REGIÃO 

Por Anderson Firmino

Nesta segunda-feira (9), completam-se seis meses da tragédia com o ônibus da Viação Brasil Santana, que teria perdido o freio, batido e arrastado cinco carros e uma moto, deixando 10 mortos – cinco mulheres, três homens e duas crianças – e mais de 40 feridos na rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123), em Pindamonhangaba (SP). A dor das famílias que perderam seus entes segue intensa, assim como a busca por justiça. Mesmo após tantos meses nada se avançou no sentido de descobrir os motivos que explicam o acidente. As famílias convivem com as dúvidas e uma saudade gigante.

O ônibus voltava para a Baixada Santista de uma excursão até Campos do Jordão, numa espécie de comemoração antecipada do Dia dos Namorados. O acidente ocorreu por volta das 21h30. Entre os mortos, moradores de Cubatão, São Vicente e Barueri, na Grande São Paulo.

Foto: Reprodução

Doçura, saudade, Natal e um diploma

Um deles é Camila Rodrigues da Silva, de 24 anos. A professora de inglês estava junto com o namorado, Yago Mange, de 25, que também morreu na tragédia. No lugar do luto, o carinho à memória de uma pessoa que sempre foi muito querida por familiares, amigos e alunos.

“A gente vai tocando porque está vivo e não tem o que fazer. Mas é uma perda irreparável. Nos apegamos a Deus para viver cada dia, que jamais será como antes. Até pela filha que ela era, pelo coração que tinha”, desabafa o gestor Marcos Roberto Silva, pai da jovem.

Camila dava aulas em uma escola de Cubatão e sua figura segue viva entre os alunos, na faixa entre 10 e 12 anos.

Foto: Arquivo Pessoal

“A Camila, sempre meiga, tinha um sorriso doce. Isso contagiava a todos. Era a vida dela. Até hoje, as crianças perguntam ((sobre ela)). Tenho uma irmã e uma sobrinha que também trabalham nessa escola. As crianças desenham na lousa e colocam a Camila junto deles. São muitas mensagens de carinho. Isso não pára.”, relata.

Entre os familiares, a dor da perda é sentida por todos. E ela tende a crescer nesta época de festas. Marcos Roberto sabe disso e lembra a presença atuante de Camila nos festejos natalinos. “A Camila sempre foi muito família, e nessa época, já estaria preocupada em reunir todo mundo, se iria ter amigo secreto. Porque sempre foi um costume. Ela cobrava, porque sempre gostou de se reunir. Vamos procurar estar juntos, e assim, fazer com que a dor seja um pouco menor, ao invés de cada um sofrer no seu canto, na sua casa”, conta.

Ele reforça que o contato com a família de Yago também tem sido importante nesse momento. “Sou muito amigo do pai dele (a mãe já é falecida). A família se conhece, e agora ainda mais juntos, porque a dor é uma só. Buscamos confortar um ao outro, ajudar sempre. Ele (Yago) deixou uma irmã e a Camila deixou um irmão (Anderson, de 21 anos). Estamos sempre procurando nos ajudar”.

Em casa, o quarto segue intacto. “As coisas estão nos mesmos lugares. Do jeito que ela deixou, as roupas, o que ela usava, os desenhos, enfeites. Tudo no mesmo lugar, do jeito que ela deixou, e assim vai permanecer”, diz o pai de Camila.

Na parede da sala, entretanto, uma nova peça: um diploma do curso de Fisioterapia da Universidade Paulista (Unip), retirado depois da morte da jovem. “Na semana anterior ao acidente, eu acompanhei a apresentação do TCC dela. Peguei o diploma e o enquadrei”.

Também morreram no acidente: Jackeline Rodrigues Fernandes, de 26 anos; Jaziel Dourado, de 33 anos; Manoella Maciel Dourado, de 4 anos; Luzia Aparecida Alencar dos Santos, de 32 anos; Julia dos Santos, de 3 anos; Doriedson Ferreira da Silva, de 46 anos; Maria Ivonete Marcolino Ferreira da Silva, de 41 anos e Ivan Francisco da Silva, de 43 anos.

