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COLUNISTAS ///

Depois da ressaca

Existe vida depois da ressaca?

Parece que ela nunca vai acabar e veio para nos derrubar por completo, como se nosso mundo particular tivesse seu Armageddon após a noite – ou as noites e dias desregrados de Carnaval – abastecidas por bebidas hiper-alcoólicas que judiam de nosso fígado.

Ninguém pensa nas consequências da cachaça antes de entornar tudo com nome exótico. Depois, todos juram que nunca mais vão beber, fazem promessas, juram de pés juntos. Enchemos a cara como se não houvesse amanhã, até que ele chega e nos cobra uma conta cara, com pagamento inadiável.

Tontura, dores de cabeça, de barriga, de consciência. Olhamos o celular para ver se não enviamos mensagens para quem deveríamos esquecer de uma vez por todas. Buscamos em algum arquivo da memória a reconstrução de todos os passos para saber se não passamos vergonha em meio ao estado ébrio.

É a última vez, não bebo mais. Basta sentir o cheiro de balada, barzinho, álcool, cerveja, acúmulo de pessoas e pronto: lá vamos nós para mais uma bebedeira homérica, mesmo sabendo que a “marvada” não é a cachaça, mas a ressaca.

Enviei essa coluna com a antecedência de quem tem autoconhecimento suficiente para saber que o Carnaval não me deixa levantar nessa quarta-feira de cinzas, pois tenho a sensação de estar sendo cremado.

Certamente me acabei de tanta cerveja – meu verdadeiro amor – e agora não me aguento de tanta dor de cabeça, mais especificamente acima da sobrancelha.  Em algum momento dessa bebedeira insana em um estado longe daqui, alguém me ofereceu vodca e eu recusei. Depois de tantas latinhas e um inchaço que me fazia ir o tempo todo ao banheiro descarregar urina, aceitei um copo, com energético.

Mais um e outro. Não existe elegância sem uma lata ou um copo na mão.

Quando falava árabe fluente, caí para o uísque, esqueci a timidez e os pudores. Cinco dias seguidos, a mesma rotina.

Afinal, era Carnaval, tudo foi festa.

Nesse momento me sinto mal, especialmente pela dificuldade gigantesca em vomitar. Li em algum lugar que forçar o vômito pode perfurar o esôfago e isso me amedronta em minha hipocondria de sempre.

Feito um vampiro, mal consigo olhar para a claridade do sol e parece mesmo que tudo vai acabar hoje, sinto o girar da Terra a cada vez que me levanto dessa cama longe de casa. E eu só quero minha cama e que essa ressaca passe.

Espero que exista vida após as consequências da bebedeira. Tomei todas como se não houvesse amanhã. Mas houve.