Da Agência Só Esportes
Por Anderson Firmino
A Terra parou por alguns segundos há exatos 50 anos, completados nesta terça-feira (19). Num mesmo instante, todos os olhares se dirigiam para os 9m15 que separavam um craque da eternidade. O Atleta do Século 20 tinha, enfim, mil motivos para celebrar. Pelé, o maior jogador de todos os tempos, fazia, de pênalti o seu milésimo gol.
Naquela noite, no Maracanã, o Santos enfrentava o Vasco pela Taça de Prata, competição então organizada pela Confederação Brasileira do Desporto (CBD, atual CBF). O placar estava em 1 a 1, quando aos 32 minutos do segundo tempo, Pelé recebeu lançamento de Clodoaldo. Então, o camisa 10 do Peixe trombou com o zagueiro Fernando e foi ao chão. Pênalti assinalado pelo árbitro pernambucano Manoel Amaro de Lima. E agora?
Pelé reconheceu, em entrevista de 2012 aos jornalistas Anderson Firmino e Ted Sartori, nervosismo na hora de marcar pela milésima vez. Uma sensação que já durava uns quinze dias. “Tive mais ansiedade no milésimo gol do que na despedida do futebol”, resumiu.
Pudera: a marca esperada insistia em não sair, causando situações curiosas nos jogos que antecederam aquele 19 de novembro. “Jogamos suas partidas na Paraíba e na Bahia. Na Paraíba, machucou o goleiro, fui para o gol, e até disseram que foi armação minha (risos). Na Bahia, todo mundo dizia ‘É hoje!’. Isso foi me deixando mais ansioso, mais nervoso. Lá, foi o mais engraçado, tabelei com o Coutinho, passei pelo beque, mais ou menos no bico da pequena área. Então, o goleiro saiu, passei por ele, e o lateral direito veio e salvou o gol. Levou a maior vaia (risos)”, lembrava o Rei.
De Fusca para a memória
O dia era chuvoso no Rio. Um desafio a mais para dois radialistas santistas, de profissão e de coração. O narrador Walter Dias e o repórter Leonardo Augusto, pela Rádio Cacique AM, embarcaram no sonho de cobrir aquele jogo que se tornaria especial. Luxo? Nenhum. Apenas a ambição de fazer o melhor trabalho, a bordo do Fusca de Leonardo, como relata seo Walter.
“Fomos a campo, vendemos a publicidade para cobrir a despesa de viagem e a linha da Embratel. Em seguida, consultamos direção da rádio, ver se estava interessada em fazer o jogo. Não haveria prejuízo, poderia bater elas por elas. A rádio permitiu, nos deu uma verba para a gasolina, e uma para lanche – hotel, não”.
Ele prossegue: “Saímos daqui por volta das 7 horas da manhã, chegamos ao Rio umas 16h30. Fomos direto para o Maracanã. E chovia naquele dia, embora não tão forte. No Maracanã, não havia cabines de rádio para emissoras do interior, só Rio e São Paulo . Eu liguei os aparelhos atrás das cabines de rádio, onde a visão também era boa. E pedi um guarda-chuva emprestado, para cobrir a aparelhagem. O Leonardo tinha uma ponta de linha no campo e o ligou. E fizemos a cobertura do jogo. Éramos a única rádio de Santos lá. E demos sorte de ter acompanhado esse momento histórico”.

Na marca fatal, a insegurança real
Pelé admitia a ansiedade. Com a bola na marca fatal, ele cobraria o penal no lugar do capitão Carlos Alberto Torres. O Capita reuniu o time no meio-campo, à espera do desfecho da “novela”.
Mas, e se Pelé errasse a cobrança? “Não haveria ninguém para pegar o rebote”, brincou Pelé, em entrevista ao Globoespote.com, em 2009. E foi por pouco: o goleiro argentino Andrada se esticou todo, mas a bola morreu no fundo da rede. Era a consagração universal (e numérica) do maior jogador da história.
Pelé foi carregado em triunfo pelo goleiro Aguinaldo. Cercado por um batalhão de repórteres, dedicou seu feito às crianças pobres, uma preocupação recorrente há, pelo menos 50 anos. Foi taxado de demagogo, mas continua atual.
A escolha de Deus
Naquele momento do gol mil, Pelé já era bicampeão mundial de clubes (com o Santos) e com a Seleção. Já era aclamado como Rei, e há muito havia superado seu desejo inicial, de ser, ao menos, melhor que o pai, Dondinho.
Daquele momento, o jornalista Armando Nogueira disse, em crônica, que talvez fosse um desígnio de Deus o pênalti, para que todos pudessem acompanha o gol histórico. A opção dos céus, em um dado momento, chegou a desagradar o Rei que, inteligente, reconsiderou.
“Foi tudo bonito, mas eu lamentei um pouco que tivesse sido de pênalti. Podia ter sido de bicicleta, como o gol de placa (risos). Mas, pensando bem, às vezes você é injusto, ingrato, porque recebe um prêmio e ainda acha que poderia ter sido melhor. Tem é que agradecer a Deus sempre”. Quem há de contestar o Rei?