COLUNASCRÔNICAS 

No playground do shopping uma mãe beija o filho, sorri amarelo para a moça que cuida das crianças e vai com a amiga para as compras. Parado ali, diante da piscina de bolinhas, o garoto observa a mãe partir. Olha para o brinquedo, desmotivado e imóvel. A moça o ajuda:
– É pra brincar enquanto sua mãe não vem.

Quanto mais vejo do Brasil de hoje, a desigualdade nas ruas, nossa vergonhosa política, a desorientação geral, os clamores por ódio, mais percebo o quanto precisamos aprender a brincar.

Pode parecer o oposto, que nossos problemas derivam desse nosso jeito pouco sério de ser, que nos falta pé no chão, que brincamos demais. Uma parte disso é verdade. Somos mesmo um povo brincalhão, alegre e afeito ao prazer e a diversão.
Mas há um engano aí. Nosso brincar é menos espontâneo do que se pensa. É quase todo dirigido, controlado, previsto e programado por outras instâncias. É quase imposto, uma obrigação.

Assim é o carnaval, que já virou investimento turístico. Assim são as novelas de televisão, que banalizam os dramas cotidianos enquanto vendem cosméticos e afins.

Assim é a diversão noturna, quase uma obrigação para provarmos nosso status social. Assim é o turismo que nos vende a ilusão de que o lugar distante, maquiado para nos agradar, é mesmo como a nossa casa. Assim é o futebol, incentivado maciçamente por milhões de reais em propaganda. Assim também os feriados, e o sagrado fim de semana de cada trabalhador, regado a muita cerveja e coisas mais.

Reparem que cada uma dessas alegres atividades um tanto diferentes nos oferecem todas um mesmo ingrediente fundamental, um atrativo nada secreto que nos é prometido: nós mesmos. Parece ridiculamente óbvio, mas precisamos de nós mesmos. Assim como precisamos estar com os outros, compartilhar, conversar, falar e ouvir, sentir, compartilhar. Precisamos de humanidade. Isso é algo indispensável à felicidade, ao crescimento saudável, ao entendimento da vida, à maturidade.

Mas para sermos humanos é preciso tempo. Tempo que não temos, ocupados como estamos com a produção nossa de cada dia, com o nosso sustento, com a garantia de nossas necessidades básicas e outras não tão básicas, mas que precisamos. Ou achamos que precisamos.

Pois há um consolo. Nesse maravilhoso mundo novo podemos comprar-nos de volta. Se tivermos dinheiro pra isso. Qualquer bom publicitário sabe que nossa humanidade ou, se preferirem, as relações humanas, são o único e principal atrativo, o mais importante “valor agregado” a todos os produtos, incluindo todas as ofertas de diversão e lazer. Famintos de nós e dos outros, compramos com gosto aqueles valiosos momentos em que, conforme a propaganda, somos mais felizes, mais livres e mais amados.

E sorrimos para a selfie enquanto o capital gira. E tudo seria maravilhoso se não sobrasse muita fome, em todos os sentidos da palavra. E muito vazio.

Porque talvez nos falte aprender a brincar de outro jeito, não como nos solicitam, como nos vendem. Mas como decidirmos, como queremos, como precisamos e com quem amamos.

Nos falta conceder à vida o tempo e as formas que a vida precisa.

A mãe retorna mais cedo ao playground, a loja não tinha o produto. O garoto pula a cerca correndo, quase atropelando a moça que cuida das crianças.
E, confirmando a lição, joga-se inteiro e largado nos braços da mãe.

 

 

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