha e tirava a máscara de urso se divertindo com nossa confusão. Rosnando quando era urso e rindo quando era o tio. Ficamos um tempo tentando entender. Não é que nosso pensamento era lento. Já tínhamos toda a capacidade intelectual que temos hoje. Mas era a primeira vez que víamos alguém ser gente e outro bicho ao mesmo tempo. Era a primeira vez que alguém imitava, que fingia ser outra coisa, outro ser.
 
Vestimos a pele do urso e experimentamos, pela primeira vez, a grande magia: “E se eu for um urso?” E algo acontecia. A soma de toda nossa experiência com os ursos, o que sabíamos, o que tínhamos visto, nos fazia vestir a pele do urso não apenas com o corpo, mas com a consciência. E passávamos a agir como um, a pensar e sentir como um. Agora “eu sou um urso”.
 
A sensação era de poder, era divertido. E passamos o resto da noite experimentando ser urso. A princípio um de cada vez, pois só havia uma pele. Mas logo percebemos que a pele ajudava, mas era dispensável. A magia acontecia na mente. Se eu quiser, posso pensar como um urso. Posso ser um urso. Então nos dividimos em grupos. Uns eram ursos, os outros caçadores. E refizemos nossas histórias, recontamos o que sabíamos sobre aquelas batalhas que sempre perdemos. De que sabíamos pouco porque todos os que chegaram mais perto, os que puderam observar melhor como os ursos agiam, não voltavam. Mas com a nova magia, conseguimos entender os ursos. Percebemos sua natureza. Encenamos esses ataques. E ali, na caverna ao redor do fogo, morremos várias vezes. Mas não morremos.
 
Porque era de forma mágica, de fingir, de imitar. Tudo era e não era. Não morríamos de verdade, mas aprendíamos com os erros. E tentávamos de novo.
 
Hoje, qualquer um que tenha encarado um vídeo game sabe da facilidade que é tentar de novo quando nosso avatar se ferra. Basta pegar mais “life” e voltar ao jogo, corrigindo nossa estratégia.
 
Ali foi a primeira vez. Aprendemos mais sobre estratégias para enfrentar os ursos naquela noite que em toda a nossa triste história em que tantos haviam morrido antes de poder nos ensinar o que fazer.
 
Mas agora tínhamos uma nova forma de aprender. Pensávamos e sentíamos como um urso. Conhecemos o seu ímpeto, o seu orgulho e sua obsessão. De tão fortes se divertem nos perseguindo. E quando atacam não param. Miram um de cada vez e perseguem até feri-lo ignorando o que acontece ao redor. Havia então uma grande chance: Um de nós, o menor e mais ágil, atrair o urso para si. E, no momento da investida, encolher-se sobre uma lança mais longa apoiada no chão. O urso espetaria a si mesmo no peito, pois ignora a lança, quase não a vê. E os outros atacariam por trás. Ele teria pouca chance. Por ser urso, por ser o que é. O que agora éramos também.
 
Quando amanheceu, saímos da caverna armados e prontos. Nosso tio ergueu uma tora em chamas e prometeu ao sol que naquele dia derrotaríamos os ursos. Fosse um filme da Disney, tocaria uma música épica.
 
Acho que deu certo, pois ainda estamos aqui. E o que aprendemos naquela noite nos capacitou a chegar onde chegamos. Dizem que o que nos distingue dos animais é a capacidade de pensar. Não sei, talvez uma ostra possa pensar. Somos o único animal que sabe imaginar, sabe fingir, fazer de conta. É nossa melhor habilidade.
 
Pensar e sentir como uma outra pessoa, imaginando uma situação é a forma humana de aprender. É o que nos faz humanos.
 
Falta lembrar que o que compreendemos de outro ser nos possibilita tanto matar quanto dialogar. Talvez tenhamos sobrevivido porque matamos os ursos naquele dia. Eu preciso sonhar que soubemos honrá-los dividindo nossa caça e respeitando seu território. E soubemos conviver pacificamente com nossos irmãos ursos. Porque somos ursos também. Como seremos cada ser que pudermos compreender.
 
 

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