
Em tempos de plataformas de streaming, catálogos digitais e consumo cada vez mais individualizado de filmes, uma iniciativa realizada em Santos, no litoral de São Paulo, propõe um reencontro com a experiência coletiva de assistir a clássicos do cinema na tela grande. O CineZen Clube, projeto do Instituto CineZen Cultural, promove sessões mensais gratuitas na Cinemateca de Santos, combinando exibições de obras históricas, contextualização, debates, vídeos especialmente produzidos para os encontros, distribuição de pipoca e cafezinho, sorteios de brindes e acesso a conteúdos complementares por meio de QR Code.
A proposta vai além de simplesmente exibir filmes antigos. O objetivo é aproximar diferentes gerações de obras fundamentais da cinematografia mundial, recuperar títulos que muitas vezes estão ausentes das plataformas digitais e proporcionar uma experiência de formação de público, convivência e valorização da memória audiovisual.
O projeto já demonstrou a existência de um público interessado nesse tipo de programação. As três sessões anteriores, dedicadas a “Casablanca”, “Gilda” e “Infâmia”, tiveram todos os lugares preenchidos na Cinemateca de Santos, com procura superior à capacidade do espaço e formação de listas de espera.
A próxima sessão acontece no sábado, 17 de outubro, às 20h, com a exibição de “Não Podes Comprar Meu Amor” (The Americanization of Emily, 1964), dirigido por Arthur Hiller, escrito por Paddy Chayefsky e estrelado por Julie Andrews e James Garner. A participação é gratuita, mediante inscrição prévia e doação de 1 kg de alimento não perecível destinado ao CENIN, entidade santista que presta apoio a pacientes oncológicos de baixa renda.
Quando os clássicos desaparecem das telas e dos catálogos digitais
Durante décadas, as locadoras de vídeo, as coleções de VHS, DVD e Blu-ray e as sessões especiais de cinema desempenharam papel importante na descoberta e preservação de filmes de diferentes épocas. A possibilidade de encontrar obras de grandes diretores, produções pouco conhecidas e clássicos de cinematografias variadas fazia parte da formação cultural de muitos espectadores.
Com o avanço da distribuição digital e a popularização do streaming, o acesso ao audiovisual passou por uma transformação profunda. Embora as plataformas ofereçam milhares de títulos e tenham facilitado o consumo doméstico, seus catálogos são constantemente modificados por questões comerciais, contratos de licenciamento e estratégias de mercado.
Nesse cenário, muitos clássicos, inclusive produções premiadas e obras fundamentais da história do cinema, não estão disponíveis nos principais serviços de assinatura. Outros aparecem apenas temporariamente ou ficam restritos a plataformas especializadas, dificultando o contato de novos públicos com parte importante da memória cinematográfica.
Paralelamente, a mídia física perdeu espaço no mercado, com o fechamento de locadoras, a redução de lançamentos em DVD e Blu-ray e a diminuição dos pontos de venda. Colecionadores, pesquisadores, cinéfilos e instituições culturais passaram a desempenhar papel ainda mais importante na circulação de determinados títulos.
É nesse contexto que o CineZen Clube desenvolve seu trabalho. Por meio de uma programação cuidadosamente selecionada, a iniciativa recupera filmes que marcaram gerações, apresenta obras menos conhecidas e procura despertar a curiosidade do público pela diversidade da história do cinema.
A escolha dos títulos não se limita aos filmes mais populares. A proposta também contempla obras que merecem ser redescobertas, produções de diferentes períodos e cinematografias e trabalhos que contribuíram para transformações artísticas, estéticas e culturais da sétima arte.
Outro diferencial é a contextualização. Antes de cada sessão, o público assiste a vídeos produzidos especialmente para apresentar informações sobre o filme, seus realizadores, atores, bastidores e o período histórico em que foi realizado. Também são disponibilizados conteúdos complementares acessíveis por QR Code, ampliando as possibilidades de pesquisa e aprofundamento.
Depois das exibições, os encontros estimulam a troca de impressões, permitindo que espectadores de diferentes idades compartilhem experiências, memórias e interpretações sobre as obras.
A pipoca gratuita, o cafezinho e os sorteios de brindes complementam a programação, contribuindo para transformar as sessões em encontros culturais acolhedores e acessíveis.
Três clássicos, três sessões esgotadas
O interesse pela proposta ficou evidente nas sessões dedicadas a três produções fundamentais da história de Hollywood.
“Casablanca”, lançado em 1942 e dirigido por Michael Curtiz, é um dos grandes clássicos do cinema americano. Estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, combina romance, drama e o contexto da Segunda Guerra Mundial, tendo conquistado três Oscars, incluindo Melhor Filme.
