1.0 // SANTOS2.0 // REGIÃO

E quem se importa?

Chega essa época do ano e é momento de falar do natal. Se eu não falar agora perco a chance. A época passa, o assunto fica velho, vem o ano novo, outras pautas. Quem vai querer saber de natal em fevereiro ou março? Não sou jornalista mas reconheço que é bom acompanhar o calendário dos leitores. Pelo menos, se eu quiser leitores. Então que seja, é natal. É disso que se trata. É preciso falar de natal. Vamos a ele… Então… o natal.
 
É, eu reluto.
 
É que tenho tão pouca intimidade com essa época. Fico me perguntando, o que eu sei de natal? O mesmo que a maioria das pessoas. Eu sei que é uma época em que a cidade fica cheia de luzes coloridas, aparecem enfeites nas portas. E as lojas todas mudam a decoração. Aparece o tal do papai noel em tudo que é shopping. E a televisão, credo, não para de falar nisso. Não há um comercial que não te lembre que é natal e que, portanto, voce “tem” que comprar um presente pra alguém. Afinal, é natal! Até na novela rola uma ceia de natal na trama. Nos noticiários, fugindo do que não querem mostrare deveriamnos dão mais cenas de neve, de pinheiros, de trenós. Com isso tudo na cabeça, alguém consegue esquecer que é natal? Acho que não. Não que devêssemos, sei lá. É um feriado. E todo feriado é sempre bem vindo.
 
Ah, sim, ouvi uma vez que é um feriado religioso. Que tem a ver com o nascimento de uma pessoa importante para os cristãos, o tal Jesus. Eu pessoalmente tenho pouco a ver com isso. Nunca fui religioso, acho mesmo que sou ateu, graças a Deus. Eu nem sei, estou pra consultar um Quiz no face que diz se a gente é ateu ou não. E mesmo Jesus, o aniversariante, eu conheço apenas de passagem, diz que é um cara muito descolado, que tinha umas idéias bem radicais que já foram esquecidas, que estão fora de nosso tempo.
 
Ou não.
 
Mas eu admiro a figura e, confesso, “viajo” numas coisas que eu li. Aquele “sermão na montanha” é mesmo um papo muito louco. Se você nunca leu, aconselho. Tá lá na tal da bíblia. É bem “viajante”, poético, bastante utópico considerando essa sociedade que insiste nas propriedades como prova de sucesso na vida. Mas é lindo assim mesmo. Vocês sabem, eu sou das artes. Tenho uma tendência a valorizar qualquer momento criativo. Acho que é sempre pro bem. E, por favor, não me culpem pelas contradições ou se eu parecer irônico.
 
Mas sinceramente acho uma dádiva abençoada, um favor de Deus, não ter sido criado sob uma religião. Peço desculpas se ofendo alguém, mas nunca tive intimidade com “escrituras bíblicas” e tudo o mais que vem junto. Então tudo o que sei sobre o assunto eu nem sei se é mesmo o assunto.
 
Quer dizer, se o assunto for a religião e o natal, ah meu irmão, eu sou muito ignorante! E eu não vou mesmo falar sobre isso. Mas se a gente puder falar de amor, bondade ou caridade, essas coisas que deixam a gente bastante incomodados de falar, aí eu te conto o que eu acho, o que aprendi na vida mesmo. Sem livros, parceiro! Sem conferir nas “escrituras”. Só na confiança do que eu aprendi batendo cabeça por aí.
 
Por exemplo, a caridade.
 
Você já atendeu um grupo de religiosos na porta de casa? Eles batem de vez quando, mas sempre aos domingos, que pra eles é sagrado. Alguém precisa explicar que o domingo também é sagrado pra quem trabalha toda a semana, é o descanso de muita gente. E isso também é sagrado. Mas quem disse que eles entendem? Eles chamam, batem palma e oferecem uma mensagem, insistem em te trazer uma palavra e sorriem serenos, daquele jeito de quem já está acostumado a mal ser ouvido, a ser ignorado, e nem liga mais. E isso eu admiro. Tem gente que solta os cachorros, xinga, maltrata mesmo. E eles mantém o sorriso. E ainda chamam de irmão. Bacana isso.
 
