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Santos / Festas Populares

Carnaval, um desfile de memórias

Por Anderson Firmino, Silvia Barreto e Ted Sartori
Da Revista Mais Santos

No coração da maioria dos brasileiros, reside um folião. Pode até nem sambar direito, ou ser um entusiasta de blocos e bandas. Mas é inegável que a festa popu- lar mais importante do País desperta muitas paixões. Pelo segundo ano seguido, por conta da Covid, os dias de festa foram deixados de lado. Mas, e quem é que manda na memória dos amantes do Carnaval?

Quem curte a data, ou contribui para que os festejos ocorram, coleciona passagens ligadas à Festa de Momo. Algumas são bem peculiares, outras dotadas de emoção. Mas, em um ponto, todas convergem: o Carnaval é de todos. E, em breve, poderá ser palco de novas histórias – que irão para além da Quarta-Feira de Cinzas. Confira algumas:

Ricardo Peres, uma união de histórias de Carnaval

Cantor e compositor, Ricardo Peres é uma figura muito co- nhecida do samba de Santos e da Baixada Santista. Como se não bastasse, por essa condição, ter muitas histórias do Carnaval, em especial ligadas à sua escola, a União Imperial, do Marapé, ele também sabe contá-las como poucos, com riqueza de detalhes e o bom humor que elas exigem.

A União, inclusive, foi bicampeã do Carnaval santista em 1985 e 1986. Duas dessas passagens remetem justamente àqueles tempos. Em um desses anos, a escola alugou um barracão no Valongo para fazer os carros alegóricos e levá-los totalmente prontos para a avenida. Para isso, dezenas de pessoas eram necessárias. Porém, um problema aconteceu.

“Quando fomos tirar um dos carros alegóricos lá de dentro, ele era maior do que a porta. E ninguém queria destruí-lo para que passasse. Nesse puxa e empurra daqui e dali, ficamos quase duas horas para resolver o problema. Acabamos quebrando a parte superior da porta para que o carro saísse intacto”, lembra.

Em uma dessas conquistas, Ricardo Peres era diretor de harmonia da União. Montar a escola, de modo a organizar as alas de acordo com o enredo, é um trabalho enorme. Era muito comum o trabalho atrasar e as pessoas ficarem, por vezes, até cinco dias sem dormir e, depois, irem para a avenida mais do que cansados. Um detalhe, porém, chamou a atenção de Ricardo.

“Depois da escola inteira montada, havia uma ala com um chapéu. De baixo, eu via um braço, que parecia de uma pessoa, saindo de dentro desse chapéu, que não tinha teto. Chamei a empilhadeira, subi no carro e, quando fui ver, esse braço era do Valter Dias, um dos caras que tomava conta do carnaval da escola e desenhava os figurinos. Ele tinha montado o carro e dormiu dentro do chapéu. Veio do barracão lá dentro até a avenida. Se eu não acho o Valter, iríamos desfilar com ele dormindo e o braço para fora. Foi um grande susto, mas conseguimos resolver o problema”, recorda.

No desfile de 1989, outro conquistado pela União Imperial, um casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola verde e rosa estava pronto para iniciar o desfile junto com a escola. A não ser por um “pequeno” detalhe.

“A fantasia tinha sido trazida e montada na avenida, mas esqueceram a bandeira. Um dos integrantes da escola saiu voando de moto e foi até a casa da costureira. Ele pegou a bandeira e, quando chegou, a escola estava cantando o samba. Foi desesperador, mas deu tudo certo”, detalha Ricardo.

Falando em costureira, no primeiro ano da Águia do Marapé no Carnaval, em 1977, Ricardo Peres saiu na bateria da escola. A entrada aconteceria por volta das 23 horas e as fantasias chegaram duas horas antes, com um problema: não havia identificação aparente a quem pertencia cada roupa.

