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Santos / Cotidiano

Encontros improv√°veis

Minha esposa Beth me chama de candidato a vereador. Minha filha Mariana reclama como conhe√ßo tanta gente. Shopping, supermercado, feira livre, praia, show de rock, est√°dio de futebol, teatro, sempre encontro algu√©m para dar ‚Äúoi, tudo bem, beleza?‚ÄĚ

N√£o significa ser popzinho, como diz minha filha ou minha sobrinha Rafaela. Encontrar pessoas √© fruto de 14 anos como professor universit√°rio, com m√©dia de 300 alunos ao ano. Quase 25 anos como jornalista, passando por diversas empresas, de todos os tamanhos. Uma vida inteira de peladas de final de semana, √†s quintas, √†s segundas e assim por diante. √Č normal encontrar as pessoas em lugares movimentados. E acredito, mod√©stia √† parte, que a resposta decorre de tratar as pessoas com educa√ß√£o e respeito.

Passei na vida por dois encontros improváveis. O primeiro, menos surpreendente, foi dar de cara com um colega de redação numa praia em Fortaleza, no Ceará. Sequer sabia que o sujeito estava de férias.

O mais curioso, por√©m, foi me sentar atr√°s da cadeira de um dos meus patr√Ķes, num teatro da Broadway, em Nova Iorque. Preferi ficar em sil√™ncio. Vai que ele resolve me arrumar trabalho nos Estados Unidos.

Nesta √ļltima semana do ano, cruzei com duas pessoas, que proporcionaram experi√™ncias diferentes. Na segunda-feira (26), √†s dez da noite, seguia com meus filhos para a farm√°cia quando encontrei com Jos√© Gabriel, na esquina da avenida Pedro Lessa com o canal 5. 

Não o via há dez anos. Ele foi meu aluno, orientei o TCC dele, testemunhei com orgulho o estudante superar de longe o professor. Ele fez pós-graduação em Portugal, onde se tornou mestre e doutor. Hoje, é professor por lá. Um acadêmico em nível de excelência, usando chinelos de dedo, camiseta e bermuda a uma quadra da minha casa.

Ao lado da mãe dele, conversamos por mais de meia hora. Descobri que a mãe mora a três quadras do meu prédio. Colocamos a conversa em dia sobre universidade e Jornalismo. Espero revê-lo.

Na noite seguinte, fui ao shopping com meus filhos para que tomassem um sorvete. Entrei na livraria para ver se haviam promo√ß√Ķes. Quando sa√≠amos de l√°, encontrei Elton com suas duas filhas, Sophia e Sara.

Elton foi meu professor no primeiro ano de Psicologia. A proximidade de idade e de visão de mundo nos tornou amigos. Já éramos colegas de universidade, o que ficou mais fácil, mas a vida acelerada sempre adiou aquela cerveja, lembrada quase sempre às 22h30, após um dia inteiro de aulas.

Come√ßamos a bater papo. Eles iriam ao Carrefour comprar umas tranqueiras para jantar em casa. N√≥s, √† casa do meu pai pegar uma bicicleta. Seguimos juntos. Paramos na entrada do supermercado e continuamos a conversa, que envolvia Natal solit√°rio, viagens de r√©veillon, passagens a√©reas mais baratas, visto para os Estados Unidos.  

Quando olhamos para o lado, Mari, de 14 anos, falava com Sophia, de 13, como se estudassem juntas desde o ber√ß√°rio. Sara, de 8, dialogava com Vini, de 7, sobre games, youtubers e desenhos animados. Virei para Elton e disse: ‚Äúprecisamos dar de comer pra essa meninada.‚ÄĚ

A ideia foi aceita por unanimidade. Sara sugeriu comida japonesa. Aos 8 anos, ela nos levaria √† fal√™ncia numa noite. Sugeri o para√≠so das crian√ßas: por√ß√£o de batata frita no bar Diferente, campe√£o neste quesito gastron√īmico.

Foram mais duas horas e meia de um encontro improv√°vel. Duas por√ß√Ķes de batatas fritas, quatro litros de Coca-Cola, cerveja, peda√ßos de pizza, daquelas maravilhosas a la padaria, o card√°pio perfeito para f√©rias, crian√ßas, calor e rel√≥gios quebrados.

Mari e Sophia tagarelavam e mexiam em seus celulares. Sara e Vini terminaram a noite no bar, correndo em volta da mesa, assoprando pelos canudos que um dia serviram para refrigerante.  

Eu e Elton administramos a bagunça, enquanto dialogávamos sobre trabalho, família, Santa Catarina (terra dele!), viagens minhas e até futebol.

Quando o gás acabou, caminhamos juntos por mais sete quadras até que as rotas para casa nos separassem. As redes sociais farão o trabalho para o qual nasceram: nos aproximar ainda mais. Os seis!

Mais do que fechar para balan√ßo, o final de ano √© o melhor momento para encontrar pessoas que n√£o costumam esbarrar em voc√™ na rua. Temos tempo para recome√ßar nossa hist√≥ria com elas, dividir e improvisar um encontro, que brotou sem expectativas, sem fantasias, sem avalia√ß√Ķes pr√©vias.

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