Por Silvia Barreto, Anderson Firmino e Ted Sartori
Da Revista Mais Santos
Dar uma espiadinha na vida alheia é uma ativi- dade tão antiga quanto fascinante. Querer conhecer as verdadeiras faces das pessoas, reveladas pelo confinamento em um ambiente único, e ainda despertar discussões de temas, debatidas em uma aristocrática mesa de jantar ou em um bar dos mais populares, é um esporte praticado por muitos brasileiros que acompanham diariamente os realities shows.
A estreia da edição 22 do Big Brother Brasil, levado ao ar pela Rede Globo, e o surgimento na TV brasileira de outros tantos filhotes, que propõem tipos diferentes de objetivos e desafios ao longo de mais de duas décadas, fazem surgir novamente uma história antiga, que acontecia com as telenovelas.
Até o início dos anos 1970, acompanhar essas histórias na telinha era para as mulheres das classes populares. Quem tinha empregada em casa, costumava dizer que viu alguma cena por- que passou casualmente pela porta do quarto dela e o aparelho estava ligado. Encontrar um homem que admitisse ver novelas naqueles tempos era mais difícil do que encontrar uma agulha em um palheiro.
Apesar do preconceito que ainda existe – e já foi bem maior -, os realities shows são fonte de entretenimento para todos os sexos e classes, gerando até torcidas apaixonadas – e amplificadas pelas redes sociais, alicerce da cobertura jornalística dos programas, de olho em cada passo ou deslize dos participantes.
Quem esteve lá dentro não esquece do que viveu. Quem assiste não vê a hora de chegar a próxima edição, ainda que a atual tenha poucos dias no ar. Por tudo isso, a Mais Santos Online fala deste fenômeno tão longevo sob os mais diversos ângulos desta máquina de heróis e vilões, gerados por uma inocente – ou não – espiadinha.
Em cada edição, uma narrativa
Como avaliar as possíveis identificações das pessoas com programas de entretenimento, que seguem a linha adotada pelo Big Brother Brasil, da Rede Globo? Para responder este questionamento, o educador Silvério Ortiz, professor de Filosofia em escolas de Ensino Fundamental e Médio, palestrante e realizador de cursos/projetos de filosofia com cinema, arte e música, gastronomia e turismo, para jovens e adultos, recorre à análise da narrativa adotada pelo programa em suas diferentes edições.
“Existe uma aproximação do que acontece dentro da casa do BBB e das novelas, no sentido de que existem roteiros das convivências, que são até mesmo criadas pela produção, que vão desde os namoros, casos, brigas (ou as tretas como se fala hoje). Então, este tipo de conteúdo quando esteve dentro das novelas sempre trouxe atenção e alta audiência”, analisa.
Ortiz destaca a influência das redes sociais ao longo dos 20 anos de duração do programa, admitindo ter sido também atraído novamente pelo conteúdo por conta desta ferramenta.
“Eu voltei a atenção para ver o que estava acontecendo, em grande medida porque entrava nas redes sociais e as coisas estavam acontecendo ali dentro das redes. O programa passa a ser roteirizado também pelas pessoas de fora. São vídeos, memes, debates e tem perfis que vivem disso, de comentar o que acontece lá dentro. A partir daí, gerando visualizações e seguidores”, ressalta.
Em sua avaliação, a identificação com o público diverso acontece a partir da mudança do perfil dos participantes, adotada pela direção do programa. “Essa identificação está muito evidente nessa forma que o BBB ganhou. No início, eram as moças para fazer capa de Playboy e, agora, tem o perfil muito mais homogêneo. Vai criar a identificação com o público mais diverso, como o público LGBT, a presença maior de negros e pessoas de origem mais humilde que deram certo”, compara.
Gamificação
O professor amplia a sua análise em relação a existência do programa, exemplificando através do programa “Você Decide”, interativo do tipo teledramaturgia não seriada, exibido pela Rede Globo entre 1992 e 2000, reforçando que as evoluções na área tecnológica, mudando o status daqueles que acompanham televisão, mudando de passivo para ser atuante/influenciador.
