COLUNASCRÔNICAS 

Nas mesas do bar na avenida da praia os casais namoram. Ou deveriam, a paisagem convida. O movimento na calçada, os atletas na praia, a alegria e futilidade de um fim de tarde em Santos. Decido ficar também, beber uma boa cerveja sem pressa, sem culpa. Escolho a melhor mesa, com vista perfeita da avenida e de todo o bar. O garçom vem logo, mas fecha a cara quando entende que estou sozinho. Afinal, ocupei uma mesa que ele queria cheia talvez esperando uma gorjeta maior. Não digo nada, ele tem suas razões, mas penso: “Eu também a queria cheia, meu amigo. É sempre melhor beber com alguém. Mas já que é assim, me deixa olhar a paisagem, ver como vai isso que chamam de mundo”.

Na calçada as pessoas passam ligeiras, saem do trabalho, vão para a noite. Vão com a pressa de quem vive na cidade onde nada começa na hora.

No bar há muitos casais. Eu, sozinho como um alienígena numa terra estranha, armo minha melhor cara de paisagem, fixo o olhar no horizonte e finjo que não estou. O tempo passa e me esquecem. Sozinho no bar fico pensando, o que sei eu do amor? Socraticamente, dessa arte reconheço apenas minha monumental ignorância. Ainda assim, reparo algo estranho nos casais. A atmosfera é fria, pouca conversa, olhares revezados entre a rua e o celular. Sentam próximos mas isolados, como namoro velho, de quem perdeu o suspense pela presença do outro, casais de relacionamentos traçados, previstos, sem mais a insegurança, sem a hesitação, sem a paixão do olhar. Casais que perderam o melhor.

Bebo a cerveja e no terceiro pensamento triste quase derrubo o copo quando ela passa correndo fugindo de um dos garçons, ligeira até a calçada. Passa por trás de mim, bem rente. Sinto forte seu cheiro de chorume, de lixo, de esgoto. Da calçada, a três metros de onde estou, já fora do território do bar, ela desafia o garçom, rebola, levanta os braços, aponta e ri. Negra, cabelo pixaim, magra, musculosa, imunda, quase desnuda em trapos sujos. E ri, ri muito, ria alto, de um jeito alegre, feliz, um jeito agudo de bruxa de desenho animado. O garçom, irritado, tenta agarrá-la, ela se esquiva. Furioso, vai agredi-la mas desiste, contido pelo aviso dos colegas de que estavam gravando.

A atenção do bar era toda dela. Olham disfarçados, com fingida indiferença, indignados. Mais do que eu, a mendiga era um personagem fora da hora e de lugar, que desmanchava o cenário esperado, a tarde planejada, o lazer comprado daquele fim de tarde. E não mostrava sofrimento, não se ressentia de sua miséria, não lamentava o que não tinha. Como Arlequim da comédia, apreciava nosso ridículo espetáculo de tristes pagantes de uma cadeira onde se finge platéia mas se quer palco, de onde ostentamos nossa forjada felicidade, nossa pretensa superioridade. Dançava, ameaçava baixar as calças, ria alto, debochava.

E como se generosamente entendesse o momento, chamou seu companheiro. Ele aproximou-se, ainda mais sujo, bêbado e maltrapilho. Abraçou-a forte, envolveu-a nos braços e para que todos vissem, ali na calçada em frente ao bar, numa pose que reconheci de um quadro de museu, beijou-a apaixonadamente, de língua, com vontade, com uma violenta e carinhosa paixão que as namoradas nas mesas, diante de seus copos de vinho e petiscos caros, de boca aberta, invejaram.
Pedi a conta e corri esperando encontrar aquela pessoa que – eu ainda não havia confessado – me faz sonhar ao luar.

 

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