4.1 // EMPREGOCOLUNAS 

“A pobreza é forçada. É necessária para manter os homens dependentes ao sistema que nos explora”. Comentei na página de um amigo, diante de um vídeo revelando a revoltante destruição de barracas de ambulantes no centro de São Paulo pela força policial. Fui chamado de comunista. Um amigo, querendo me provocar. Respondi com aqueles KKKs que usamos pra indicar o riso. Depois completei: “Agora não adianta vir com agrado”.
 
Acho que por essa ele não esperava. Para alguns o adjetivo “comunista” é pejorativo. E não é pra menos, mal saímos de uma ditadura militar completamente doutrinada pela ideologia norte americana da década de 60, para quem os comunistas eram uma espécie de extraterrestres invasores, monstros “comedores de criancinhas”, uma espécie de baratas que deveriam ser exterminados a qualquer custo. Quando se trata de inventar monstros e vilões, os americanos são perfeitos.
 
Não vou perturbar vocês tratando dos motivos geopolíticos, da guerra fria, do medo norte americano da influência soviética na região, que motivou o governo norte americano a assustar os “estúpidos nativos do sul” com essas histórias de “perigo comunista”. Eles precisavam orientar os regimes ditatoriais que lhes lambiam as botas. Influência estrangeira? Não permitam isso em sua querida pátria! Quer dizer, só a norte americana, que é uma nação super “bem intencionada”. Não é, mister?
 
Alguém lembra das “armas de destruição em massa” que se atribuiu à Saddam Husseim no Iraque?  Até hoje estão procurando… Ah, era mentira? Tanto faz. Já invadiram e tomaram o petróleo mesmo. Deu certo. Pra eles.
 
Nunca fui filiado a partido político, de esquerda, direita, centro avante ou na zaga. E torço o nariz para a palavra “militância”. A palavra vem de “militar” e sou “civil” demais pra militar. Não conseguiria “enfrentar o inimigo” pelo “bem da Pátria”. Pátria pra mim são as pessoas comuns que a gente cruza nas ruas. Essas que nunca ganharam com nenhuma guerra em toda a história da humanidade. Não confundir “guerra” com “revolução” que é quando um povo se revolta contra um regime que o oprime e explora.
 
É uma ironia histórica que governos convoquem guerras inventando um inimigo, muitas vezes para impedir uma revolução que favoreça o povo. Funciona. Então acho que inventaram esse “inimigo comunista” para justificar a repressão militar. Não que não houvesse resistência política e até armada. E que tenham implorado alguma ajuda soviética.
 
Quem mais ajudaria quem ousava enfrentar o gigante norte americano? Mas essa ajuda, se houve, pouco serviu. Não estava nos planos dos soviéticos uma interferência significativa.
 
Houve então, não há porque negar, uma tentativa de confrontar o regime militar no Brasil. Mas foi feita por brasileiros. Um luta heroica e um tanto quixotesca.
 
Mas o “comunismo brasileiro” é outra coisa. Se isso existiu, existe ou existirá, certamente não cabe nos manuais norte americanos.
 
Aprendi na universidade que o sistema capitalista só foi possível com a expulsão dos camponeses ingleses da terra onde por séculos plantavam e se sustentavam. Sem ter como viver, já que a terra lhes foi tomada, foram obrigados a se deslocar para as cidades e só lhes restou vender a força de trabalho para sobreviver. Por um valor bem menor do que produziam, é claro. Essa estratégia possibilitou juntar dinheiro em quantidade suficiente para reinvestir no sistema e ampliá-lo. Virou uma bola de neve e gerou um sistema que para funcionar precisa da pobreza. Se as pessoas puderem se sustentar diretamente da terra ou de alguma outra forma, não trabalharão para os donos das fábricas, não por aqueles salários. Então é fundamental manter as pessoas dependentes. No nosso caso, é preciso mantê-las na pobreza. Podem “ganhar o pão de cada dia”. Mas apenas trabalhando para alguém. Se cada um puder dar o seu jeitinho, aí fica difícil! Imagine se as pessoas puderem voltar ao campo e plantar seu próprio sustento? Não, não, quem os grandes empreendimentos contratariam? Melhor manter a terra na mão de poucos. Muito poucos. Imagina então que as pessoas, sem emprego, possam se virar vendendo coisas nas ruas?
 
Ou que façam artesanato? Sem depender dos produtos fabricados? Não, isso não! É preciso impedir que as pessoas consigam o próprio sustento sem depender de vender-se para quem possa comprar sua força de trabalho! Ah, é verdade, jamais haverá empregos para todo mundo. Isso é impossível, mesmo em época de economia aquecida. Então é preciso reprimir, impedir que as pessoas se virem sozinhas. Fora com os camelôs e todas aquelas pessoas que tiram a beleza das ruas, a tranquilidade de nossas praias!
 
Isso gera mais pobreza, é claro. Mas, quem se importa?
 
Bem, se você se importa, talvez você seja também um tanto comunista.
 
No século XIX era difícil entender esse processo. O capitalismo mal começava e decifrá-lo dependia de um raciocínio complexo. Hoje, qualquer assalariado compreende perfeitamente que não recebe nem uma pequeníssima parte do valor da riqueza que realmente produz com seu trabalho. E que, se forem organizados e enfrentarem juntos os proprietários talvez tenham uma chance de ganhar um pouco mais. Mas quem hoje em dia acha que ganha menos do que devia? Você?
 
Bem, se você acha que deveria ganhar mais, talvez você seja um potencial comunista.
 
Mesmo que nem desconfie. Porque a coisa não está na bandeira, na cor da camisa, ou na filiação a um partido.
 
Dizem que comunista pra valer, só Jesus Cristo, que pregava umas idéias bem subversivas, vamos combinar. Que todos os homens são iguais, que devemos amar a todos e dividir o pão como irmãos. “Volta pra Cuba!” Gritariam alguns. É uma bobagem, ele nunca saiu de lá. Os cubanos são um povo muito cristão. Com ou sem Fidel.
 
 

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