Essa realidade representa a gamificação do programa, colocando-o em situação de positividade, ou seja, de peque- nas vitórias. “Quando se pensa em uma gamificação, está se pensando em coisas que você vai ter o retorno/recompensas a curto prazo. Exatamente a lógica da curtida, de ganhar seguidores, views, o que dá a sensação de que a vida está dando certo”, diz, citando a participação do público de forma intensa neste modelo de jogo adotado pelos organizadores do programa e o investimento das empresas em uma fórmula de sucesso firmada ao longo dos anos.
Positivo x Negativo
Como professor de Filosofia, Ortiz – atuante em suas redes sociais @silverioortiz.filosofantes – pondera a respeito do quanto os temas debatidos na Casa acabam reverberando em sala de aula. Diante disso, há o lado negativo dessa proposta de entretenimento, com ênfase para os pontos negativos ofertados à sociedade.
“O espelho da sociedade, no sentido de que a pessoa paralisa sua vida em função da vida do outro. A ida do BBB para o streaming tem gerado um efeito de vício. A vida dela passa a ser comentar, postar, produzir material – conteúdo – em cima de um programa que é 24 horas/dia”, descreve, citando esse ser um lado bastante negativo da sociedade contemporânea.
Ele cita a perversidade aplicada aos participantes e que passa despercebido por conta da gamificação. “É um game onde a eliminação, a exclusão, colocar para fora, é uma lógica reforçada. Temos uma influência, sim, em nossos comportamentos dado por uma lógica de exclusão, de eliminação. No meu olhar. isso ganha pontos positivos. Só não ganha pelo lado positivo, olhando pelo comercial. Isso é imbatível. Sucesso absoluto”, finaliza.
Olhar “de elite” x pautas relevantes
Nesses mais de 20 anos, apareceram na TV brasileira realities shows dos mais variados tipos, que vão de gente pelada na selva às competições de culinária. Mas são os de convivência sob confinamento que mobilizam as atenções do público. E da imprensa especializada. No paredão dos pré-julgamentos, a ordem é desviar das críticas rasas e colocar como líderes algumas discussões pertinentes que advém dos programas.
A jornalista Daniela Paulino foi editora de Variedades do extinto jornal Expresso Popular e acompanhou de perto as mudanças nos pro- gramas de realidade no País, em especial o BBB. Para ela, o ato de trancafiar pessoas de mundos diferentes e “gente igual a gente” numa casa, com privações e outros desafios, fascina o público.
“Conforme o tempo passa, você consegue identificar o quanto as pessoas são afetadas por esse convívio, pela saudade, pelas diferenças… Acho que isso tudo alimenta esse fascínio”, avalia.
Para ela, o BBB reflete a sociedade, em todos os aspectos. “O começo do Big Brother era uma experiência brutal. Todos anônimos sem saber bem o que era passado aqui fora e o que aconteceria com eles depois. Conforme as edições aconteciam, as pessoas entravam mais “preparadas”, se assim podemos dizer (risos). Preparados nunca estão realmente”, ressalta.
Daniela lembra que, nos primeiros tempos do reality da Globo havia embates classificados como “selvagens”. “O Alemão, por exemplo, foi campeão de uma edição em que xingou uma mulher, namorou com duas e era ex- tremamente sem filtro. Hoje temos a época dos “politicamente corretos” com medo de cancelamento. Mais um reflexo da sociedade”.
A própria cobertura da imprensa mudou muito, na visão da jornalista. As coisas ficaram, digamos, mais fáceis com o advento das redes sociais. “Elas amplificam os efeitos e informações do confinamento. Posso dizer que hoje é bem mais fácil virar comentarista de BBB. Antes a gente tinha que acompanhar mesmo, gravar, rever. Hoje tem tudo à mão. Se você não viu, a rede social te ajuda”, raciocina.
Críticas e futuro do reality
Daniela Paulino lembra que sempre teve de lidar com críticas a seu gosto por realities. Para ela, este tipo de visão não se sustenta, pois pautas importantes já foram levantadas em edições do Big Brother Brasil, por exemplo.
“Lido com isso até hoje. Tem gente que fala: ‘Nossa, você é tão inteligente e gosta de BBB…’, lamentando. Eu sempre encarei numa boa. Entendo quem não gosta, mas dizer que quem gosta tem menos informação e inteligência é muito raso. Aí fico com um pouco de pena. E que passa logo”, brinca. “O BBB sempre jogou na cara da sociedade o que esta- va rolando. Tanto que pautas importantes sempre foram levantadas e abordadas de acordo com o momento em que vivíamos. O programa já mostrou um cara sendo acusado de ser “estranho e abusivo” que, ao sair, foi condenado por estupro”, acrescenta.
