COLUNASCRÔNICAS 

Eu pertenço a uma elite, sou um privilegiado. Percebi foi outro dia numa noite bem molhada, eu passava na esquina e parei. Parei porque quis, parei para olhar. Porque seguir eu poderia porque ter pés e caminhar é um poder pra se usar.
 
No caos do trânsito encharcado de buzinas e faróis, a esquina lotada, sem desvio e sem saída, frustrava o passo de tantos que tentavam, carros, vans, ônibus e um pequeno caminhão, atrasado quase certo do horário para a entrega.
 
Eu eu em pé, pensava.
 
Vai pra casa caminhoneiro! Aí do alto enxergas mais? Ou é maior o afogamento de quem sonha estar em casa beijar os filhos e jantar tranquilo com a mulher?  
 
Nada andava exceto eu e a chuva que corria solta na calçada feita riacho oportunista, feito geral que invade a pista e se regala satisfeito em seu pleno carnaval.
 
Será que agrada essa platéia tão bem sentada em seu recinto com som lá dentro sufocado e o ar na condicional? Ou o vidro embaçado esconde ver o córrego deslizar e o quanto pode festejar sua passagem sobre o asfalto sem saber ou importar que tudo vai pra terminar logo ali naquele mar?  
 
Nada andava exceto eu e aquela chuva que envolvia e acordava meus pulmões.
 
E eu em pé me pegava, escorregando aliviado em orgulho e regozijo por ser tolo caminhante satisfeito por viver na cidade que ajuda a quem sabe e aprecia que usar os pés é um poder disponível a quase todos. Mas quem pratica é muito pouco.
 
Feito Antão me peguei tosco naufragado na vaidade de me ver como distinto e libertado, superior a meus irmãos aprisionados em seus carros naquela noite encarcerados numa esquina sob o acoite de um semáforo quebrado.
 
Logo eu que me ressinto desse mundo desigual, dessa desculpa em dizer “que não há o que fazer”, de viver a vida a esmo “que o mundo é assim mesmo”. Logo eu cronista quixotesco que namoro tolas causas que advogo outras formas que acredito em despertar.
 
Então te estendo o guarda-chuva, te convido a caminhar. Se te assusta tanta água traga galocha preta ou colorida e uma capa que te cubra. Ou aproveite esse calor que por enquanto só cai água e água é parte de viver. Mas se gelar mais que devia, for muito esforço pra um só dia, te ensino terminar com um banho quente salutar e um bom vinho pra fechar, que já chegamos sobrou tempo e não há carro pra guardar, não paramos pra esperar, não existe o tal semáforo pra quem vive confiando em seus pés nesse lugar.
 
Vamos embora caminhar?
 
Que nem a chuva vai parar nem o asfalto segurar o rio que passa entre nós. 
 

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