COLUNASCRÔNICAS 

Na minha frente na fila do supermercado um homem quase da minha idade me conforta. Diz que a fila em que estamos é mais rápida que a fila dos idosos. E conclui:
“Velho é muito lerdo!”
“A gente chega lá” — respondo quase mecanicamente.
Foi o suficiente eu ter respondido, já se abriu como se fossemos amigos de infância. A fila, mesmo essa mais rápida, era bem extensa e, apesar de seu comentário sobre os velhinhos, parecia um bom sujeito. Já frequentei filas o suficiente pra saber que ficar de papo com um “velho-amigo-que-acabei-de-conhecer” ajuda a passar o tempo enquanto avançamos lentamente até o caixa.
Ele, ansioso e um tanto carente de atenção, puxou um assunto que eu não esperava. Contou-me que ia comprar uma arma, que aliás tudo iria melhorar quando um certo candidato virasse presidente.
“Vagabundo não vai ter chance, passo fogo!”
Eu podia ficar quieto, responder aquele “hum hum…” que usamos quando preferimos nem comentar algo que não concordamos. Já seria civilizado. Mas era um amigo de cinco minutos, mas um amigo, preferi ser sincero. Dei o melhor de mim:
“Voce vai perder a arma rapidinho!” Ele estacou sem entender. Continuei.
“O ladrão, quando souber que você tem uma arma, vai te buscar. É a ferramenta de trabalho dele. Dinheiro ele pega depois em qualquer lugar mas a arma, se ele souber que voce tem, ele te caça”.
“Atiro nele antes!”
“Se tiver chance. Sabendo que voce tem uma arma ele vai estar prevenido. Vai te abordar quando você nem imagina. Não tem como você saber quando ele vem.
“Eu tô sempre alerta!”
“Voce nem sabe quem ele é. Mas ele sabe quem é voce. Vai te sondar e voce nem vai saber. E te pegar, quando voce não estiver esperando.”
“Na minha casa não entra!”
Sabendo que você tem uma arma, entra sim. Voce pode se defender, talvez o acerte, mas as vantagens são todas dele.”
Ele já não disse nada. Acho que começava a entender. Continuei.
“Há vários jeitos dele conseguir a arma de voce. O bandido mais inteligente vai explorar o teu lado mais fraco, vai ameaçar a tua família, que para a maioria de nós, é o mais importante”.
Ele acena que sim com a cabeça.
“E não vai te dar chance de pedir ajuda ou chamar a polícia. Quando você ver, ele já estará na tua casa. Provavelmente não irá sozinho. Se você tiver sorte, se voltar logo pra casa, eles não terão tempo de torturar quem estiver lá pra saber onde você guarda a arma. Então se você deixa a arma em casa, é melhor que alguém saiba onde fica. Eles só querem a arma, pode ser loucos alucinados mas, se forem inteligente, não vão cometer um crime à toa. Pegam a arma e vão embora. Seria uma sorte.”
“…”
“Arma é um perigo. A única possibilidade de ela ser útil é se ninguém jamais souber que voce tem uma. E se voce for realmente bem treinado, se souber usá-la na hora do pânico. Os policiais são treinados para atirar com alguma precisão no meio de um tiroteio, aprendem a lidar com o medo que todo mundo tem. E também aprendem várias técnicas que só depois de muito treino eles conseguem executar com alguma chance de sucesso. Mesmo assim, às vezes falham. E o erro é fatal. A maioria dos que sacam uma arma sem treinamento morrem. Para pessoas comuns como nós, a arma é mais um perigo do que realmente uma ajuda”.
Ele arregalou os olhos.
“Tô te assustando? Desculpe, só estou sendo franco, mas pensa…”
Ele para, pensa mesmo. Depois me olha sério e sai com essa:
“Voce é policial?”
“Não, não sou. “
“Então é bandido? Eu rio e respondo:
“Sou apenas um bosta de um professor”.
“Parece que entende do assunto.”
“Eu só fico imaginando, tentando entender como pensa um bandido e prevendo o que pode acontecer.”
“Eu não quero saber dessa raça!”
“Eu também não. Mas pensa comigo, se eu fosse um bandido eu ia preferir que todo mundo tivesse uma arma.”
Ele continuou quieto pensando, eu continuei:
“Quanto mais gente andar armada mais gente morta em qualquer briga de trânsito. A polícia mal consegue dar conta da quantidade de assaltos que acontece hoje quando praticamente só os bandidos e a polícia andam armados. Imagina quando todo mundo sair atirando. Imagina a quantidade de B.O.? Não vai ter policial pra tanto. Vai ser como uma “cortina de fumaça”, tanto tiro por aí, de gente que só foi na onda, que acha que tá ajudando, vai esconder a verdadeira bandidagem. E depois essas armas vão acabar todas nas mãos dos bandidos. Eles são organizados. A cada cidadão que morrer com uma arma na mão vão recolhendo. Fora o que vão buscar como eu te disse. Quanto mais armas nas ruas, melhor pros bandidos. Vai ser o paraíso pra eles.”
“É, pensando assim…”
Não falei mais nada. Mas por dentro, fazia um discurso.
Se eu fosse um bandidão mesmo, eu me enfiava na política, sairia candidato pregando o ódio entre as pessoas. Aproveitaria que as pessoas estão revoltadas e pediria votos dizendo que bandido bom é bandido morto! Bandido pobre é claro. Porque nós os bandidos ricos ficaríamos numa boa, seríamos autoridades. Eu diria para as pessoas que política é uma coisa chata, que não vale a pena, não é coisa pra se discutir em família, não é coisas pras pessoas comuns, que deixassem comigo, pros especialistas, que eu resolveria tudo. Aliás, se eu fosse um bandido do tipo mafioso mesmo, do crime organizado, eu bancava os estudos de algum moleque esperto até a faculdade. Fazia dele advogado, delegado, juiz. Tudo no esquema. Quem sabe conseguisse botar um afilhado desses como Ministro do Supremo, já pensou? Se eu fosse bandido, eu não ia roubar casa de pobre, a casa dos humildes, nem o carrão importado, fala sério! Isso é coisa dos desesperados, famintos ou drogados. O que é um carrão importado quando você pode roubar um país inteiro? Se eu fosse um bandido eu chegava a presidente e… quer saber, eu nem queria ser presidente. Presidente sempre pode cair. Pra garantir mesmo e evitar qualquer ameaça ao esquema, pregava a volta da ditadura! Aí sim, tava garantido o reino eterno da ladroagem. E ai de quem abrisse a boca…
Enquanto eu alucinava a fila andou e cheguei ao caixa. Trombei de cara com a realidade.
Paguei a minha conta por aquelas mercadorias com alto imposto embutido.
Paguei com o que restou do meu modesto salário também descontado de tantos impostos.
Paguei pra aprender que o ladrão não sou eu, nem a moça do caixa, nem o meu amigo de cinco minutos.
Paguei e fui pra casa, com as sacolas leves e a carteira vazia.
Fui para casa, preocupado seriamente com o candidato bandido.

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