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Santos / Cotidiano

O cl√°ssico violento

Eu estava sem adversários. Passava as férias na casa da minha avó e levei comigo o estrelão Рapelido do campo, da marca Estrela Рe alguns times de futebol de botão.

Depois de alguns dias, eu estava cansado de jogar contra mim mesmo. √Č como jogar xadrez contra si pr√≥prio. A diferen√ßa – talvez – esteja no movimento do jogador. No xadrez, voc√™ roda o tabuleiro. No bot√£o, voc√™ precisa dar a volta no campo, f√°cil quando ele mede menos de um metro de comprimento. A semelhan√ßa √© que, com o tempo, a probabilidade de empate se torna real, diante do jogador que conhece bem os truques do advers√°rio interno. Zero a zero √© a morte em vida do futebol.

Eu jogava no quarto de costura da minha av√≥ Norvina. Ali, convers√°vamos de vez em quando e o barulho da m√°quina me distra√≠a. √Äs vezes, ela contava com a presen√ßa da Beatriz, a assistente uruguaia que era uma simpatia e educa√ß√£o √ļnicas.

Numa das manhãs, minha avó deve ter percebido meu tédio diante do estrelão. Imagino eu, pois ela parou o serviço e se ofereceu para jogar uma partida comigo. Por que não, vó?

Escolhemos os times, com jogadores de plástico, comprados em banca de jornal. Eu tinha dezenas de equipes, pois trocava o adesivo original Рem cartela Рpor decalques de uma papelaria. Ainda os guardo numa caixa de madeira, feita pelo meu pai, onde ficam os 12 grandes brasileiros, em um mini-armário para pregos, parafusos e afins, onde estão os times médios e pequenos brasileiros, e um pote de sorvete, onde permanecem os clubes estrangeiros.

Fiquei com o Corinthians. Minha avó Рnão me lembro o motivo Рoptou pelo Santos. Expliquei as regras básicas mais os movimentos com a palheta para usar os jogadores. No par ou ímpar, ganhei o direito de começar a partida.

Assim que dei a sa√≠da, parti para o ataque. Dois ou tr√™s toques na bola e estava na intermedi√°ria advers√°ria. Pedi para chutar com o habitual “t√° l√°?”

Minha av√≥ me olhou com espanto, como se perguntasse: “O qu√™?”

‚ÄĒ V√≥, t√° l√° significa que quero chutar. Arruma o goleiro e tenta defender.

Ela concordou com a cabeça, arrumou o goleiro e me deu autorização. Sócrates, um dos que me fizeram escolher o Corinthians como time de coração, ajeitou o corpo e bateu, sem defesa para o goleiro do Santos, na época, Marola. 1 a 0.

Sorri com o gol marcado, mas n√£o fiz festa. Na petul√Ęncia de crian√ßa, enxergava minha av√≥ como caf√© com leite. A goleada era quest√£o de tempo e, antes disso, n√£o podia me esquecer que estava ali para ensin√°-la. Era uma companhia, claro, mas n√£o me lembro se pensei neste fator motivacional para a realiza√ß√£o do cl√°ssico.

Ajudei-a a arrumar os jogadores para dar a saída e reiniciar a partida. Ela pegou errado na palheta e corrigi o movimento. Repassei o que deveria ser feito e alertei para a dosagem da força. Um movimento forte e a bola Рna verdade, um disco semelhante ao de hóquei Рestaria perdida pela linha de fundo.

Minha av√≥ tentou uma vez. O jogador do Santos n√£o se mexeu. Pedi que ela fizesse de novo. Nada do sujeito sair do lugar. “V√≥, outra vez. Tudo bem!”

Ela encostou a palheta novamente no atacante santista Рcujo nome é melhor manter em segredo Рe fez o movimento. A precisão e a força nos dedos de costureira foram fatais. Crac!!!! O jogador do Santos quebrou no meio. Partiu-se em dois. A bola permaneceu intacta.

Eu e minha avó nos olhamos sem saber o que fazer. Ambos surpresos. Ambos chocados diante da violência do futebol, que fizera a primeira vítima naquele apartamento do Gonzaga.

Eu não disse palavra. Ela se desculpou e se levantou. Deu uma justificativa qualquer para retornar ao trabalho. Eu aceitei, guardei os times, apanhei outros e voltei para meu próprio campeonato.

Minha av√≥ me deu incont√°veis times de bot√£o na vida. Mas, como advers√°ria, n√≥s nunca nos demos a honra de um jogo de volta, ainda que o cl√°ssico entre Santos e Corinthians tenha durado um chute a gol e um atleta sem condi√ß√Ķes de voltar a campo.

Anos depois, o time do Santos foi substituído pelo São Paulo, de uniforme branco e adesivo novo. De vez em quando, o tricolor entra em campo para enfrentar o Santos, da minha filha Mariana. Até hoje, atua com um homem a menos. Anos atrás, preguiça de contratar alguém. Hoje, uma lembrança afetiva da oponente que nunca tive.

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