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Santos / Cotidiano

Santos, 476 anos: A paixão por uma cidade

Por Anderson Firmino, Silvia Barreto e Ted Sartori
Da Revista Mais Santos

Em um de seus poemas mais conhecidos, o português Fernando Pessoa escreveu: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.

Com Santos, que completa 476 anos neste 26 de janeiro, acontece o mesmo fenômeno. Quem é nascido na cidade defende-a com unhas e dentes. Quem vem de outras plagas adquire rapidamente este sentimento e não a troca por outro lugar.

Cada um tem sua história de paixão por Santos. Seja a pediatra Keiko Miyasaki Teruya, o surfista Picuruta Salazar, o livreiro José Luiz Tahan e o professor de História João Carlos Pereira de Souza Oliveira.

As reminiscências de uma Santos que, em muitos casos, mudou muito povoam a mente destes entrevistados pela Mais Santos Online na mesma proporção que a visão de futuro para a cidade que, como o rio que passa pela aldeia descrito por Pessoa, será sempre o rio que passa pela aldeia.

Família Teruya reverencia a cidade

Reconhecida, inclusive internacionalmente, pela dedicação e trabalho desenvolvido em prol da Amamentação na cidade de Santos com inúmeras mães, a médica pediatra Dra. Keiko Miyasaki Teruya, doutora em Medicina Preventiva pela USP e com curso de especialização em Aleitamento Materno na Wellstart San Diego Lactation Program, relata a relação de amor vivida pela cidade de Santos e porque os integrantes de sua família se tornaram filhos adotivos “desta querida terrinha”, como descreve.

“Há 54 anos como pediatra, cheguei a Santos após casar com o Dr Joji Teruya, médico que veio para a Santa Casa de Misericórdia de Santos, um dos melhores hospitais do Brasil de formação de cirurgia médica na época. O hospital, na ocasião, contava com 1400 leitos e era o maior complexo hospitalar do Brasil, com 16 salas de cirurgia. Meu marido ficou muito feliz no dia em que recebeu um telegrama da provedoria dizendo que havia sido aceito como residente nesta casa fundada por Brás Cubas que, ao abrir as portas da Santa Casa da Misericórdia – Hospital de Todos os Santos, teria dito: “Casa de Deus para os homens e porta aberta ao mar”.

Seu amor pela cidade remonta desde a infância, ao escutar seus avós contando a saga da família ao vir do Japão, como aportaram nesta “terra prometida” no Canadá Maru em 1925 e foram cheios de esperança para a cidade de Garça e, depois, para Pompeia, onde a médica nasce.

“Meu pai, ao avistar Santos, achou esta terra tão maravilhosa e disse que gostaria de ser enterrado aqui, como de fato o foi. Já o meu marido ouviu falar de Santos pela primeira vez em sua infância em Getulina: seus pais comentando sobre como foi o desembarque no Porto de Santos, quando chegaram do Japão cheio de esperança, e como abençoaram o Brasil na construção de suas vidas. Marcou-me também, já quando maior, ao ir a uma mercearia fazer compras, ver um caixote cheio de sardinhas salgadas e secas pirogravadas com letras bem escritas – Porto de Santos. Por que isso ficou gravado em mim – Santos – se nessa época nem passava pela minha cabeça um dia aqui residir?”, relata.

Prova de amor

A médica conta que, há cerca de 10 anos, seu marido expressou a vontade de morar no interior e poder cuidar de uma pequena roça de café, verduras e outras coisas. Mas foram surpreendidos pela homenagem prestada pela Câmara de Santos.

“Uma carta da Câmara Municipal de Santos, de autoria do então vereador Sadao Nakai, nos dizendo que pela primeira vez em Santos um casal seria considerado ‘Cidadão Santista’. Diante de tão alvissareira notícia, a intenção de mudar de Santos foi logo deixada para trás e estamos aqui manifestando este amor incondicional por esta querida terra.”

Neste caminhar expressa seu amor pela Cidade. “Tivemos uma cadeia de descobertas fantásticas emoções e a razão de nossas vidas. Enxergar quem nos cerca, a generosidade do povo de Santos de nos acolher e fazer-nos sentir verdadeiros filhos da terra, permitindo que ajudassem a minimizar as dores nas doenças, evitando uma criança a chegar à doença através do ato de amamentar. Assim, querida Santos, a eterna gratidão a todo o povo maravilhoso que aqui reside. Sei que esse será o quinhão que deixaremos aos nossos filhos e netos. Arigatogosaimassu!”, finaliza.

O Gato que ama o mar

Picuruta Salazar tem água salgada correndo nas veias. Seu amor por Santos tem local preferido: o Quebra-Mar. É ali que o multicampeão dá aulas e vivencia o surf. E para onde sempre volta após representar a Cidade mundo afora. O Gato, como é conhecido, ama o mar.

“Minha relação com Santos não poderia ser melhor. Como santista de coração, que ama essa cidade de paixão, que viaja pelo mundo há muitos nãos, mas sempre voltando para minha segunda casa, que é o Quebra-Mar. É o lugar que considero o quintal da minha casa e que faz parte da minha vida, da minha história”, explica Picuruta. “San tos é um lugar maravilhoso. Sempre procurei levar o nome da Cidade pelo Brasil e pelo mundo”.

