COLUNASCRÔNICAS 

Começa nesse mês a temporada dos vestibulares. Momento de muita neura pra quem disputa uma vaga na universidade. Qualquer prova é sempre algo tenso, mas o vestibular é tenso mesmo!  Dizem que é um momento que vai determinar o seu futuro e tal. Se voce é vestibulando te conto uma coisa: a vida é recheada de momentos decisivos! Esse é só um deles. Se voce entrar no ônibus pode ser que a moça que te olha tanto seja sua melhor companhia por toda a vida. Se for ela, meu amigo, esse é o momento decisivo! Voce só não sabe. E há uma boa chance de voce pegar outro ônibus e passar a vida sem ela. Vai arriscar?
 
Pois é, não dá pra saber quais momentos vão realmente fazer a diferença. A gente fica neurótico se pensar nisso. Mas o vestibular é sim um momento em que a gente sabe que algo vai mudar. Acabou o ensino médio, e agora? O que fazer? Bora cursar uma faculdade? Se você puder, se tiver recursos, ótimo. Se a família ajudar, melhor. Mas talvez você tenha que trabalhar, vai ser duro. Mas, olha, acredite, vale a pena! Fazer uma faculdade é uma das melhores coisas da vida. Passei por três cursos diferentes na universidade e sei do que estou falando, cara. É, três. Mas só me formei no último. “Como assim? Por que não terminou?” Bem, é disso que eu quero te contar.
 
Escolher um caminho é angustiante. Nessa idade ainda mais. Lembro da sensação. É como estar à mesa num restaurante num almoço de domingo com a família inteira na mesa, incluindo os primos, avós e aquelas tias insuportáveis cuja única razão de viver é avaliar o quanto você é um caso perdido. Todo mundo já escolheu o prato, menos você. O garçom tá de pé ao teu lado aguardando com cara de “escolhe logo, moleque”. Você olha o cardápio com aquela lista de opções: Medicina, Direito – pratos tradicionais. Engenharia e suas milhares de variações, História, Física, Geologia, Ciências da Computação – já foi moda, Arquitetura, Farmácia, Bioquímica, Química, Odontologia, Zoologia, Letras, Agronomia, etc, etc, etc… Começa a pensar em uma de cada vez. Pensa, pensa. E não consegue decidir. Você sabe que é um momento daqueles. Esse você sabe. E simplesmente não consegue decidir!  Mas a pressão continua. Teu pai, sorrindo mas já de saco cheio: “Como é que é meu filho, o garçom está esperando!” Sua irmã, já na faculdade, dá aquela força: “Anda logo, tô com fome!” E o mais velho, formado em direito, balança a cabeça e te dá aquele velho olhar de desprezo: “É uma lesma mesmo…”.
 
Mas, fala sério, como “decidir seu futuro”, se a gente não sabe nem o que a gente quer, não sabe o que tem no mundo? A gente não sabe nem quem realmente a gente é!
 
Aí tem muitos que acabam optando sem nenhuma certeza do que estão fazendo. Mas às vezes dá certo. O cara até que gosta do que encontra, acaba se formando direitinho. E essa neura toda fica pra trás, guardada na lembrança como um troféu. Ainda bem.
 
Mas pra outros a pressa não dá muito certo.
 
Entrei aos dezessete na universidade. Mudei de Santos para São Paulo Da “praia, sol e bicicleta” para “ônibus, multidão, poluição, chuva fina, frio, pressa, buzina e mais ônibus bem espremido”. E lembro bem que nos primeiros dois anos o conteúdo das aulas não era nem de longe o que me interessava. Havia outras… “necessidades” urgentes, que eu simplesmente não podia deixar pra lá. No meu caso, como vou dizer, de caráter emocional, sentimental sabe. Ah, era o que me faltava! Não deu tempo de fazer um monte de coisas que eu queria fazer no ensino médio. Quanta balada eu não fui pra poder estudar! – Quem foi direto pegou muito, mas não entrou. Ah, doce vingança! – Eu bem que tentei prestar atenção às aulas na faculdade, mas tudo em volta me atraía demais. E eu fui atrás. Inevitável. Naquela época eu ainda não sabia que fazia todo sentido eu não ir bem nas aulas. Eu achava que aquela “pulsão desenfreada”, aquela “dispersão cerebral” era incapacidade, desarranjo meu.  Larguei o curso de jornalismo no segundo ano e prestei o vestibular de novo. Dessa vez, não tinham ninguém na minha orelha me cobrando. E daí? Eu me cobrava muito mais. E voltou aquela sensação de “ser cobrado e ter que pedir o prato logo”. Dessa vez pedi “Ciências Sociais”. E acho que acertei. Um curso bem cabeça, aprendi muito. Principalmente uma enorme lição que me valeu para sempre: aprendi a aprender. Aprendi qual era o “meu jeito” de absorver o que a universidade propunha, que não é igual a de ninguém. Gosto de ler, nunca anoto, mas nunca esqueço um raciocínio bem tramado por um professor apaixonado pela matéria. Mesmo cansado e mal remunerado. Para mim, professores que curtem do que falam, fazem toda a diferença. 
 