Ela lembra, ainda, dos “terremotos” nas carreiras dos músicos Karol Conká e Projota por conta de posturas erráticas dentro da casa no ano passado.
“A Karol Conká teve que descer vários degraus da carreira por mostrar quem realmente era. Projota também teve que voltar algumas casinhas no jogo da vida. Se isso não é vida real, não sei mais o que é. Agora, é um entretenimento. Se alguém não gosta, tudo bem. Deixa quem gosta curtir”, pede a fã de Gil do Vigor e que define o frisson em torno de Juliette Freire como um “surto coletivo”.
Para a jornalista, os realities, em especial o BBB, ainda têm vida longa no Brasil, desde que acompanhe as mudanças da sociedade sem perder a essência.
“É um desafio e tanto nesse mundo de haters em que vivemos. As pessoas entraram nessa edição, por exemplo, com muita cautela, o que faz o jogo se arrastar. Isso também tira um pouco do brilho. Mas acho que toda edição vai ter seu charme. Umas mais, outras menos. Faz parte. E eu vou continuar acompanhando”, garante.
Frustração e superação
Integrante do Big Brother Brasil 8, levado ao ar em 2008, a santista Juliana Goes ficou mais de 10 anos sem acompanhar o programa porque eram gerados muitos gatilhos emocionais e não faziam bem a ela.
“Com o tempo, curei algumas feridas e tenho uma visão mais clara do processo, pois foi frustrante demais sair e não me sentir valorizada profissionalmente como gostaria. Queriam que eu fosse atriz, por exemplo. Até fiz umas pontas, mas não era o que realmente queria. E esse sentimento, mesmo tendo prosperado financeiramente e tido visibilidade, trazia um peso de não ter chegado lá, como se tivesse fracassado. E não era bem assim. O tempo e a maturidade me fizeram entender que aquilo aconteceu na hora certa, do jeito que fiz e me ensinou muito”, revela.
Juliana voltou a assistir à atração – e aos poucos – em 2020, para acompanhar Bianca Andrade, uma grande amiga. “Em 2021, eu acompanhei muito. Fiquei apaixonada pela Juliette. Neste ano, tenho acompanhado mais pelas redes sociais mesmo. Com dois filhos fica puxado (risos). E não costumo ver outros realities”, conta.
As tentativas de participar do BBB começaram em 2005. Um olheiro encontrou Juliana Goes em uma semana de produção de moda – ela trabalhava como modelo.
“O processo de inscrição é o mesmo de quem vai sem indicação. Na época. eram páginas e páginas a serem preenchidas a mão e também tinha uma fita VHS para mandar pelo Correio. Essa indicação não garantia necessariamente a entrada na casa, pois você será avaliada em diversos testes, além da famosa cadeira elétrica, que é a entrevista principal”, detalha.
No entanto, Juliana não passou nos testes. No ano seguinte, ela estava se formando em Jornalismo e queria manter o foco na carreira. Por essa razão, nem quis testar. “Já em 2007, passei por um contratempo muito grande na carreira. Estava desiludida e pensei que não tinha muito a perder se en- trasse no programa. Lá fui eu novamente, me inscrevi e, dessa vez, consegui uma vaga na casa mais vigiada do Brasil”, recorda.
Cobertura emocional
A jornalista Daniela Paulino viu de perto a eliminação de Juliana Goes na edição de 2008 e não esquece os momentos únicos vividos naquela cobertura.
“Foi sensacional acompanhar a saída da Juliana, apesar de torcer por ela. Foi minha única experiência presencial no antigo Projac. Eu acompanhei o programa de uma sala específica para os jornalistas que cobriam as eliminações, com acesso a todas as câmeras. Conhecemos os bastidores, mas não ficamos onde o (Pedro) Bial (apresentador do programa na época) estava com as torcidas. Acompanhamos a primeira coletiva do eliminado, no caso a Juliana, infelizmente. A mágica aconteceu no hotel mesmo, onde consegui ficar no quarto da Juliana. A gente já acompanhava a trajetória dela com ajuda da Nadja, a mãe. Então, foi uma cobertura muito emocional. Eu já estava envolvida com aquela família. Não esqueço nunca. Tenho contato com elas até hoje”, descreve.