“Gilda”, dirigido por Charles Vidor e lançado em 1946, apresentou ao público uma das personagens femininas mais emblemáticas do cinema clássico, interpretada por Rita Hayworth. A produção, também estrelada por Glenn Ford, tornou-se referência do cinema noir e permanece associada à imagem de uma das grandes estrelas da Era de Ouro de Hollywood.
Já “Infâmia” (The Children’s Hour, 1961), dirigido por William Wyler e protagonizado por Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, aborda os efeitos devastadores de uma acusação sobre a vida de duas professoras. O longa é lembrado pela força dramática e pela abordagem de temas considerados controversos para o cinema americano daquele período.
As três sessões registraram lotação esgotada, demonstrando que, mesmo diante da enorme oferta contemporânea de entretenimento, existe espaço para iniciativas dedicadas à história do cinema e à apreciação coletiva de obras clássicas.
A resposta do público também reforça uma das premissas do CineZen Clube: assistir a um filme na tela grande, acompanhado de outras pessoas, representa uma experiência diferente daquela proporcionada pelo consumo doméstico.

Julie Andrews e James Garner protagonizam a sessão de outubro
A próxima atração do CineZen Clube será “Não Podes Comprar Meu Amor”, comédia dramática e sátira de guerra lançada em 1964.
Dirigido por Arthur Hiller, com roteiro de Paddy Chayefsky, o filme acompanha um oficial americano durante a Segunda Guerra Mundial e sua relação com uma jovem britânica. A narrativa combina romance, humor e reflexões sobre a guerra, questionando a glorificação do heroísmo e os interesses existentes por trás dos discursos patrióticos.
A produção apresenta Julie Andrews em um papel diferente daqueles que a tornaram mundialmente conhecida em musicais como “Mary Poppins” e “A Noviça Rebelde”. Ao lado de James Garner, a atriz participa de uma obra que mistura crítica social, ironia e sensibilidade.
O longa recebeu duas indicações ao Oscar e permanece como um título menos lembrado pelo grande público, apesar de sua importância na filmografia dos envolvidos.
Para enriquecer a sessão, o CineZen Clube receberá Waldemar Lopes, crítico, pesquisador, colecionador e considerado um dos maiores especialistas brasileiros na trajetória de Julie Andrews.
Waldemar já participou de iniciativas relacionadas à atriz, incluindo uma exposição especial realizada durante o Santos Film Fest, para a qual cedeu parte de seu acervo pessoal.
Após a exibição, ele participará de um bate-papo com André Azenha, curador do CineZen Clube, abordando a trajetória da artista, os bastidores da produção, curiosidades e a importância do filme dentro do cinema americano dos anos 1960.
Antes da projeção, o público acompanhará um vídeo exclusivo de contextualização. A programação também terá pipoca gratuita, cafezinho e sorteios de brindes.
A Cinemateca de Santos abrirá às 19h30, com início da sessão às 20h.
As inscrições são gratuitas, mas os interessados devem preencher corretamente o formulário e aguardar uma confirmação personalizada da organização. A resposta automática do Google Forms não representa garantia de vaga.
Também é solicitada a doação de 1 kg de alimento não perecível, destinado ao CENIN, instituição que realiza trabalho de assistência a pacientes oncológicos de baixa renda.
Cinema brasileiro e Rocky encerram a programação de 2026
Depois da sessão de outubro, o CineZen Clube continuará sua programação com duas produções de grande importância histórica.
No dia 7 de novembro, será exibido “O Pagador de Promessas” (1962), dirigido por Anselmo Duarte e baseado na obra de Dias Gomes.
Estrelado por Leonardo Villar, o filme narra a trajetória de Zé do Burro, um homem que tenta cumprir uma promessa religiosa carregando uma cruz até uma igreja em Salvador, enfrentando conflitos de ordem social, religiosa e institucional.
A produção entrou para a história ao conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, tornando-se o primeiro e, até hoje, único longa-metragem brasileiro vencedor da principal premiação do festival francês.
Além do reconhecimento internacional, o longa permanece como uma das obras mais importantes do cinema nacional, abordando questões relacionadas à religiosidade popular, intolerância, desigualdade e relações de poder.
Em 19 de dezembro, o projeto promove o CineZen Natalino, que celebrará os 50 anos de “Rocky: Um Lutador”, lançado em 1976.
Escrito e protagonizado por Sylvester Stallone, sob direção de John G. Avildsen, o filme acompanha a trajetória de Rocky Balboa, um boxeador desconhecido da Filadélfia que recebe a oportunidade de disputar o título mundial dos pesos-pesados.
A produção se transformou em fenômeno cultural, recebeu dez indicações ao Oscar e conquistou três estatuetas, incluindo Melhor Filme, além de dar origem a uma das franquias mais populares da história do cinema.