“Nunca me esqueço que desfilei com uma calça que cabia uns cinco de mim, porque eu era muito magrelo. Cada um pegava uma roupa mais ou menos do tamanho para dar ponto e adaptar. Quando acabou o desfile é que descobrimos que o nome de cada um estava no bolso de cada roupa. Ninguém procurou saber disso nem a costureira falou para gente. Aí desfilamos todos desengonçados, uns com as roupas dos outros”, diverte-se o sambista. (TS)

“O meu coração xisnoveano, a meta é a avenida e bandeira é o samba”

A embaixadora do samba em Santos, Irene Barbosa, 69 anos, define o Carnaval como patrimônio cultural. Para ela, o desfile é uma peça de teatro a céu aberto e em movimento. “Sempre desfilei porque gosto, tenho amor ao samba, ao meu pavilhão e à avenida”, descreve.

Desde os seus 10 anos, Irene convive com o ambiente carnavalesco. Ela conta que sua mãe a levou para a Escola de Samba Brasil, mas sua “paixão” sempre foi pela X-9. Tanto que desfilava pelas duas de forma disfarçada. “Eu desfilava na Brasil de porta-bandeira e embaixo daquela roupa usava a roupa de passista para sair na X-9. Saía escondido, mas saía (risos). A Pioneira é minha escola de coração”, define.

Depois dos 20 anos, Irene voltou em definitivo para a escola do Macuco. “Tocava chocalho, reco e, depois, me candidatei para cidadã samba, em 1996, sendo fundada a Velha Guarda da X-9, da qual pertenço até hoje. Sou a porta-estandarte na avenida e pertenço ao grupo da ala musical”, relembra.

Com tanta experiência, ela ressalta a responsabilidade na preparação do Carnaval. “Para quem está assistindo, tudo é alegria, mas para nós que estamos ali é um trabalho. Fico nas con- fecções de fantasia, já ajudei a enfeitar os carros alegóricos. Gosto porque cada ano aprendo mais”.

De forma bastante alegre, Irene descreve a sensação de quem está desfilando. “Quando vou para a avenida, parece que todo mundo foi para me ver, e não ver a escola (risos). Vamos com muita alegria”.

Para os novatos, a embaixadora orienta com toda sua experiência: “Quando for para a avenida, vai com amor fazer aquilo. É como se fosse um filho que esteja carregando. Vai para se divertir, vai com amor, muito amor para a avenida”, finaliza. (SB)

Chiclete com Banana – e amor

Secretário de Esportes de Santos, Gelásio Fernandes é o típico folião. Ele conta que, quando era mais jovem, foi a Salvador várias vezes. E não abria mão de acompanhar o bloco Chiclete com Banana, capitaneado por Bell Marques. Ele tem uma lembrança especial relacionada à banda.

“Conheci minha esposa em um show do Chiclete, assim como muitos amigos”, conta Gelásio, que traz uma curiosidade. “O Chiclete com Banana tocou na praia do Gonzaga um pouco antes do Carnaval, se não me engano, no ano de 1988 ou 1987. Havia, no máximo, 100 pessoas. Ninguém conhecia”, diverte-se. O Asa de Águia, de Durval Lélis, também agradava em cheio. “A gente trazia fitas gravadas de lá com as músicas, porque foi bem antes daquele boom da Daniela Mercury (início dos anos 90) ”.

Os desfiles de escolas de samba também contaram com a presença do secretário de Esportes. “Desfilei na Unidos dos Morros em 2012 e foi inesquecível. Era uma homenagem ao Paulo Gomes Barbosa, pai do meu amigo Paulo Alexandre”, finaliza. (AF)

Direito a boas lembranças

Histórias e boas lembranças não faltam para a advogada Cristhiane Neves Saraiva quando o assunto é o Carnaval. “Para mim, sempre foi sinônimo de alegria e família reunida. Nos reuníamos na casa dos meus tios Zé e Necas, onde já colocávamos as fantasias e nos maquiávamos”, relembra.

Toda a preparação tinha destino certo. “Íamos pular Carnaval no Portuários. Em alguns anos, saíamos dos salões e íamos direto para a praia desfilar pela União Imperial. Ah, como era divertido! Curtimos muito os bailes de Carnaval na cidade de Santos”.

Atualmente, a família ainda segue unida neste período, mas de forma diferenciada e com outras programações. “Hoje, viajamos e pulamos em outras cidades ou reunimos a família em casa e fazemos o nosso próprio Carnaval. O riso e a alegria sempre permanecem em nós. Quanto riso, quanta alegria”, celebra. (SB)

Foto: Norberto Moreira Júnior/Arquivo