Nos primeiros dois anos da fama instantânea, Juliana Goes conta que teve muitas oportunidades como modelo e poucas como jornalista, o que foi criando uma sensação de falta de realização pessoal e profissional.
“Eu era muito jovem e sonhadora. Acreditava que fama e estabilidade financeira bastariam para uma vida feliz. Mas muitas portas que se abriam não tinham a ver com aquilo que eu idealizava para mim. Mesmo sendo bem jovem, consegui ter esse discernimento e dar alguns nãos”, conta.
Novos rumos
A ex-BBB decidiu ir embora do Rio de Janeiro, onde morou por um tempo, e voltou para a terra natal Santos decidida a conseguir um trabalho na TV como repórter ou apresentadora.
“Sou muito grata ao João Bernardo, do Programa JB (Santa Cecília TV), que me abriu as portas e me ensinou muito. Depois, tive um programa meu no SBT e, paralelamente, criei um canal no YouTube falando de beleza e maquiagem. Foi minha forma de caminhar com as próprias pernas e não depender de carona na fama instantânea. Eu buscava por realização e construir meus próprios caminhos foi primordial para chegar onde cheguei. Hoje me sinto realizada e bem-sucedida. Fiz meu ‘prêmio’ aqui fora com muito trabalho. Co-fundei um aplicativo global de meditação e uma plataforma de yoga. Fui uma das primeiras criadoras de conteúdo no Brasil. Me orgulho de ter optado por recomeçar do zero, acreditando em mim e trabalhando muito”, afirma.
Ao mesmo tempo em que Juliana Goes reconhece que a participação no Big Brother Brasil mudou o rumo de sua vida, ela optou por não usar o programa ou o rótulo de ex-BBB como algo que fosse alavancar sua carreira no YouTube.
“Talvez eu estaria até hoje buscando a fama, ainda que possa soar contraditório, pois ainda sou pessoa pública por conta do meu trabalho na internet. Só que é diferente. Hoje eu tenho segurança de ser agregadora de valor na vida das pessoas. Tenho uma missão clara. A fama por si só não solidifica uma jornada, é vazia. Eu quis ser a Juliana Goes, santista, jornalista, curiosa e cheia de vontade de ver as pessoas se reconectando com elas mesmas. E faço isso até hoje, sendo também a Juliana mãe, esposa, escritora e palestrante. Aproveitei cada oportunidade da minha projeção e depois trabalhei para ser muito mais do que a Juliana do BBB”, define.
ARTIGO
Assim é se lhe parece
Entretenimento fútil. Talvez seja essa a definição mais frequente para os críticos ferrenhos de um reality show. Pode até ser, mas eu acrescentaria ao conceito um “as- sim é se lhe parece”. O livre arbítrio dado ao ser humano – inclusive em relação à programação da TV, em canais abertos ou fechados – é um ótimo exercício nesse caso.
Depois de 40 anos de crítica de TV, aprendi a observar (e treinar meus ouvidos para) os mais variados comentá- rios sobre o conteúdo oferecido pela tal “caixa mágica”, da qual falavam tantos teóricos em Comunicação. A grande massa, no entanto, acompanha realities; e até cria inimigos ou provoca olhares tortos, de condenação, para quem “ousa” assumir tal condição.
Na pior das hipóteses, um reality show provoca reflexão sobre temas sensíveis em horário nobre. E, afinal, assiste quem quer (óbvio que muitos jamais assumem, nem sob tortura!) Racismo estrutural, gordofobia, sororidade, feminismo, cultura do cancelamento, transfobia e por aí vai. Quase um intensivão de abordagens psicológi- cas as quais muitas vezes ignoramos, reprimimos ou fazemos cara de paisagem para não nos comprometer. A isso dou um carimbo de hipocrisia.
Portanto, que ninguém lance pedras sem conhecimento de causa. Até porque, mesmo para criticar é preciso ter – digamos – alguma experiência em acompanhar um reality show (quem nunca?), sob pena da futilidade de argumento cair sobre a própria cabeça.
Shift Jr. (Alter ego de Antonio Marques Fidalgo, jornalista e crítico de TV “aposentado”)
Foto: Divulgação TV Globo