Por Bárbara Farias
“Eu tinha 21 anos, era soldado. Naquele dia, eu estava andando na rua quando a bomba caiu no centro, a 1.300 metros de mim. De repente um barulho muito forte. Eu caÃ, levantei. A frente de uma casa, na hora, ‘quebrou’. Vi uma senhora gritando: ‘redenção!’. Entrei numa casa, tinha uma mãe e uma criança, que eu salvei. Já se passaram 74 anos e essa pessoa ainda é viva. Penso que tem muita sorteâ€. Esse relato é do senhor Takashi Morita. Ainda hoje, aos 95 anos, ele se lembra do horror que vivenciou naquele 6 de agosto de 1945, quando os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, matando cerca de 140 mil pessoas.
Takashi Morita sobreviveu ao bombardeio, mas não saiu ileso. Mais tarde, desenvolveria um câncer no sangue, uma espécie de leucemia, pois foi exposto à “chuva negra†(chuva radioativa causada pela bomba atômica). Porém, venceu, também, esta batalha.
Entretanto, Morita driblou a morte outras vezes. Ele nasceu morto e foi ressuscitado pelo pai e sobreviveu também ao grande bombardeio de Tóquio quando pertencia ao pelotão especial do exército imperial Japonês. Após a guerra, se tornou relojoeiro, profissão que aprendeu ainda jovem. Casou, migrou para o Brasil doente, com a esposa e seus dois filhos pequenos, sem conhecer o idioma e sem dinheiro. Aqui empreendeu e prosperou se tornando um grande empresário. Hoje luta pela paz mundial no Brasil e ao redor do mundo.
Morita contou sua história em pé, apoiado em uma bengala, a um grupo de jornalistas, eu incluÃda, no Parque do Emissário Submarino, no José Menino, em Santos, na última sexta-feira (9), durante a solenidade do Dia da Luta pelo Desarmamento Nuclear. A cerimônia é realizada há nove anos pela Prefeitura de Santos com a Associação Japonesa de Santos, em memória das vÃtimas dos bombardeiros atômicos a Hiroshima e Nagasaki. A data é celebrada no dia 9 de agosto, dia do bombardeio atômico a Nagasaki quando aproximadamente 70 mil foram mortas, durante a Segunda Guerra Mundial, e faz parte do Calendário Oficial do MunicÃpio, por meio de lei municipal.
No rosto sereno de Morita não há rugas, apenas as sardas entregavam sua idade avançada. Talvez, estar vivo e lúcido aos 95 anos de idade signifique uma vitória sobre a barbárie, um trunfo da vida sobre a morte. Talvez, sua missão seja contar ao mundo, 74 anos depois, sobre este terrÃvel episódio da história da humanidade, propagando a mensagem de que o único caminho para o progresso do homem é a paz. Paz que ele encontrou no Brasil, o paÃs que chama de paraÃso, após ter conhecido o inferno.
Takashi Morita mora em São Paulo, fala a lÃngua portuguesa e tem disposição de sobra para dar o seu testemunho do horror em Hiroshima ao mundo. Atualmente, faz isso na peça de teatro documentário “Os três sobreviventes de Hiroshimaâ€, dirigida por Rogério Nagai, que terá única apresentação em Santos, no próximo dia 31, à s 20 horas, no Teatro Coliseu, no Centro Histórico. No palco, Morita conta sua história juntamente com outros dois sobreviventes de Hiroshima, Kunihiko Bonkohara e Junko Watanabe, que tinham 5 e 2 anos, respectivamente, no dia do ataque, em 1945.
Veja a seguir o depoimento de Takashi Morita neste vÃdeo:
Junko Watanabe
Em 6 de agosto de 1945, a garotinha Junko Watanabe, de apenas dois anos de idade, brincava com o irmão na frente de um templo quando foi atingida pela chuva negra, a chuva radioativa causada pela bomba de Hiroshima. Por ser ainda uma criança de colo, Junko não tem memória do que aconteceu naquele fatÃdico dia e sua famÃlia nunca tocou no assunto. Quando tinha 38 anos, seu pai revelou a verdade e descobriu que era uma sobrevivente.
