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Enterro de verbas culturais nesta quarta à tarde em São Paulo

Lincoln-Spada

 

 

 

Um cortejo fúnebre será realizado nesta quarta-feira, às 13h30, na Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elíseos, São Paulo). Não, não morreu nenhum veterano teatral. O enterro é do corte no orçamento estadual para a Cultura. A pasta já parecia natimorta, equivalendo a 0,4% do orçamento geral – R$ 0,9 bilhão do R$ 204,6 bi do Estado. Ainda por cima, precisa perder 10%. No Governo Federal, a situação também não é boa: estima-se a perda de até um terço do bebê que mal viu o ano.

Por São Paulo ser o Estado mais volumoso e com maior verba, claro que as consequências da navalha na carne são mais drásticas. E já anuncio esse apocalipse para que ninguém lamente o leite derramado. Os patrimônios públicos tão defendidos pelo secretário estadual, o museólogo Marcelo Araújo, já se trincam. Perdendo 15% da verba, a Pinacoteca do Estado demitirá 29 funcionários. Sem 10%, o Museu Afro Brasil desligará outros 25. Ovacionado noutro ano, o Museu da Imagem e do Som tem menos 13 colaboradores. Já o Paço das Artes da Capital apagou cinco nomes das folhas de pagamento. Os dois últimos centros, aliás, terão seus expedientes reduzidos.

O que também desanda é o carro-chefe na capacitação de artistas: as Oficinas Culturais da Associação Poiesis. Das 21 unidades, seis fecham as portas este mês: em Araçatuba, Araraquara, Bauru, Campinas, São João da Boa Vista e a última na Capital. Há coordenadores dizendo que outras três em São Paulo também apagarão as luzes. E embora a instituição e o governo garantam manter cursos nestes municípios, difícil crer em não ter corte de funcionários e a mesma programação intensa de atividades.

Outro profundo corte na garganta dos produtores e artistas é a redução da verba do Programa de Ação Cultural – ProAC, principal meio de financiamento do governo às artes. Para o ProAC ICMS (modelo de renúncia fiscal), serão destinados R$ 121,7 milhões – em 2014 foram R$ 135,2 mi. O valor será liberado para captação no dia 30 de março. Já os recursos para editais serão mantidos em R$ 40 milhões. Ao todo, menos 10%.

Lincoln, mas por que inaugurar esta coluna com tanto azedume? É que convido você, caro leitor, para toda semana acompanhar nesta maré para poucos peixes, que há um cardume criativo de políticas, produtores e artistas que pensam e repensam a cultura de nosso País. Mesmo com bolsos vazios, tem uma gente inquieta com bons projetos para transformar vidas. Enquanto isso, que venha o cortejo.

*Lincoln Spada é formado como jornalista, ator, realizador audiovisual e pós-graduando em gestão cultural. Nesta coluna, tratará sobre questões de políticas públicas para a cultura.
Atual chefe de departamento da Secretaria da Cultura de São Vicente e assessor do Curta Santos e do Fescete – Festival de Cenas Teatrais, é ex-repórter de A Tribuna (Galeria) e do Expresso Popular (Variedades) e já colaborou na comunicação do Santos Jazz Festival, Festival Santista de Teatro, Sansex, Tarrafa Literária, Cine Roxy e Realejo Livros. Mantém o blog: http://revistarelevo.wordpress.com/