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Por Lucas Leite

Marcelo Adriano pode ser um daqueles exemplos de pessoas que se dedicam ao extremo por uma causa maior. Ele deixou seu emprego em São Paulo, que já não o fazia feliz, para buscar dar uma contribuição à população. Foi quando começou a desenvolver, fazendo amizades com carrinheiros e moradores de ruas, o projeto da ONG Sem Fronteira.

Marcelo buscava entender porque a sociedade não valorizava o trabalho dessas pessoas, quando decidiu criar o Projeto Reciclar, voltado para a coleta de material reciclável. Além da vertente ambiental, o projeto é também social. Afinal, os moradores de rua e dependentes químicos se reúnem no galpão da ONG para fazer a divisão do material e, posteriormente, vendê-los e terem dividido entre eles o valor arrecadado com o material.

Em uma entrevista concedida à equipe da Revista Mais Santos, Marcelo, presidente da  ONG Sem Fronteira, revelou as dificuldades enfrentadas pela organização. A principal delas é a falta de apoio do poder público.

Além das dificuldades, o principal responsável pela organização não-governamental falou sobre a importância dessas organizações, projetos para o futuro da ONG e a sua opinião sobre as florestas terem dias contados.

Confira abaixo a entrevista completa:

Quais são as principais responsabilidades de ser presidente de uma ONG?

São várias né? Porque quando você acerta, todo mundo aplaude, mas o dia que você errar, tudo aquilo que você acertou não é levado em conta. Então é uma responsabilidade muito grande, até porque a gente lida com duas vertentes, uma ambiental e a outra social. Então dentro dessa atividade que a gente faz, trabalha. Essas duas andam de mão dada, não tem como separar elas.

Qual a importância de uma ONG ambiental?

A importância de uma ONG seja qualquer ONG é defender a causa  a qual ela se propõe. Então, ela tem essa importância muito grande porque a gente sabe que o governo não tem, a mão do governo não alcança, não é o suficiente. Não só importante uma ONG, mas como várias entidades no nosso país e se não fossem hoje as entidades que fazem o trabalho que fazem, a coisa seria bem pior do que ainda é hoje. Então toda entidade tem sua importância, seu papel fundamental dentro da sociedade. Então é importantíssimo todas as entidades com as suas demandas.

Você acredita que as florestas pode estar com os dias contados? Por que?

Então, essa questão das florestas, eu acredito que sim. Eu estive no Amazonas e é muita coisa que acontece por lá, que pouco chega aqui pra nós, e quando chega, chega só a metade da história, então acredito sim que só vamos nos dar conta disso realmente, quando nós tivermos uma consciência mais ampla, e um governo mais responsável com essas questões. A gente sabe que tem muito pecuarista lá pro lado do Amazonas, que eles não estão nem aí, não estão nem um pouco preocupado com a floresta, destrói mesmo para poder transformar em pasto e todos nós pagamos o preço. Sejam eles com a ambição deles, ou nós com a nossa luta. Então aquilo que vai acontecer com o pobre vai acontecer com o rico também. É bem complicado.

O porque desses dias contados é por essa falta de consciência, falta de preocupação a qual o capitalismo toma conta de tudo, e o que importa é o dinheiro e não o bem estar. Então é uma situação bem complicada, e pra você ter uma ideia, eu vi em uma reportagem que lá no Haiti, como não tem gás, o pessoal acabou com a floresta, cortando as árvores para transformar em carvão. Conclusão, Haiti é o Haiti de hoje por conta de que no passado, sem consciência nenhuma, eles fizeram o que fizeram. Além da importância da floresta, que acaba sendo o ar condicionado do planeta, as pessoas tem que se atentar a isso. É uma luta muito grande.

Grandes empresas se mostram mais preocupadas com o meio ambiente desde a produção de seus produtos, isso de alguma forma pode afetar de forma positiva para a preservação do meio?

Olha, a preocupação das grandes empresas em relação ao seus produtos, eu acho que ela começa agora, não por conta delas terem consciência, mas é por saber que as pessoas estão tomando consciência da importância da reciclagem, da destinação consciente, do consumo consciente e aí o mercado tem que acompanhar, né? Mas eu não acredito que o mercado tenha essa consciência, não vamos ser radical, nem todas, né? Mas uma grande maioria delas eu acho que não tem essa consciência. Pra você ter ideia, nós prestávamos serviço aqui para a Odebrecht e ela foi a primeira a cortar um contrato de 300 reais que pagavam pra nós por mês pra coletar o material reciclado. Nós temos aqui outra empresa que a gente faz coleta pra eles, gratuita, porque eles acham que não tem que pagar pra gente recolher o material, sendo que o material reciclado hoje não paga despesa. Eu sempre digo que é importante a reciclagem, mas infelizmente a reciclagem não se sustenta. A latinha no processo de reciclagem, ela é o produto mais caro. Todo mundo quer a latinha porque ela custa 5 reais o quilo. Agora o restante do material ninguém quer. O vidro, pra você ter ideia, eu vendo vidro a 5 centavos, copinho plástico a 5 centavos. Os outros materiais variam de 10 a 15 centavos. Então você vê, com questão de centavos você não consegue manter uma despesa de uma operação. Nós fazemos aqui a coleta na Lojas Americanas, gratuita, porque nós cobramos 100 reais por mês, com 12 viagens, que seriam 12 coletas, e mesmo assim eles não aceitaram. Se você pegar 100 e dividir por 12 você vai ver quanto que vai dar, e mesmo assim, sendo uma empresa grande não aceitou, então eu acho um pouco de balela essa questão de grandes empresas preocupadas com a questão ambiental e não vi isso ainda de muitas empresas, pelo menos aqui, na Baixada Santista, alguns terminais chegaram até a fazer cotação com a gente e tudo, da coleta do material deles e nenhum deles aceitou pagar. Eles acham que porque eles estão nos dando, estão fazendo um favor pra nós, mas esquecem que eles tem que fazer a parte deles. Então é bem essa questão de consciência. Isso aí está um pouco distante dessas empresas.