A busca por justiça

A luta do pai de Camila e demais parentes de vítimas é para que as razões para o acidente sejam devidamente esclarecidas. A busca por justiça, com a punição dos eventuais culpados, é um desejo em comum.

“Queremos que todos que sejam responsáveis por esse grave acidente sejam punidos no rigor da lei. Não queremos que isso aconteça nunca mais”, diz Marcos Roberto.

A apuração dos fatos, concentrada na Delegacia de Pindamonhangaba, segue em curso. Em agosto, houve a prorrogação do prazo, por parte do promotor. E o juiz concedeu mais 180 dias para estarem concluindo o inquérito. Se não conseguirem finalizar nesse prazo, nova prorrogação pode ser requisitada.

Foto: Arquivo Pessoal

Em setembro, veio a público um laudo pericial do Instituto de Criminalística (IC) , que indica algumas questões, porém, sem conclusões. A perícia atribuiu o problema nos freios a uma soma de fatores: declividade e sinuosidade da pista, superaquecimento dos conjuntos rodantes e o peso do veículo. Ocorreu uso intenso da frenagem, porque sucessivas reduções de velocidades foram verificadas no tacógrafo (equipamento que monitora a velocidade).

Paulo Toledo, advogado que representa as famílias de Camila e Yago, diz só ter tomado conhecimento do documento ‘de forma extraoficial’. “Nada disso foi oficialmente para o inquérito, então não temos acesso oficial e nem há como contestar. A gente teve conhecimento do laudo de forma extraoficial, apenas os do IML feitos no dia, que já estão no inquérito”, afirma.

Marcelo Cruz, que defende a empresa proprietária do ônibus, diz que o laudo não aponta, em tese, pelo menos, inicialmente, qualquer responsabilidade da empresa de ônibus na causa do acidente, tais como falha mecânica no ônibus antes da viagem, má manutenção do ônibus, problema em peça, freio, pneus ou algo semelhante.

“O superaquecimetno dos freios, por exemplo, pode ter ocorrido em função de más condições na estrada. O laudo da equipe técnica de engenheiros que levamos ao local, especializados na construção de pontes e estradas, que ainda está sendo elaborado, aponta diversos problemas naquele trecho de estrada. A velocidade permitida por veículos pesados, como ônibus e caminhões, por exemplo. Eles entendem que é incompatível com a condição da estrada. Não existe uma faixa de sinalização no meio, os chamados olhos de gato. Em diversos pontos, havia má sinalização. Essa faixa não estava operante. Você jogava o farol e não acendia os olhos de gato”, pondera.
Cruz acrescenta que a empresa tem em mãos um laudo da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), que confirma que o ônibus envolvido no acidente estava em situação regular e poderia realizar a viagem.

Indenização e amparo

Paulo Toledo sustenta que teria sido procurado “há uns dois ou três meses, pelo dono da empresa e sua advogada”, para fazer “algum acordo, iniciar uma tratativa, mas a proposta era totalmente irrisória”, tanto que “nem foi passada à família”. “Não é nem questão financeira”, ressalta.

Marcelo Cruz, por sua vez, diz desconhecer tal proposta. “Não tenho essa notícia, mesmo porque não existe qualquer apuração real no inquérito, que aponte culpa da empresa. Como é que vai se responsabilizar juridicamente por algo que nem está declarado ainda, de acordo com as provas apuradas, que a responsabilidade é efetivamente dela? ”.

Toledo afirma, ainda, que não houve qualquer tipo de assistência às famílias, referente aos velórios e sepultamentos. Cruz rebate, alegando que a empresa prestou assistência “de forma humanitária”. “Transporte dos familiares do local do acidente, remanejamento para as cidades de origem e, além disso, várias vítimas tiveram a compra dos medicamentos pela empresa. A Prefeitura de Cubatão se empenhou, especialmente na questão dos velórios e sepultamentos”.

saiba antes via instagram @revistamaissantos