Por Alexandre Catena e Priscilla Freitas

A verdade absoluta que já sabemos atualmente é que o leite materno é essencial para a saúde do bebê, um alimento completo, que oferece os nutrientes, minerais e os compostos antibacterianos. No entanto, as estatísticas ainda mostram que metade das mães em fase de amamentação não alimentam seus filhos exclusivamente com leite materno e o principal motivo é a falta de informação. Entrevistamos a renomada pediatra Dra. Amanda Cuban Oliveira, que atualmente faz parte da equipe do Hospital Casa de Saúde de Santos no primeiro atendimento ao recém nascido, no Instituto Neymar Junior desenvolvendo o trabalho de puericultura, crescimento e desenvolvimento, assim como na clínica Traumaxxis situada na cidade de Praia Grande como pediatra generalista.
A Organização Mundial de Saúde recomenda que os 6 primeiros meses de vida, o bebê seja alimentado exclusivamente pelo leite materno. Quais os benefícios que o aleitamento materno traz para o bebê e para a mãe?
R.: São inúmeros benefícios, porém os que já temos conhecimento são:
- A amamentação diminui a mortalidade das crianças.
- Protege contra mortes infantis causadas por doenças infecciosas.
- Diminui o risco da Síndrome da Morte Súbita do Lactente
- O aleitamento poderia prevenir mais da metade dos episódios de diarréia e sua gravidade.
- Pode prevenir um terço das infecções respiratórias nos 2 primeiros anos de vida.
- Protege contra Enterocolite Necrosante
- Está associado com melhor desempenho nos testes de inteligência em crianças e adolescentes.
- Reduz maloclusões na dentição decídua
- Crianças amamentadas diminui o risco de Diabetes Mellitus tipo 2
Para as mães:
- Reduz o peso mais rapidamente após o parto
- Ajuda o útero a recuperar seu tamanho normal, diminuindo o risco de hemorragia e anemia após o parto.
- Pode ser um método natural de evitar uma nova gravidez nos próximos 6 meses em que a mãe esteja amamentando exclusivamente.
- Aumenta a sobrevida em mulheres com câncer de mama
- Tem menor risco de câncer de ovário
- Protege contra carcinoma de endométrio
- Está associada com menor risco de Diabetes Mellitus tipo 2 na mulher
- Diminui a recorrência de enxaqueca nas lactantes no pós-parto
Muitas mães se queixam de dor e fissuras (rachaduras) no peito durante a amamentação. É possível amenizar esse problema?
R.: No início do aleitamento é comum sentir uma dor leve tipo queimação ou fisgada no mamilo no começo das mamadas, isso ocorre pela forte sucção. Se a dor persistir e evoluir para fissuras, bolhas, vermelhidão ou até mesmo hematomas, é necessário pedir ajuda. A principal solução é adequar a pega que pode estar incorreta. Em mamilos planos, invertidos, disfunções orais nas crianças, uso impróprio da bomba de leite também podem ser causas de traumas. Deve-se também deixar os mamilos e aréolas arejados, se possível tomar um pouco de sol, evitar a umidade nos mesmos. Produtos como sabão, álcool, buchas são agressivos. Alguns estudos mostram que a lanolina é capaz de ajudar na cicatrização, porém deve-se ficar atento pois nada que não possa ir a boca do bebê pode ser passado no seio materno. Se ainda assim não houver melhora, procure um profissional qualificado para ajuda-lo.
Existe leite materno fraco ou isso é um mito?
R.: Sim, é um mito. O que existe é o leite ideal de cada mãe para seu filho, seja na quantidade ou na qualidade. Muitas vezes a afirmação está associada ao choro excessivo do bebê e o fato dele querer mamar a toda hora, porém essa é a maneira que os recém nascidos encontram de se expressar e comunicar. Temos de levar em consideração que se compararmos o leite humano com o leite de vaca, ele é muito mais denso e consistente, porém a digestibilidade do leite humano é a adequada para o bebê.
Quanto às mães que trabalham fora, como podem continuar amamentando depois do fim da licença maternidade?
R.: Por conta do retorno às atividades, muitas mães acabam abandonando o aleitamento materno exclusivo, no entanto existem maneiras de fazer com que ela possa tirar e armazenar o leite que é o alimento mais importante principalmente até o sexto mês de vida. Primeiramente é necessário a higiene adequada para garantir a segurança e a qualidade do armazenamento, então deve-se remover qualquer adorno, usar touca nos cabelos e máscara para proteger a boca e o nariz, lavar as mãos até os cotovelos e secar com toalha limpa e não esquecer de higienizar as mamas com água. Para coletar deve ser em um local limpo, livre de insetos, animais e não pode ser realizado no banheiro pelo risco de contaminação. Utilizar um copo esterilizado para colocar o leite que sair da mama antes de transferir para o frasco de armazenamento que também deve ser estéril. A ordenha pode ser realizada de forma manual com os dedos indicador e polegar ao redor da aréola quanto por meio de bomba de sucção. Os primeiros jatos devem ser descartados e armazenar o restante. O armazenamento é muito importante, na geladeira pode ficar por 24 horas após a coleta e após o aquecimento não pode ser armazenado novamente. No freezer pode ser por até 15 dias, após descongelado, não pode retornar. Colocar sempre etiquetas com datas. Ao aquecer, nunca utilize o forno micro-ondas, sempre banho-maria.
