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- INVIS√ćVEL

Amor pela dramaturgia

Depois da estreia, em Bras√≠lia, do espet√°culo ‚ÄúEnquanto estamos juntos‚ÄĚ, que aconteceu neste √ļltimo s√°bado (7), no teatro Fashion Mall, em S√£o Conrado, o ator e diretor Bernardo Felinto, comemora o sucesso do in√≠cio da curta temporada no Rio, que vai at√© o dia 22 de mar√ßo, aos s√°bados, √†s 21h e domingos, √†s 20h.

Ele, que interpretou o personagem Kaara, em Orf√£os da Terra (Rede Globo), concedeu uma entrevista para a Mais Mais Mais sobre a sua carreira. Confira!

Marcelo Bragança

Bernardo, quando começou a sua relação com as artes? Desde criança?

Come√ßou quando eu tinha 15 anos. Ouviu no r√°dio uma propaganda de um curso de teatro em Bras√≠lia e achei interessante. Assisti √† primeira aula, para conhecer, e nunca mais sa√≠. Desde ent√£o, soube que era isso que queria fazer como profiss√£o. Foi autom√°tico, instant√Ęneo, inevit√°vel mesmo. Ao mesmo tempo que comecei a fazer teatro, comecei a ver pe√ßas da Cia de Com√©dia ¬īOs Melhores do Mundo¬ī, que tamb√©m √© de Bras√≠lia. Para mim, esse fato foi de grande inspira√ß√£o. Por ironia do destino, atualmente atuo em espet√°culos com Os Melhores do Mundo em diversos estados do Brasil, substituindo um dos atores fixos do grupo.

Você é de Brasília. Como é o cenário artístico nesta região?

Bras√≠lia √© uma cidade que ferve em termos de cultura. Contudo, como na maior parte do Brasil e principalmente no eixo Rio-S√£o Paulo, as pol√≠ticas p√ļblicas s√£o poucas ou inexistentes. No Rio mesmo, os artistas estavam praticamente sem nenhum edital de cultura, em 2019. Em Bras√≠lia, existe um programa chamado FAC (Fundo de apoio √† cultura) que quase foi suspenso no ano passado e gra√ßas a mobiliza√ß√£o dos artistas, conseguiu se manter. Politicamente, o pa√≠s vive um momento tenebroso em rela√ß√£o √† cultura, que na minha opini√£o, √© muito desvalorizada, diferentes de pa√≠ses de primeiro mundo. Digo que Bras√≠lia ferve culturalmente, pois mesmo sem incentivo, sem pol√≠ticas p√ļblicas suficientes, os artistas n√£o param de se produzir e se colocar comercialmente na pra√ßa, seja na √°rea do teatro, m√ļsica ou artes pl√°sticas. √Č uma cidade nova, mas tenho esperan√ßa de que ir√° crescer muito na √°rea da cultura.

Recentemente, voc√™ interpretou o vil√£o Kaara em √ďrf√£os da Terra (Rede Globo). Conte-nos sobre este processo.

Eu adoro fazer televis√£o. √Č um ve√≠culo onde n√£o se pode perder tempo, √© uma ind√ļstria de conte√ļdo e gosto desse tipo de press√£o. Eu venho do teatro, ent√£o estou acostumado a esse estado de prontid√£o. Tecnicamente, √© realmente outra linguagem com rela√ß√£o ao teatro. Eu recebi o convite e tive que preparar o personagem em dois dias. No meu primeiro dia de grava√ß√£o, conheci o elenco e os diretores, mas foi uma experi√™ncia maravilhosa. Gosto muito de fazer televis√£o e saber do alcance que essa m√≠dia leva. √Č sempre bom para o ator fazer televis√£o. Eu sempre defendo que o ator deve antes passar pelo teatro, acho que como base t√©cnica √© fundamental. Como eu tenho praticamente 20 anos de carreira como ator de teatro, estou sempre buscando novos trabalhos na TV e no cinema.

Certamente voc√™ chegou a ser reconhecido na rua. Como lida com o ass√©dio do p√ļblico?

