COLUNASCRÔNICAS 

“Escravos não existiram, pessoas foram escravizadas.”
 
A primeira vez que a li essa frase compreendi a sublime sutileza das palavras.
 
Quando ensinamos às crianças que algo aconteceu “no tempo dos escravos”, a frase permite entender que as pessoas eram “naturalmente” escravos. Como se essa condição de estar aprisionado e ser tratado como um objeto fosse uma característica intrínseca, que deriva da pessoa. Um absurdo e uma grande mentira sutilmente “escondida” na expressão. Ninguém é escravo por uma condição pessoal. Escravidão é sempre imposto por alguém, ou por muitos, por uma sociedade.
 
Um ato tão absurdo que precisa ter sua normalidade cotidianamente confirmada. É aí que as palavras entram. Com elas combinamos o significado das coisas e compartilhamos modos de agir e pensar. De maneira consciente ou, na maioria das vezes, sem percebermos.
 
Então, se compartilharem esse sentimento comigo, de que a escravidão é algo execrável, recomendo a expressão “no tempo dos escravizados…”.
 
É a forma passiva, que pede sempre o sujeito. Se uma pessoa foi “escravizada”, alguém o escravizou. Então “quem” escravizou? A pergunta fica no ar, exigindo uma resposta.
 
Se um senhor de engenho na época colonial usasse a expressão: “Vá brincar com seu escravizado, meu filho”, haveria alguma chance do menino intuir sua responsabilidade sobre a condição de seu “brinquedo”. Criança ou não, cada ação sua em relação ao outro menino reforçaria ou negaria o ato de escravizar. Em cada gesto, cotidianamente. E as palavras o ajudariam a enxergar o quanto de arbitrário existia na sua relação com o outro. O quanto há a decidir, a confirmar ou a negar. E tomaria sua decisão, arcando com sua consciência. Não digo que se tornaria um abolicionista imediatamente. Mas estaria aberta a porta de um outro entendimento mais apurado dos fatos. Mas não foram essas as palavras de seu pai. Ele disse: “vá brincar com seu escravo”. E o menino cresceu tratando o outro menino como um objeto. E isso lhe pareceu normal.
 
As palavras são parte importantíssima das relações humanas. Elas confirmam ou questionam nossos valores. Raramente são neutras. E certas maneiras de dizer são repetidas tanto e tanto até que uma aberração pareça natural. Usamos hoje a palavra “pobres” quando poderíamos usar “empobrecidos”. E “ricos”, ao invés de “enriquecidos”. Há inúmeros outros casos. Cito apenas dois para provocar o leitor a encontrar outros. Aprender a escolher palavras e expressões que reflitam melhor a realidade ou o pensamento da pessoa é um poder que nos torna mais aptos para a vida em sociedade. Alguém que decide mais, que repete menos o pensamento dos outros.
 
Será por isso que nossos estudantes são tão pouco estimulados a escrever?  
 
É comum que as palavras sejam usadas para “naturalizar” as relações sociais. Mas, como as palavras, a sociedade não tem nada de natural, tudo nela é invenção, uma construção feita de uma forma específica, construída num processo histórico que envolve sempre muito confronto. Ou seja, a sociedade nunca “é”, ela sempre “está”. Pode sempre ser de outro jeito, de outras formas, segundo outros valores. Nada na sociedade “é assim mesmo”. Aliás, outra expressão que usamos para naturalizar o que não é natural.
 
Voltando ao tema racismo, há um fato científico que é importante saber. Como último estágio da evolução dos hominídeos, nós os “homo sapiens”, dominamos o planeta. E a habilidade da palavra foi nossa maior arma. Usando-a conseguimos nos entender e construir relações que fizeram a diferença. Outras espécies hominídeas coabitaram conosco por um curto tempo. Neanderthais e outros. Mas foram logo extintas. Seja porque não suportaram nossa concorrência – não conseguiram acompanhar o “nosso papo” – seja porque acasalaram conosco, misturando-se até sua extinção. Há controvérsias quanto ao porque as outras espécies se extinguiram, mas o fato inquestionável é que não restou mais em todo planeta nenhum hominídeo de outra espécie diferente de nós. Hoje, em todo o planeta, somos todos homo sapiens, com exatamente o mesmo DNA. Qualquer que seja a cor da pele, ou a cor dos olhos, ou qualquer outra característica física.
 
Isso, aliás, já ridiculariza qualquer visão sobre raças superiores ou inferiores neste planeta. Diferenças de cor de pele, de tipo de cabelo, de formato de olhos e narizes não configuram diferenças significativas. Somos todos homo sapiens. Do ponto de vista biológico, somos todos absolutamente iguais! E ressalto “do ponto de vista aspecto biológico” porque, infelizmente, do ponto de vista social há ainda muita diferença. Diferenças construídas, arbitrárias, forjadas sobre mentiras, privilégios e favorecimentos que revelam e perpetuam um pensamento tacanho, mentiroso e pouco evoluído. Considerar que, por suas características físicas, um ser humano é inferior ou superior a outro é uma total falta de inteligência, de sanidade ou de caráter.  Racismo é algo que depõe contra nossa humanidade. Deve ser sistematicamente combatido e alertado. 
 
Também nas palavras, pela força e importância que as palavras tem.
 
E faço um alerta. Evoluir é necessário e indispensável à sobrevivência à nossa espécie. Como foi antes. Se continuarmos estúpidos a ponto de não extinguirmos imediatamente o racismo entre nós seremos superados, assim como os Neanderthais também foram.
 
Pois é parte da evolução aprender a encarar a verdade.   
 
Esta semana li sobre uma descoberta recente da ciência. A humanidade ainda está evoluindo. Biologicamente. O processo de evolução que gerou o homo sapiens não parou. Um novo salto evolutivo é possível e já mostra sinais. Cada vez mais crianças nascem com pequenas alterações genéticas que, vistas num padrão global e numa perspectiva temporal maior, denota ser parte desse processo. Por enquanto são pequenas alterações, mas nada impede que haja, como houve, um grande salto qualitativo que aprimore profundamente as capacidades dos hominídeos. 
 
Eu me pergunto como será essa nova espécie? Provavelmente nos superará. Olhará para nós e terá pena de nossa pouca consciência de nós mesmos. Rirá de nosso estúpido racismo. Terá pena de nossa espécie e talvez argumente que merecemos a extinção pois, estúpidos que somos, não soubemos nos entender como irmãos e reconhecer o valor e necessidade de cada um e perceber o potencial de todos para o bem comum. Que nos perdemos buscando as diferenças quando havia tanto de igual a compartilhar.
 
Evoluiremos a tempo? Espero que sim pois a evolução dos hominídeos talvez demore, talvez não.  Mas, dizem por aí, os alienígenas estão chegando.
 

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