Por Anderson Firmino
Da Revista Mais Santos
A voz poderosa, a interpretação visceral. A saudade da maior cantora do Brasil bate mais forte neste mês. Pois o próximo dia 19 será o marco dos 40 anos da morte de Elis Regina Carvalho Costa. Nascida em Porto Alegre, ela rapidamente ganhou o Brasil, aquele do bêbado e da equilibrista. E até hoje influencia novas gerações de cantoras que bebem da fonte mais cristalina de talento que já existiu em nossa música.
Quem viveu aquele dia de 1982 não o esquece. Naquela manhã, Elis acabou desacordada em seu apartamento, derrubada após a trági- ca combinação de álcool e cocaÃna. Encontrada pelo então namorado, o empresário Samuel McDowell, foi levada para o hospital, mas não resistiu. Restou a dor para um PaÃs.
“Eu estava trabalhando em São Vicente. Quando eu soube, voltei para casa. Larguei o trampo. Era uma coisa que eu podia fazer: E foi, sim, muito ruimâ€, lembra o músico Julinho Bittencourt.
Tamanha tristeza, misturada com incredulidade, se justificava. Aos 36 anos, Elis havia assinado contrato com a Som Livre e trabalhava em um novo repertório. A última entrevista, ao programa Jogo da Verdade, da TV Cultura, mostrava uma artista plena, inteligente e antenada com seu tempo. Era uma perda irreparável – medida pela quantidade de pessoas que foram se despedir da Pimentinha, tanto no Teatro Bandeirantes, onde o corpo foi velado, como pelas ruas da Capital, em meio a um cortejo.
“Ela tinha muita raça, né? Cantava muito e tinha como princÃpio lançar compositores. A nossa música seria outra não fosse elaâ€, define Julinho.
Em suas memórias, um show épico no ginásio do Regatas Santista. E outro que não pôde assistir. “Ela fez Falso Brilhante no Cine Caiçara. Eu não consegui ingresso, lotou. Mesmo assim, eu fui até a porta ver se entrava, mas não rolou. Isso eu devia ter uns 17 anos, talvez em 1978â€, narra. Para ele, a melhor interpretação de Elis é de Morro Velho, de Milton Nascimento, seguida de Atrás da Porta e Arrastão.
Vai-Vai. Para sempre na lembrança
Didi Gomes tem uma relação antiga com a obra de Elis Regina. Remonta à infância da cantora, que tinha apenas seis anos quando a Pimentinha morreu. “Comecei a cantar aos oito anos. Lembro como se fosse ontem, vendo o Jornal Nacional, onde passava a trechos de suas músicas. Fiquei hipnotizada quando mostraram um pedaço de Alô, Alô, Marciano, em que ela está numa mesa comendo bife e com aquele ar de deboche. Eu ri, achei legal e passei a me ligar nelaâ€, conta.
No primeiro disco que ouviu de Elis, Didi se encantou com Ãguas de Março – faz aniversário no mesmo mês – e com Madalena – nome de sua mãe. Mas as razões para tanto amor, segundo ela, não são tão fáceis de explicar. Mas dá para visualizar.
“Não sei explicar o tamanho do amor que tenho por Elis. Até hoje, apesar de algumas pessoas dizerem que meu timbre parece o dela, eu ainda discordo. Ela é única para mim. É minha mãe musical. Nunca pensei em chegar campeã numa escola de samba como a Vai-Vai em 2015, tampouco fazer um tributo dedicado a ela percorrendo o paÃs, o Simplesmente Elis“, descreve Didi Gomes.
No sambódromo do Anhembi, ela fez parte do time de canto da escola do Bixiga, que homenageou Elis com o enredo Simplesmente Elis – A Fábula de Uma Voz na Transversal do Tempo. Uma jornada, segundo ela, inesquecÃvel – como tudo o que envolve a cantora.
“Em 2015, conheci todos os filhos de Elis. Maria Rita foi muito doce, muito educada comigo. O Pedro Mariano, de quem foquei fã, vou a todos os shows – mas ele nem sabe que eu canto. E o João (Marcelo Bôscoli) é simplesmente show de bola. É um presente para qualquer cantora que é fã dela poder ter o privilégio de conhecer seus filhos. Não tem jeito: é como se a conhecesseâ€, narra Didi, que lembra de outra coincidência: Elis foi sepultada no dia do aniversário da sua mãe. “Agradeço aos meus pais por me trazerem Elisâ€, resume.
Pimenta com Laranja
Rafa Laranja também tem Elis Regina como inspiração. “Nasci numa casa muito musical e as músicas interpretadas pela Elis Regina não faltavam na trilha sonoraâ€, conta a cantora, que dá a receita de tamanha admiração.
“Com certeza é uma grande referência. Não somente pelo talento visceral, por suas interpretações únicas, por toda emoção, mas também pelo repertório, pelo domÃnio de palco, pela personalidade, por ser mulher, mãe… Para mim, Elis Regina foi uma das maiores artistas que este Brasil já viu e ouviuâ€, resume.
Rafa já pôde homenagear Elis em algumas ocasiões. Uma delas foi com o show Em Cantos de Elis. A mais recente foi no evento Elis 75, este último numa superprodução acompanhada pela Orquestra de Metais e Percussão de Cubatão.
“Foi impossÃvel conter a emoção! Digo que cantar é Elis é muita responsabilidade, mas ao mesmo tempo se faz necessário. É uma oportunidade e um aprendizado fantástico. Elis sempre terá um lugar no meu coração e sempre será uma inspiraçãoâ€, resume. Agora, e sempre, Elis será uma estrela.
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