A sua Santos da memória tem dois momentos. “Uma lembrança boa é de quando eu morava no Canal 1. Pegava carona no bonde 37, que ia para o Gonzaga, que era uma atração da nossa Cidade. A gente ia para o Sírio, que tinha os bailinhos”, descreve.

A outra remete à infância, ao lado dos irmãos. “Era por volta de 1972, 1973. Eu e meus irmãos pulávamos no canal para tomar banho. A água ainda era limpa. Em dias que não tinha onda, ficávamos catando lagosta, andando por dentro dos canais, mexendo em pneus. Outra lembrança é de mim e meus irmãos pulando da ponte do Canal 1, na praia, em dias de maré cheia”, relata. “É o que faz eu ter essa cidade no coração, um prazer de continuar levando o nome dela mundo afora”.

Espaço de santistidade

Nascido há 50 anos na antiga maternidade Cid Peres, no Boqueirão, José Luiz Tahan é proprietário de um verdadeiro espaço de “santistidade” no município: a Realejo Livros, no Gonzaga, fundada em 2001 e que também é editora, com mais de 180 títulos de autores santistas, paulistas, cariocas e muitos estrangeiros.

“Ela foi pensada com essa finalidade. Uma livraria de rua com a nossa característica e identidade precisa olhar para os habitantes de sua cidade e de seu bairro. Isso vale para Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Lisboa ou Berlim. Toda livraria e comércio de rua precisa ter uma identificação com seu local”, afirma Tahan.

A característica local da Realejo e, ao mesmo tempo, universal é reforçada em eventos reunindo escritores de Santos e de fora da cidade, o que foi intensificado com a criação da Tarrafa Literária, festival internacional de literatura que acontece há 14 anos no Centro. Os encontros musicais na calçada na frente da Realejo, produzidos pela própria livraria há 16 anos, também fazem parte da paisagem.

“Todas essas ações, somadas a um atendimento atento e com muita opinião, construíram essa marca que nasce em Santos, mas é reconhecida no País todo. Então, no aniversário da Cidade, a gente também celebra continuar com esse trabalho de uma livraria de rua tão notada e respeitada na cidade de Santos como a Realejo”, comenta Tahan. O espaço preferido do livreiro em Santos não poderia ser outro que não a Realejo. O segundo da lista, porém, reúne uma pluralidade tão grande quanto a do público que entra e sai perguntando
sobre obras literárias: a praia.

“É um lugar em que os santistas se encontram livremente, sem diferenças hierárquicas, todos nivelados pelos seus trajes de banho” justifica Tahan. A paixão do livreiro por Santos é composta pelo que chama de “bairrismo positivo”. “Adoro ser daqui e tentar entender o lugar onde nasci e cresci. Essa busca de autoconhecimento passa também pela cidade, suas histórias e complexidades, suas forças e fraquezas. Defendo, me divirto, trabalho e aprendo com a nossa cidade. Chamo isso de bairrismo saudável”, declara-se.

História e cultura contribuem para o amor pela cidade

A importância da história para a vida só se torna visível a partir do momento em que compreendemos o tipo de utilidade que ela pode nos oferecer. No período escolar, são compreensíveis alguns questionamentos quanto à utilidade das disciplinas estudadas. Uma delas é a História.

O tema pode não ofertar uma solução prática, de algo imediato, mas, além da contribuição cultural, colabora com a compreensão de fatos da sociedade e até questões políticas entre os países e suas civilizações. O docente João Carlos Pereira de Souza Oliveira, professor de História da Universidade Santa Cecília, ressalta a importância do conhecimento histórico regional.

“É de suma importância os jovens terem conhecimento da História da sua cidade, de suas características, como se desenvolveu, de que forma e maneira. Este conhecimento traz um sentimento de pertencimento, de valorização, o que contribui para a sua vivência cidadã e sua vontade de defender, de valorizar o lugar que vive”.

Entre as ações colaborativas para o enriquecimento cultural, ele cita a visita in loco e a ambientação dos lugares com os estudantes. No seu entendi- mento, a iniciativa traz uma amplitude de questões pontuais da cidade.

“A instituição em que trabalho tem várias ações que valorizam nossa cidade como visitas a seus principais monumentos e a importância deles para a construção do cidadão e da cidade, o que ajuda aos jovens a valorizar esta cidade. Em minhas aulas, procuro trazer os problemas atuais, como Porto, balneabilidade, turismo e referências a momentos históricos. Por exemplo, quando faço referência a Igreja Ortodoxa na Avenida Ana Costa, em aulas de História Antiga, ou os canais como obra de engenharia e utilidade social, sempre recordo que não há jardim de praia como o de Santos, que ele está no Guinness Book, nosso sistema de esgoto, um dos maiores do País, o que valoriza a saúde. Claro que chamar atenção para as questões do Centro, área continental também são importantes”, descreve.

Com tanto conhecimento adquirido ao longo dos anos em sua carreira, e a própria experiência de vida, o professor João Carlos tem uma certeza quando se refere a Santos: “Amo esta cidade. Já morei em outras, muito boas, mas quando olho os jardins, a praia e o Monte Serrat iluminado, não há lugar melhor para se viver”.

Fotos: @dronefabiano68, @drone.rrv e Divulgação