Algumas mulheres relatam que produzem mais leite do que o suficiente para seu bebê. Como elas podem doar esse leite? Qual a importância do incentivo a doação do leite materno?
R.: É comum que mulheres que estão amamentando produzam leite em quantidade superior ao que seria suficiente para alimentar seu bebê. A doação de leite materno nada mais é que um gesto de solidariedade dessas mulheres com milhares de crianças que precisam receber esse leite. São milhares de recém-nascidos prematuros ou com o peso abaixo de 2,5 kgs que vão ser beneficiados com o leite da doação. No mês de Maio é celebrado o Dia Mundial de Doação de Leite Humano, para incentivar a prática. Em São Paulo houve crescimento de doações após a divulgação. Para doar basta apenas comparecer a um banco de leite onde deve-se preencher um cadastro, apresentar as sorologias realizadas no pré-natal, alguns bancos oferecem até mesmo o serviço de busca em domicílios.
Quais as dicas para uma amamentação correta?
R.: Nos primeiros dias, é produzido gotinhas de colostro, um líquido translucido, essencial para o recém-nascido. Nessa fase é fundamental fazer com que o bebê abocanhe bem a aréola para aprender a sugar corretamente e de forma eficiente para estimular a produção de leite. Conte com toda a orientação especializada principalmente no hospital. Peça a equipe para te ajudar com a posição correta da pega do bebê no peito. O bebê deve ser sempre levado ao peito e não o peito ao bebê, colocar barriga com barriga, pressionar levemente a mama e espalhar o líquido pelo mamilo para que ele encontre mais facilmente o leite, o bebê precisa abocanhar a aréola como um todo e não só o mamilo, a parte inferior do lábio e a língua da criança precisam chegar ao peito primeiro, aproximar o queixo do bebê no mamilo e quando ele abrir a boca, preencher o máximo que der com a aréola. Fazer sempre uma pinça com os dedos indicador e polegar em forma de “C”. O ideal é já colocá-lo para sugar na primeira hora de vida, o contato pele a pele e o cheiro da mãe ajudam a estimular o bebe para que ele mame. O uso de chupeta, mamadeira ou bicos intermediários de silicone não é recomendado nessa fase inicial, pois pode atrapalhar o aprendizado.
Quais os benefícios das conchas de amamentação?
R.: A concha de amamentação ficou “famosa” durante um período e ainda se mantém na lista de produtos mais vendidos para gestantes e novas mães. Acredita-se que elas protegem os mamilos do atrito e ainda ajuda com que os bicos planos ou invertidos sejam projetados para fora e facilitem a pega. Porém não são só benefícios, a concha pode “abafar” causando candidíase nas mamas e até mesmo uma vasoconstrição impedindo a livre circulação de leite e sangue. Portanto deve-se utilizar a mesma com a indicação de um profissional qualificado acompanhando.
Recentemente, a amamentação cruzada foi tema de debate na mídia. Quais os perigos desse tipo de amamentação?
R.: Contraindicado formalmente pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1985, é a prática de mães que amamentam filhos de outras que apresentam alguma dificuldade com o aleitamento, o grande problema é que pode transmitir alguma doença infectocontagiosa como HIV que é extremamente grave e ainda sem cura.
Existem restrições de medicamentos quando se está no período de amamentação?
R.: Boa parte dos medicamentos são liberados durante o aleitamento. Se a lactante tiver dores de cabeça e necessitar de um analgésico, pode! Antibióticos também não tem restrições. Algumas classes como imunossupressores, hormônios, não são liberados, porém casos específicos precisam ser analisados individualmente.
O que é complementação do aleitamento materno? Quando é necessário?
R.: Complementação de leite materno nada mais é que complementar as mamadas do seio materno com leite artificial. A decisão de complementar o aleitamento materno deve ser do pediatra em comum acordo com a família, ele é feito com fórmula de leite artificial e deve-se considerar diversos fatores, o ganho de peso do bebê e sua curva de crescimento, a pouca troca de fralda, comportamento letárgico ou agitado e até mesmo causas maternas, a hipogalactia por reduções de mama, abscessos mamários entre outros.
Foto: Divulgação
Foto destaque: Pixabay