Embora não se lembrasse de nada do que passou, algo dentro dela ainda reverberava. Veio para o Brasil sozinha com 24 anos, aqui se casou e criou seus filhos. Somente após os 60 anos, ao se aposentar, conseguiu finalmente abraçar a luta: conheceu o trabalho da Associação Hibakusha Brasil pela Paz e obteve mais conhecimento sobre os horrores da bomba atômica e suas consequências.
Junko Watanabe realiza palestras pelo Brasil e fez parte do projeto Peace Boat, viajando pelo mundo, contando a sua história e divulgando a cultura de paz, para que esses horrores nunca mais aconteçam.
Junko também esteve em Santos, na última sexta-feira (9), acompanhada de Morita e Bonkohara.
Veja o relato de Junko Watanabe neste vÃdeo:
Kunihiko Bonkohara
Kunihiko Bonkohara também esteve em Santos na última sexta-feira (9) e contou suas memórias daquele fatÃdico dia. Ele também encontrou no Brasil a oportunidade de reconstruir sua vida. Kunihiko Bonkohara tinha apenas 5 anos de idade quando estava no escritório do pai que, ao ver o clarão, o empurrou para debaixo de uma escrivaninha e o protegeu com o corpo. Os dois foram feridos com estilhaços de vidro. O escritório estava a apenas 2 km do epicentro da explosão da bomba, em Hiroshima. Voltaram para casa, que estava destruÃda, e foram atingidos pela chuva negra. A mãe e a irmã mais velha, que haviam sido convocadas para trabalhar no centro da cidade, morreram e seus corpos nunca foram localizados.
Bonkohara era para estar junto delas. Ele cresceu com a saúde muito frágil. Aos 11 anos teve tuberculose, na adolescência sofria os efeitos da radiação, como feridas pelo corpo, tontura, fraqueza e constantes desmaios. Aos 20 anos foi diagnosticado com um problema cardÃaco, achou que viveria somente até os 30, no máximo. Depois desse diagnóstico, veio para o Brasil. Trabalhou na lavoura, depois foi radialista e se tornou empresário. Nuca se esqueceu dos horrores que a bomba provocou em sua famÃlia. Hoje, aos 79 anos, luta pela paz em viagens pelo Brasil e pelo mundo.
Veja o relato de Kunihiko Bonkohara nos dois vÃdeos a seguir:
Peça de teatro e palestra
No próximo dia 16, à s 20h, Junko Watanabe e Kunihiko Bonkohara vão proferir palestra gratuita na Universidade Santa CecÃlia (Rua Cesário Mota, 8 – auditório do Bloco E – 4º andar) ao lado de Rogério Nagai, idealizador do projeto Sobreviventes pela Paz e diretor da peça “Os Três Sobreviventes de Hiroshimaâ€. A palestra será seguida de bate-papo com o público, com mediação do professor Alfredo Cordella e venda do livro “A última mensagem de Hiroshima”, escrito por Takashi Morita. Inscrições podem ser feitas pela internet: https://www.sympla.com.br/palestra-em-santos-os-sobreviventes-de-hiroshima-no-brasil-e-a-luta-pela-paz_567004.
Em 31 de agosto, à s 20h, os sobreviventes protagonizarão no Teatro Coliseu a peça “Os Três Sobreviventes de Hiroshimaâ€. Eles dão os seus depoimentos sobre aquele momento e como sobreviveram. Ainda que trate de uma tragédia, a peça leva a uma reflexão sobre a paz, com uma forte mensagem de resiliência, perdão e superação.
A apresentação terá a participação do grupo musical Kyowa Daiko, de São Vicente. Ingressos custam R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia entrada) e podem ser adquiridos via Internet (https://www.sympla.com.br/os-tres-sobreviventes-de-hiroshima-em-santos__559588), no dia da apresentação ou na Associação Japonesa de Santos (Rua Paraná, 129 – Vila Mathias) de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h e sábado, das 8h às 14h (pagamento com dinheiro).