COLUNASCRÔNICAS 

Oito da noite de um sábado. No jardim da praia de Santos, próximo ao farol do canal 4. Ponto e horário de jovens e adolescentes se encontrarem. Hora de “ferver”. Estar com a turma, trocar idéias, conhecer outros e outras, namorar, ficar a vontade entre os seus, fazer o que adolescentes e jovens fazem de melhor, no melhor momento da vida. Quase uma festa. Não falta nem a música que vem, dispersa mas constante, de um ou outro celular não contido num fone. 
    Eu, sem pressa, de passagem, aguardo o ônibus, intruso no jardim que virou balada. Sou parte da paisagem. E observo.
    No banco mais próximo a garota sentada sorri. Seus olhos brilham de entusiasmo e ansiedade, atenta os garotos de pé a sua volta. Eles circulam, conversam, provocam-se. Trocam olhares, disfarçam comentários. Paqueram-se. 
    Mas nenhum deles vê a garota no banco. 
    Ela tem a mesma idade. É bonita como todas as outras. Bem vestida, cabelos negros e longos, olhos de menina, corpo que já se fez mulher. 
    Mas nenhuma palavra é para ela. 
    Suas roupas não diferem das outras garotas, sua idade é a mesma, seu olhar ativo e atento é o mesmo de todos eles, a mesma curiosidade e empolgação incontida. A garota está em seu lugar, na hora certa, com os seus. 
    Mas para todos naquela festa a garota é invisível. 
    Por que apenas eu, de passagem no ponto de ônibus, noto sua presença? Por que se recusam a considerá-la? O que há nela que a faz invisível? No burburinho dos jovens, ela habita isolada. Ela os vê, mas não é vista. Anseia por uma atenção que não recebe. Que estranha força ou magia desprega essa jovem daquele mundo que é tão seu? Que criatura maligna provoca essa ruptura, desloca essa menina? 
    Em seu colo vejo um pequeno volume. Envolto em uma manta, alheio a seu poder, um bebê apenas dorme, acalentado pelas mãos da garota invisível. Mãos de mãe que já aprenderam a cuidar, que se ocupam das tarefas da mulher que será, se já não fosse. Mãos de outra época daquela vida, tão precoces que quase não são da mesma garota que olha ansiosa e apaixonada os garotos na balada na praia.
    Como a mítica esfinge, a garota-mãe suporta o que não se espera encontrar ao mesmo tempo, no mesmo corpo. Adolescência e maternidade unidas no mesmo ser no banco da praia num sábado à noite. Se mesmo os antigos heróis míticos vacilaram e caíram de joelhos incrédulos e atônitos perante a enigmática esfinge, como culpar a atitude daqueles jovens que, incapazes de decifrá-la, escolhem ignorar? Nós, os mortais comuns, fingimos não ver o que não sabemos decifrar.
    Porque decifrar as esfinges é tarefa para os heróis de verdade, que em nossa época não são os doutos sábios, pesquisadores da natalidade juvenil. E menos o são os gestores das políticas públicas. O heroísmo contemporâneo não é mais dos grandes feitos, dos grandes homens, mas das pequenas heroínas, menores e mais comuns do que queremos enxergar.
    Pois quem mais decifrará essa esfinge se não aquela mesma garota quando, aos poucos ou de repente, encarar-se frontalmente? Como resolverá o enigma de sua dupla existência?
    Que a pequena heroína sentada na praça, unida a seu filho, encontre sabedoria para decifrar-se e com o que vier, com o que puder contar, enfrente firme e forte seu destino. 
    E invente sua possibilidade de ser feliz. 
    E que sua resposta nós mortais saibamos compreender, pois seremos a parte que ajudou, ou os obstáculos no caminho.

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