A ONG tem apoio de alguém ou de alguma empresa?

O  apoio que temos de empresas é a de prestação de serviços. Nós vamos lá, coletamos, e a empresa nos remunera, e nós emitimos um certificado de destinação desse material, e eu faço um laudo que eu levo lá na secretaria de meio ambiente, o fiscal assina e eu entrego para a empresa. Isso é lei, a lei 952 de Santos diz isso, que quando você produz acima de 120kg, você tem que fazer a destinação desse material por conta própria ou contrata uma empresa, ou uma cooperativa, ou uma ONG, que vai destinar seu material reciclável. Você não pode mais deixar na rua porque a Prefeitura não vai recolher mais esse material. E aí, é shopping, uma serie de empresas que produz acima de 120kg e ainda tem que fazer a destinação. A quantidade de empresas que a gente tem não é o suficiente para os gastos que a gente tem. Nós teríamos que aumentar essa quantidade, porque muitas ainda tem essa visão de que eu estou te dando o material, e você vai ganhar dinheiro com isso. Eles não entendem que é obrigação deles fazer a destinação e quando nos contratam como uma prestadora de serviços,  nós somos como qualquer outra empresa que tem que receber pelo serviço que presta, porque a gente tem despesa: tem combustível, veículo, tem que pagar IPVA, tem uma serie de coisas, e que o material coletado não paga. Então, para poder custear isso a gente cobra por essas coletas, que não é nada absurdo, a gente tem contrato que varia de 150 reais, até 500 reais, então você vê que não é nada tão caro para algumas empresas. Sendo que nós fazemos o trabalho de coleta do material e depois a parte social, nós trabalhamos com morador de rua, dependente químico, então toda essa galera que vive à margem da sociedade, é o que a gente tem lá trabalhando no galpão, gerando trabalho e renda para essa população. Então, além da parte da coleta e destinação, a ONG tem uma parte importantíssima, que é a de atender a população que precisa de apoio, ser uma porta pra eles e reinseri-los na sociedade, voltar a ter uma vida normal, tranquila e muitos que passaram por lá, conseguiram outros empregos, com uma remuneração bem maior, sendo reconhecido e tudo. Então, esse termina sendo o nosso papel, além do ambiental, transformar vidas.

Quais os projetos em andamento?

Então o projeto que temos em andamento é o das recicletas, porque a prefeitura não quer ver mais ninguém puxando carroça, eu até compactuo com isso, da questão. Não sou contra o carroceiro, mas sim contra a carroça, acho que ninguém nasceu para puxar carroça. Aí nós entramos com o projeto das recicletas, que funciona aqui no centro. Pessoal vai com uma bicicleta adaptada, que nós mesmos somos os idealizadores das bicicletas, e elas fazem a coleta do material reciclável no centro dos comerciantes. Então é um baita avanço, uma outra visão, uma coisa que ficou legal, fantástica, foi aprovado 101% esse projeto. E estamos com outro, que vai entrar agora em dezembro, que é a parte da coleta do material reciclável na praia, nós vamos atuar durante 4 meses fazendo o trabalho de conscientização com os banhistas, turistas, todo mundo que frequenta a praia. Nós vamos recolher esse material e fazer a destinação dele. Porque muitas ações que acontecem na praia, muito lindo, maravilhoso, mas tá, qual é a destinação do material? Colocar dentro de um saco e mandar para o aterro isso não é, isso não fecha o ciclo. Fechar o ciclo é recolher o material, destinar para uma cooperativa, e ela destina para a indústria. Aí sim, e é exatamente esse trabalho que estaremos fazendo, o da destinação e coleta, aí sim se fecha o ciclo.

Quais os projetos para o futuro?

Projeto futuro que temos é buscar junto às escolas, população, uma doação de pet, de garrafa pet, para que nós pudéssemos estar vendendo para comprar um ônibus, onde vamos equipar com computadores para atender a comunidade carente aqui de Santos e região. Promovendo para as crianças uma oportunidade e aprendizagem de informática.

Quais as principais dificuldades que a ONG enfrenta?

As principais dificuldades que a gente tem, como qualquer outra entidade séria, é a parte financeira. A gente gasta com material de limpeza, porque para ter uma ideia, a gente está com 80 cooperados, então são 80 pessoas que usam banheiro, tomam café, almoçam. Então, tem uma despesa bem grande, além do aluguel que a gente paga, que é bem puxado para nós. Pagamos 10 mil reais de aluguel, e temos varias outras despesas. Tem combustível de caminhão, manutenção do caminhão, que quando quebra é um gasto tremendo, o último conserto foi 4 mil reais, então a gente acaba tendo bastante despesa pra poder operacionalizar isso. É uniforme, bota, luva, a questão do EPI também tem um gasto muito grande. EPI e alimentação, hoje são necessidades muito grandes da ONG.


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