O ve√≠culo que mais me deu visibilidade, mais do que a Globo, foi o YouTube. Eu tenho um canal de humor, ¬īS√≥ 1 Minuto¬ī, onde t√≠nhamos mais audi√™ncia que alguns canais de televis√£o abertos. Com essa plataforma, eu era reconhecido constantemente, principalmente em Bras√≠lia, sede do canal, e onde a maioria dos v√≠deos se passavam. Chegamos a ter 30 milh√Ķes de visualiza√ß√Ķes e 200 mil inscritos. O canal est√° parado no momento, mas vamos voltar, em breve. Fui reconhecido at√© fora do Brasil. Foi uma experi√™ncia diferente. J√° fui reconhecido por trabalhos na Globo, publicidade na TV, pe√ßas, cinema…Recentemente fiz uma participa√ß√£o no filme ¬®Minha m√£e √© uma pe√ßa 3¬® e tive um reconhecimento alt√≠ssimo do grande p√ļblico, foi bem bacana.

Cursou Artes C√™nicas na Universidade de Bras√≠lia, √© formado pela New York Film Academy, tem mais de 25 pe√ßas de teatro… √Č ator, diretor, roteirista. Como consegue conciliar todas estas fun√ß√Ķes?

Eu sou ator e essa √© a minha profiss√£o. As outras fun√ß√Ķes, eu exer√ßo como suporte para o meu trabalho de ator. Agora, depois de anos escrevendo, estou come√ßando a aceitar a ideia de que tamb√©m sou roteirista, mas n√£o tenho forma√ß√£o nessa √°rea, escrevo por instinto e por necessidade. Preciso contar aquela hist√≥ria, √© um processo terap√™utico. Gosto de atuar nos meus pr√≥prios projetos, reproduzir aquela obra como autor e ator. Al√©m dessas citadas acima, ainda sou produtor cultural e professor de teatro. O artista deve ser, antes de mais nada, empreendedor, a instabilidade da carreira exige isso.

‚ÄúEu adoro fazer televis√£o. √Č um ve√≠culo onde n√£o se pode perder tempo, √© uma ind√ļstria de conte√ļdo e gosto desse tipo de press√£o‚ÄĚ.

Atualmente, voc√™ est√° com o espet√°culo ‚ÄúEnquanto estamos juntos‚ÄĚ, que tem curta temporada no Rio. A estreia, inclusive, foi ontem, n√©? No elenco, al√©m da atua√ß√£o, voc√™ assina o roteiro, ao lado de Isabelle Borges, que, inclusive, tamb√©m atua. ¬†a atriz Rebeca Reis e o ator e diretor Bernardo Felinto, que assina o roteiro, ao lado de Isabelle Borges. O casal se conhece em um bar, se apaixona e inicia um romance com todos os detalhes e problemas que um relacionamento oferece. Voc√™s tiveram inspira√ß√£o em alguma situa√ß√£o real… de onde surgiu a ideia da pe√ßa?

Sim, a estreia foi ontem e maravilhosa. Eu escrevi a pe√ßa junto com a Isabelle Borges. No elenco, al√©m de mim, est√° a atriz Rebeca Reis. Eu sempre falo que a minha pr√≥pria vida √© um material gigante para produ√ß√£o de roteiros. Eu, como todo ator, sou muito observador. Observo hist√≥rias pr√≥ximas, leio bastante e sou curioso com assuntos que me atraem de alguma forma. Relacionamento √© um tema de suma import√Ęncia para mim, gosto de falar e discutir sobre isso. Praticamente todas as minhas pe√ßas e filmes tratam desse tema. Fora isso, tento misturar fic√ß√£o dentro do contexto da obra, tornar aquilo ainda mais instigante e assim, preencher a pe√ßa ou filme…Todo escritor coloca um pouco de si mesmo nas suas obras, √© praticamente imposs√≠vel fugir disso. A mesma coisa com o processo de atua√ß√£o, de alguma forma, em larga ou pequena medida, sou eu ali. As minhas constru√ß√Ķes de roteiro e personagem s√£o baseadas na minha experi√™ncia de vida, trajet√≥ria e observa√ß√£o. Por isso dizem que os melhores escritores e atores s√£o mais velhos de idade, porque j√° viveram mais e t√™m uma bagagem emocional completamente diferente de um jovem ator, de 20 anos. Eu, hoje com 34, sou um artista e uma pessoa completamente diferente de quatro, cinco anos atr√°s… Essa experi√™ncia √© muito v√°lida para o artista.