Esse é o meu jeito de aprender. Mas cada um tem o seu. 
 
Depois de quatro anos aconteceu algo engraçado. Eu gostava muito de estudar, mas já não estava interessado no que o curso propunha. O curso é bom sim, mas eu começava a fazer algo que só entendi depois.  Lembra do exemplo do restaurante? Pois é, dessa vez eu fiz diferente. Não escolhi o prato. Levantei e fui fazer o meu próprio rango! E foi mágico. É, não me formei de novo. E depois de quatro anos! Mas fiquei muito mais próximo de quem eu sou, do que eu quero e do acredito.
 
Teoricamente tracei caminhos alternativos. E na prática? Bem, na prática… fui pro circo. Aprendi malabarismo, trapézio e equilibrismo numa escola de circo e cheguei a ser profissional rodando pelo Brasil. Anos depois senti uma baita vontade de voltar a estudar e prestei de novo o vestibular e entrei pela terceira vez na faculdade. Dessa vez em Arte Cênicas e, acreditem, me formei! Sou diretor teatral e cada experiência que tive, cada tropeço, contribui muito para a qualidade do meu trabalho.
 
Depois de maduro e professor de teatro – quem diria! – eu descobri uns estudos mostrando que não fui exceção. Jovens que entram mais cedo na universidade demoram mais a terminar. Ou trocam de curso no caminho, “batem cabeça” até se encaixarem, até se descobrirem. Os que aguardam um pouco e ingressam mais tarde, terminam o curso em menos tempo. Porque chegam à universidade mais conscientes, mais focados no que querem. 
 
Claro que isso é uma tendência estatística, há sempre exceções. Para mim fez todo sentido.
 
Então calma. Se voce ainda não sabe o que quer, relaxa! Pode ser que você entre agora, pode ser que não. De qualquer forma, voce só estará pronto para estudar… quando estiver! É, não tem jeito. Entrando ou não nesse ano fique esperto quanto aos teus processos, é assim mesmo. A gente está sempre mudando, faz parte. E, olha, isso nunca acaba. Às vezes vale a pena dar um tempo, fazer um cursos por aí, entrar nuns projetos, se conhecer melhor. Ou até, se voce não teve a chance ainda, cair na farra! Faz parte de seu crescimento viver o que você precisa viver. Vai chegar uma hora, é inevitável, que a tua cabeça vai querer ler, vai querer saber de outras coisas, vai querer até estudar! Espantoso, eu sei, mas é verdade. Eu sei também que vai ser difícil convencer o teu pai de que ir na balada agora é o seu melhor “investimento na carreira”. Ele não vai entender. Pai nenhum entende porque pai – e mãe também é claro – são cargos, tipo “chefe de fiscalização”, sabe. E tem funções que eles tem que cumprir. Então não vão entender certas coisas, mesmo que entendam. Confundi? Pense que debaixo de todo pai e de toda mãe tem uma pessoa. Ás vezes a gente esquece… Mas, olha, se for necessário tem um jeito bem sério de explicar. Diz pra eles assim:
 
“Já foi o tempo em que o mercado de trabalho acreditava que a capacidade cognitiva, o intelecto, era a única e mais importante habilidade exigida de um bom profissional. Qualquer que seja o nicho de atuação de uma empresa, ela passa necessariamente pelo atendimento de pessoas. Com serviços ou produtos, trata-se sempre de atender pessoas. E para se conhecer bem as pessoas é preciso vivencia pessoal, é preciso maturidade.”
 
Soa sério, não é? Pois é, no futuro todos terão diplomas e certificados de capacidade, de estudos. Mas o melhor profissional, disputadíssimo no mercado, será aquele que, além de todo entendimento técnico, souber pintar quadros, por exemplo. Ou for ativista em ajuda humanitária, ter se casado, pedalar na chuva, ter se separado e aprendido com isso, escrever poesia, fazer parte de um grupo amador de teatro, praticar yoga, cuidar de cachorros abandonados, tiver filhos e cuidar deles, ler bastante, ser palhaço, ter viajado por lugares abandonados, souber rir de piadas sem graça, ter conhecido pessoas diferentes, gostar de dançar, visitar os avós, fazer origami, soltar barcos de papel na chuva, estudar astrologia mesmo sem acreditar, juntar os amigos religiosamente, ser fiel ao por do sol…
 
Enfim, o melhor profissional é um cara que achou de alguma forma um jeito de ser feliz. E ser feliz é tudo que se quer. Não tem preço, mas todos querem. Todos.
Consegue imaginar melhor qualificação profissional que essa?
 

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