A sessão especial de dezembro também integrará as comemorações natalinas do CineZen Clube.
As inscrições para as sessões seguintes serão anunciadas pelos canais oficiais do projeto, respeitando a capacidade da Cinemateca de Santos.
CineZen: cultura, memória, formação e acesso ao audiovisual
O CineZen Clube integra o conjunto de iniciativas desenvolvidas pelo Instituto CineZen Cultural, organização dirigida por André Azenha e Paula Azenha, que atua na produção cultural, difusão cinematográfica, formação de público, preservação da memória e valorização da produção artística de Santos e da Baixada Santista.
Com uma trajetória de quase duas décadas, o Instituto desenvolve projetos em diferentes linguagens e formatos, reunindo exibições de filmes, festivais, mostras, oficinas, palestras, publicações, ações solidárias e atividades voltadas à democratização do acesso à cultura.
Entre suas principais realizações está o Santos Film Fest – Festival de Cinema de Santos, que chegou à 12ª edição em agosto de 2026.
O festival reuniu mais de 120 filmes, recebidos de diferentes regiões do Brasil e de outros países, em uma programação distribuída por 16 espaços da cidade ao longo de nove dias. A iniciativa se consolidou como a maior vitrine da produção audiovisual da Baixada Santista e do litoral paulista, reunindo mostras competitivas, exibições especiais, homenagens, debates, atividades formativas e programação descentralizada.
O trabalho recebeu importante reconhecimento em 2026, quando o Santos Film Fest venceu o Prêmio Governador do Estado para a Cultura, na categoria Audiovisual, referente à edição 2025.
Além do festival, o Instituto coordena o Cine Comunidade Santos, dedicado à realização de sessões cinematográficas em diferentes territórios da cidade, aproximando o audiovisual de comunidades e públicos que nem sempre têm acesso regular às salas de cinema.
Outra iniciativa é o Culturalmente Santista – Fórum Cultural e Criativo de Santos, que promove encontros, debates e articulações entre agentes culturais, artistas, produtores e representantes de diferentes segmentos da economia criativa.
Os três projetos — Santos Film Fest, Cine Comunidade Santos e Culturalmente Santista — integram o calendário oficial de Santos.
O Instituto também desenvolve iniciativas relacionadas à cultura pop, como o Batman Day Santos e o Geek Comunidade PalafitaCon, além do Cine Rock Santos, atividades educativas e projetos de valorização da memória cultural.
Na área editorial, a CineZen Edições Literárias reúne cerca de 20 livros publicados, abordando temas como cinema, cultura, gastronomia, memória, história e produção regional.
A organização também atua na realização audiovisual. Entre suas produções está o documentário “Fábrica de Sonhos – A História do Cine Roxy”, que resgata a trajetória de um dos mais tradicionais cinemas do litoral paulista.
Ao longo de sua história, o Instituto desenvolveu ações em cinemas, teatros, escolas, praças, universidades, equipamentos culturais, instituições sociais e outros espaços públicos e privados, reunindo profissionais e públicos de diferentes perfis.
Curadoria, pesquisa e encontros entre gerações
A curadoria do CineZen Clube é assinada por André Azenha, jornalista, produtor cultural, crítico de cinema com duas décadas de atuação, pesquisador, escritor e professor universitário.
Doutor em Comunicação Audiovisual, André também é autor de livros dedicados ao cinema e à cultura pop e desenvolve pesquisas relacionadas à história do audiovisual, seus movimentos estéticos e suas representações culturais.
À frente do projeto, ele seleciona as obras, prepara conteúdos de contextualização e conduz conversas que buscam aproximar o público de informações históricas e artísticas sem abrir mão de uma abordagem acessível.
A produção do CineZen Clube é realizada por Paula Azenha, professora, pesquisadora, escritora e produtora cultural, que também participa da direção e organização das demais iniciativas do Instituto CineZen Cultural.
O projeto procura mostrar que os clássicos não pertencem apenas ao passado. Seus temas, personagens, linguagens e reflexões continuam dialogando com questões contemporâneas e podem despertar novas interpretações a cada geração.
Mais do que recuperar filmes que perderam espaço nas salas comerciais ou nos catálogos das plataformas digitais, o CineZen Clube busca preservar a dimensão coletiva do cinema: o encontro entre pessoas, a descoberta de histórias, o contato com outras épocas e a possibilidade de conversar sobre aquilo que foi visto.
Em um momento no qual o acesso à cultura audiovisual é cada vez mais mediado por algoritmos e escolhas individuais, as sessões do cineclube representam uma oportunidade de descobrir obras que talvez não aparecessem nas recomendações de uma plataforma de streaming.
E, sobretudo, de reencontrar o prazer de assistir a um grande filme em uma sala escura, com outras pessoas, na tela para a qual ele foi concebido.