 

Um dos grandes diferenciais da pe√ßa, √© quando cada expectador da plateia √© transformado em terapeuta e os personagens come√ßam a relatar as suas maiores ang√ļstias. Al√©m disso, voc√™s fazem pequenos mon√≥logos, expondo as suas verdadeiras opini√Ķes sobre relacionamento. Como tem sido esta experi√™ncia com o p√ļblico?

O teatro √© uma arte viva, que s√≥ pode ser sentida naquele momento e pronto. N√£o h√° como voltar, reviver aquele tempo/espa√ßo. Cada apresenta√ß√£o √© √ļnica. Por isso que o teatro, quando filmado, raramente funciona com a mesma qualidade. No teatro, existe uma express√£o chamada ¬®quarta parede¬®. Quando falamos que quebramos a ¬®quarta parede¬®, significa que estamos ali aceitando e olhando nos olhos da plateia, percebendo que estamos acompanhados. A pe√ßa n√£o quebra a ¬®quarta parede¬®. N√≥s falamos como uma forma de depoimento e de desabafo, um pedido de ajuda, mesmo que solit√°rio. A plateia √© diferente a cada apresenta√ß√£o e a pe√ßa √© diferente a cada dia. √Č sempre uma experi√™ncia diferente, tanto para o espectador, quanto para os atores. Fazer esse espet√°culo tem sido um prazer, provoca questionamentos importantes e, de fato, uma reflex√£o, com doses de humor. A troca de energia com a plateia tem sido fundamental.

‚ÄúEnquanto estamos juntos‚ÄĚ tamb√©m virou curta-metragem e ser√° lan√ßado em mar√ßo, em Bras√≠lia. Em breve, estar√° em grandes festivais no Brasil e no exterior. Quais s√£o as suas expectativas?

Quero repetir com o curta ¬īEnquanto Estamos Juntos¬ī, o que aconteceu com o meu primeiro filme, ¬īMe deixe n√£o ser¬ī. Lan√ßamos, em Bras√≠lia, e depois passou por muitos festivais nacionais e internacionais e venceu dois pr√™mios de melhor roteiro. Foi uma experi√™ncia inesquec√≠vel. Quero que o curta ¬īEnquanto estamos juntos¬ī percorra um caminho semelhante. √Č um filme mais inteligente que o primeiro, com mais reviravoltas e suspense. J√° vi o primeiro corte da montagem e adorei.¬†

Acredita que as redes sociais ou outras plataformas, como o Netflix, por exemplo, possam tomar o lugar do que conhecemos hoje por ‚Äútelevis√£o‚ÄĚ?

Acredito que a televis√£o sempre estar√° presente, talvez de outra forma, mas √© algo muito pr√≥ximo da nossa vida cotidiana. Por√©m, n√£o podemos negar que a televis√£o hoje se modernizou no estilo ¬®on demand¬®. Principalmente entre os jovens, plataformas como a Netflix s√£o muito interessantes. O fato de voc√™ poder assistir ao seu programa ou filme favorito, a hora que quiser, provoca liberdade. Hoje em dia, quase ningu√©m espera a hora do seu programa favorito em frente √† TV, as pessoas sabem que podem consumir aquele produto na hora que bem entenderem, atrav√©s do aplicativo. A arte deve acompanhar essa evolu√ß√£o. Assim como a TV, o teatro tamb√©m nunca vai acabar, embora esteja vivendo uma profunda crise. Creio que cada ve√≠culo ter√° sempre o seu lugar, mas √© importante buscar sempre inova√ß√Ķes e meios de trazer o p√ļblico para perto de voc√™. Isso tamb√©m √© papel do artista.