Uma vez fiquei com pena de um casal de crentes que bateu na minha porta. Eram dois jovens naquela idade em que o amor acontece com mais intensidade. E me chamou a atenção que os dois se olhavam de um jeito muito especial. Ali era paixão, eu sabia. Vieram com aquele papo de que Jesus tinha uma mensagem pra mim e tal. Eu não aguentei, levantei os braços e a voz e soltei: “Meu irmão, você fica aí dizendo pra mim que Jesus me ama. E não fala de amor pra ela que tá aí ao teu lado o dia inteiro queimando nesse sol? Diz é pra ela o que tu sente! Solta esse teu amor de Cristo na direção certa, meu irmão! E beija essa mulher logo, que Jesus te ordena!” E gritei: “Aleluia, aleluia!” E fechei o portão. Mas deu pra ver pela grade que rolou um momento mágico pra eles. Ficaram se olhando naquele santo clima entre os dois. Acho que já estava rolando, eu só soprei na fogueira. E pegou fogo. Crente é assim. Os bispos, dizem, são uns sacanas, aproveitadores. Mas as ovelhas não, são ingênuos, puros de coração. Por isso são ovelhas. Ficam vendo a “mão do Senhor” em tudo. Então, fiz eles verem em mim naquele dia. Jesus falou através de mim, pensei. Espero que tenham se amado muito, como merecem, como todo mundo merece.
 
Outra vez foi um senhor de mais idade. Vinha junto com um jovem que parecia ser aprendiz. Esse mais velho falava como se estivesse ensinando, mostrando pro outro como fazer. Falou aquela ladainha sobre Jesus, recitando versículos como locutor de porta de loja.
 
Como eu estava com tempo, resolvi argumentar. Sempre é mais fácil pegar o panfleto, dizer obrigado, dar meia volta, jogar o papel no lixo e seguir a vida. Mas me deu uma coisa. Uma certa vaidade, confesso. Ó senhor, eu pequei! Agarrei um discurso com o homem. Mais ou menos assim:
 
“O senhor vem hoje nesse domingo, quando poderia estar cuidando apenas de sua família. Saiu cedo para ser generoso, para pregar a palavra de Jesus. Bateu aqui na minha porta e na porta de quem achou que tinha que bater, decidido a ajudar, a fazer algo de bom para as pessoas. E isso mostra o quanto o senhor é um homem de boa vontade”. O homem abriu um baita sorriso, satisfeito que fazia um bom papel diante do seu aprendiz. Mas aí eu soltei a bomba. “Mas no caminho o senhor nem viu quem mais precisava de sua ajuda. Porque assim são os homens. Fazem a caridade quando acham que devem fazer. Querem ser bons, mas para quem decidirem, no momento que querem e do jeito que decidirem. Isso não é caridade, isso é vaidade! Então, meu senhor, se quer merecer Cristo, volte pelo caminho que veio e atenda as pessoas que o senhor não quis escutar. E observe as portas que o senhor não quis abrir. Observe quem lhe procura. Para de correr atrás de ajudar e deixe que Jesus te peça”. E fiz os meus “aleluias”.
 
O senhor fechou a cara e ficou muito bravo. Mas o jovem me olhava com um olhar arregalado. Acho que entendeu.
 
Eu penso que a verdadeira caridade a gente não decide a hora, o lugar, o jeito e nem pra quem. Acontece quando não estamos preparados para ajudar, quando quem nos pede é quem nós não pretendíamos ajudar. E pede algo que a gente não queria fazer. É uma resposta a uma suplica que contraria a nossa natureza, a nossa vontade e às vezes até as nossa crença. A verdadeira caridade a gente quase se envergonha de ter feito.
 
Fiquei com minha vaidade e maldade de ter trolado mais um grupo de crentes. E era numa semana do natal. Mas não me senti culpado. Fiquei pensando é que seria melhor que o natal não existisse. Natal é bom que exista, as pessoas se preocupam mais com as outras. Nem todas ou quase nenhuma, eu sei, mas já tá valendo. Pensam mais na vida, no que estão fazendo dela, se esforçam por ser melhores.
 
Mas se é bom, então por que é apenas uma data, um período pequeno dentro do ano? Assim não faz sentido.
 
O melhor é que fosse sempre, que fosse o ano todo. E todo dia tentaríamos ser melhor, cuidando uns nos outros, tentando ser feliz juntos. Sempre. Então não haveria época de natal e época sem natal. Todo dia seria natal. Mas então não haveria natal.
 
E quem se importa?
 

 

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