COLUNASCRÔNICAS 

Conheci uma moça com uma profissão peculiar: é acompanhante. E peço calma a meus leitores mais recatados. Nem sou seu cliente nem de serviços sexuais vive a moça. Com muita serenidade, ela garante e confirma: “Sou acompanhante, não uma prostituta”.
 
Conheci ao acaso, num evento cultural. Bonita e bem educada, pós graduada em psicologia em uma renomada universidade na França, tem uma visão peculiar sobre a profissão. Diz que é paga para conversar, dar atenção, ouvir e se interessar pelo cliente. Quase como uma amiga de verdade. E que prefere o termo “fake-friend” que, traduzindo, é algo como “amiga de mentira”. Um luxo para poucos, esclarece, pois é bem caro. Ao menos para quem vive de salário.
 
Alugar uma amiga… Fiquei imaginando se é falta de tempo para ter uma vida social. Mas só divaguei: “Vida de executivo. Deve ser difícil, pouco tempo, muitas responsabilidades”. Ela riu e entregou que seus clientes tem tempo sobrando. Trabalho mesmo, de vez em quando. Bem diferente da imagem que gostam de estampar. Passam os dias cultivando sua imagem de sucesso. É o que sustenta a credibilidade de seus negócios. Tem que estampar uma superioridade a todo momento, que estão sempre por cima, que são “os caras”. Diz que boa parte de seu trabalho é posar sorrindo em selfies com seus “amigos” em vernissages, coquetéis e homenagens. Sempre em público, é claro. “Executivo ostentação.”
 
Brinquei perguntando se não tinha medo que seus clientes conseguissem amigos de verdade. “Difícil!” — respondeu rápido — “Todos ao seu redor são funcionários, contratados ou serviçais. Os que tem família não convivem com eles.” Afeto e amizade é algo raro em seu mundo. Amor então…
 
“Que triste…” — soltei. Ela respirou fundo e parece que passou a conversa para a psicóloga. Explicou que a situação financeira deles dificulta aprenderem regras simples de convívio. São imaturos e tolos, crianças grandes. Mesmo se tentassem não saberiam distinguir quem lhes tem afeto de verdade e quem só respeita o seu dinheiro. Eles não tem quem lhes diga frases tão necessárias como: “Discordo de você”. Ou “Me respeite.” “Não faça isso”. Nem ao menos um simples: “Você está errado!”
 
“Então é só dar bronca? Parece coisa de babá.” brinco. Ela termina o coquetel e dispara: “Sou paga para mentir. Se quisessem a verdade, contratariam a psicóloga”. Depois, abriu um sorriso magnífico, olhou fundo em meus olhos e exibiu seu talento: “Voce é demaaais! Adoreeei te conhecer!” Num tom que qualquer idiota acreditaria…
 
Já estive perto de empresários poderosos. E de fato, muitos se encaixam no perfil dos clientes da moça fake-friend. Olhos fixos, exultantes e fascinados como se estivessem sempre diante de um espelho. Vaidosos com o poder que tem. E sempre uma absoluta falta de empatia. Nenhuma consciência das pessoas simples ao redor.
 
Posso compreender a dificuldade deles em fazer amigos. E a facilidade em comprar alguns. É o que lhes resta. São frágeis, infantis e acostumadas a comprar tudo. E num mundo em que tudo se vende, em que tudo é mercadoria, acabamos sendo nós mesmos a mercadoria. O corpo, o sexo? Ah, isso já se compra faz tempo!
 
Faltava comprar — e vender — a amizade. Faltava.
 
É triste, mas não se pode esperar que as pessoas evoluam e aprendam todas no mesmo ritmo. Isso é parte da vida, alguns demoram.
 
Mas o que muito me intriga é, por quê, como tantas e tão diferentes pessoas nesse planeta, damos tanto poder aos mais estúpidos?

 

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